O túnel era um aperto só. Helena sentia as paredes de pedra úmida roçando nos seus ombros, e o cheiro de terra molhada estava quase sufocando. A Bia ia na frente, usando a lanterna do celular que já estava com a bateria pedindo arrego, piscando igual luz de boate barata. O som dos passos delas ecoava, um tap-tap-tap apressado que parecia acompanhar as batidas do coração da Helena. — Corre, Helena! Se eu entalar nesse buraco, tu me empurra, pelo amor de Deus! — Bia gritou, a voz saindo abafada pelo eco. — Para de falar e foca no caminho, guria! Se a gente parar agora, o Sr. Jorge pega a gente e faz picadinho! — Helena respondeu, sentindo o pergaminho do mapa pinicar contra a sua pele, escondido debaixo da blusa. De repente, o túnel deu uma inclinada para cima e, com um esforço de fazer o pulmão arder, elas saíram por uma fresta entre duas rochas gigantes, direto nas dunas que cercavam o farol. O vento lá fora estava um esculacho. A areia voava na cara delas, ardendo igual agulha. A noite já tinha caído de vez, e a única coisa que dava pra ver eram os faróis dos carros pretos lá no alto do morro, girando como olhos de predador. — A gente precisa chegar na caminhonete! — Bia apontou para baixo, onde o veículo parecia uma miniatura perdida na imensidão de areia. — Não dá, Bia! Eles estão patrulhando a estrada principal. Se a gente for por lá, é vala! — Helena segurou o braço da amiga, puxando-a para trás de uma duna mais alta. — A gente tem que dar a volta pelas pedras, perto da água. — Tu tá maluca? O mar tá furioso, Helena! Se a Correnteza pegar a gente... — A Correnteza tá ocupada tentando entrar na capela. O Caio tá segurando o tranco lá. É a nossa única chance! As duas começaram a descer a duna, escorregando na areia fofa. Helena olhou para trás, em direção ao farol. De longe, dava pra ver uns clarões azuis saindo pelas frestas das janelas da capela, misturados com uma fumaça preta que parecia ter vida própria. O peito dela apertou. Ela queria voltar, queria tirar o Caio de lá, mas sabia que se o fizesse, o sacrifício dele seria em vão. — Aguenta aí, Caio... — sussurrou ela, enquanto o vento levava suas palavras. Enquanto isso, lá no porão da capela, o clima estava mais pesado que enterro de quinta-feira. A estante de ferro tinha sido arremessada para o lado como se fosse feita de papelão. O Sr. Jorge desceu as escadas devagar, limpando o pó do seu terno caro com um lenço de seda. Atrás dele, dois caras com cara de poucos amigos seguravam lanternas potentes e o que pareciam ser uns bastões eletrificados. O porão estava imerso numa luz azul pulsante. No centro, o vulto de Caio estava mais nítido do que nunca, mas ele parecia estar sangrando luz. Ele mantinha as mãos espalmadas sobre a maquete de vidro, que brilhava como se tivesse um sol dentro dela. — Ora, ora, Caio. — Jorge disse, com aquele sorrisinho cínico que Helena tanto odiava. — Três anos no fundo do mar e você ainda continua sendo o funcionário mais problemático que eu já tive. — ...você nunca foi meu chefe, Jorge... — a voz do Caio saiu como um trovão, fazendo as taças de cristal que estavam na mesa estourarem. — ...você é só um carrapato tentando controlar algo que é maior que a sua ganância. — Pode chamar do que quiser, meu caro. Mas meu avô construiu este império sobre esse "algo maior". O mar pede tributo, e eu sou o homem que decide quem vai ser sacrificado. — Jorge deu um passo à frente, sem medo. — Cadê a garota? Cadê o mapa? — ...longe do seu alcance. Elas não são como você. Jorge soltou uma gargalhada seca, sem um pingo de humor. — Elas são humanas, Caio. Frágeis. O mar vai encontrá-las antes mesmo de chegarem na cidade. Agora, saia da frente dessa maquete. Esse sistema pertence à minha família. — ...o sistema pertence à cidade. E eu sou o arquiteto que vai fechar a porta que vocês deixaram aberta. Caio fechou os olhos e um pulso de energia azul varreu a sala. Os capangas do Jorge foram jogados contra a parede, mas o velho permaneceu de pé. Ele tirou do bolso um amuleto feito de uma pedra escura e fosca, que começou a absorver a luz do Caio. — Você esqueceu que eu conheço os truques do mar tanto quanto você, rapaz? — Jorge começou a caminhar em direção ao altar subterrâneo. — Esse amuleto foi banhado nas águas da Correnteza. Ele come a energia de espíritos como você no café da manhã. A imagem do Caio começou a falhar, piscando como uma lâmpada queimada. Ele sentiu uma dor excruciante, como se sua essência estivesse