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Capítulo 7

Léia auxiliava um dos escravos em um processo de
cura complexo e confuso. As suas costas negras se
encontravam curvadas enquanto este se sentava em uma
maca grande e confortável, as suas mãos raladas com
ferimentos abertos permaneciam postas de cada lado do
corpo esguio e esquálido. O rosto do homem tão vazio e
desprovido de expressões que Astrid podia jurar que
apenas o seu corpo torturado e ensanguentado se mantinha
ali, fixo naquele lugar.
A curandeira aproximava as suas mãos pequenas e
suaves sobre a coluna torácica do homem curvo, a dor
finalmente percorrendo por seus olhos, as órbitas tão
escuras, que Astrid mal conseguia observar as pupilas
dilatadas. Os cabelos ruivos de Léia se moviam
lentamente prendidos e unidos em uma trança, as sardas
agora visíveis em sua pele avermelhada.
Os ombros do escravo se inclinaram, dando à Astrid
uma visão mais ampla do machucado profundo e extenso,
este sangrando e manchando o tecido branco de algodão
do móvel que se encontrava sob o homem, a dor era tanta
que as pernas se movimentavam rapidamente. Ainda
assim, nenhum grito sobressaiu da sua garganta. Os olhos
estavam mais escuros e a pele sem cor enquanto Léia
transmitia boa parte da sua magia para a coluna do
homem.
— Tem certeza de que não prefere se deitar? — A
voz da curandeira era serena e calma, as suas observações
pelo corpo do escravo controladas. Ele apenas negou com
a cabeça e contraiu o lábio, evitando um assobio de dor.
Muitos ali gritavam, outros apenas gemiam enquanto
as diversas curandeiras trabalhavam em seus corpos
suados e feridos. Astrid parecia incapaz de se conter, os
seus ouvidos escutavam cada sofrimento e angústia que
cortavam as cavidades vocais do povo, os sons se unindo
com vários outros. Contudo, o escravo, cujo Léia
permanecia cuidando, não abriu a boca nenhuma vez
sequer, apenas as suas mãos machucadas se curvavam
sobre a maca e sobre os lençóis brancos, agora sujos de
sangue, os apertando com força.
Não foi um trabalho rápido, mas também não fora
demorado. Astrid poderia ter se retirado a qualquer
instante e ter voltado para a torre da restauração mais
tarde, já que Léia ainda não havia reparado em sua
presença. Ela estava ocupada e concentrada demais para
notar que uma jovem se encontrava ali perto e a observava
realizar um trabalho complicado e com esmero. No
entanto, a princesa apenas continuou ali, observando as
feridas daquele homem diminuírem cada vez mais, ela
encarou a expressão de dor se dissolver da sua face magra,
o sangue sendo eliminado quase por inteiro da parte
externa do seu corpo, apenas permanecendo no colchão do
móvel.
— Alteza — Os olhos de Léia se arregalaram, quase
saltando das suas órbitas, quando a curandeira notou a
presença de Astrid. Essa lhe concedeu uma reverência e
piscou os olhos com surpresa —, não a vi, me desculpe.
Está aqui há muito tempo?
A princesa apenas lhe deu