sendo sugada por um aspirador de pó gigante. — ...não... vai... conseguir... — Caio gemia, tentando manter o foco na barreira. De volta às dunas, Helena e Bia estavam quase chegando à beira-mar quando ouviram um grito. Mas não era um grito humano. Era um som metálico, vindo lá do farol. Helena parou de repente, sentindo um vazio enorme no peito, como se um fio que a ligava ao mundo tivesse sido cortado. — O Caio! — ela exclamou, caindo de joelhos na areia úmida. — Helena, levanta! Eles estão vindo! — Bia apontou para o topo da duna. Três homens estavam descendo a areia em direção a elas, usando lanternas táticas. O jogo tinha ficado sério. Elas não tinham para onde correr; de um lado os capangas, do outro o mar revolto. — Entra na água! — Helena gritou. — Tá maluca? A gente vai morrer! — Bia segurou a mão dela. — Confia em mim! O caderno! — Helena tirou o caderno da bolsa. — Caio disse que as cartas eram âncoras. Se a gente entrar com ele, a Correnteza não pode tocar na gente enquanto o Caio estiver lutando! As duas mergulharam na água gelada até a cintura. As ondas batiam com força, tentando puxá-las para o fundo. Os homens pararam na beira da água, hesitando. Eles sabiam que aquele mar não era normal. — Peguem a bolsa! — gritou um deles, mas ninguém se atreveu a dar um passo dentro da espuma negra. Dentro da água, Helena sentiu algo diferente. O caderno em sua mão começou a brilhar com uma luz suave, criando uma bolha de calma ao redor delas, mesmo com o mar furioso a centímetros de distância. — Caraca, Helena... a gente tá dentro de uma bolha de sabão mágica? — Bia perguntou, de queixo caído, vendo a água desviar delas como se houvesse um vidro invisível. — É o Caio. Ele ainda tá lá. — Helena olhou para o horizonte, onde as luzes da cidade brilhavam longe. — Bia, a gente tem que ir nadando pela costa até a Praia do Meio. É longe, mas lá tem gente, lá eles não podem fazer nada. No porão, a situação estava crítica. Caio estava de joelhos, quase totalmente transparente. O Sr. Jorge estava diante dele, com o amuleto brilhando com uma luz negra sinistra. — Acabou, Caio. — Jorge esticou a mão para tocar na maquete. — Vou resetar o selo e deixar a Correnteza limpar essa orla de uma vez por todas. O seguro vai pagar bilhões, e eu vou reconstruir tudo com o meu nome no topo. — ...você esqueceu de uma coisa, Jorge... — Caio levantou a cabeça. Um sorriso desafiador apareceu no seu rosto pálido. — ...a arquitetura não é feita só de pedra e vidro. Ela é feita de intenção. E a minha intenção é proteger quem eu amo. Caio soltou a maquete. Em vez de lutar contra o amuleto, ele se permitiu ser sugado. Mas no momento em que sua essência entrou na pedra negra, ele causou um curto-circuito espiritual. A luz azul e a luz negra se chocaram violentamente. BOOM! Uma explosão de energia jogou Jorge para o outro lado da sala, quebrando várias prateleiras. O porão começou a rachar. A água do mar começou a invadir pelas frestas do teto. — Maldito! — gritou Jorge, tentando se levantar, mas uma viga de madeira caiu sobre suas pernas. Caio reapareceu por um segundo, pairando sobre o caos. Ele parecia exausto, mas vitorioso. — ...corre, Jorge. O mar tá vindo buscar o tributo que você tanto ofereceu. Caio sumiu num estalo, voltando para o caderno que Helena carregava no mar. Helena e Bia sentiram o impacto da explosão mesmo dentro d'água. Uma onda de choque passou por elas, e a luz do caderno ficou dez vezes mais forte. — Que foi isso? O farol explodiu? — Bia perguntou, cuspindo água salgada. — Acho que o Caio acabou de dar o troco. — Helena sorriu, sentindo uma ponta de calor no peito. — Vamos, Bia! Falta pouco! Elas continuaram nadando, protegidas pela luz do "arquiteto fantasma", enquanto lá atrás, o farol velho começava a desmoronar, engolido por uma onda gigantesca que parecia ter vindo das profundezas do próprio inferno. Helena sabia que a luta estava longe de terminar. Jorge tinha recursos, e a Correnteza agora estava pessoalmente irritada. Mas enquanto ela tivesse aquele caderno e as pegadas invisíveis do Caio ao seu lado, ela não ia parar até descobrir como trazer o seu amor de volta para o mundo dos vivos. — Segura as pontas, Caio. — Helena pensou, batendo as pernas com força. — A gente tá chegando.
Cảm ơn
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livro muito bom eu gostei muito
15h
0muito bom, ameiiii dms
1d
0Muito bom, adorei! 🤌🏻
2d
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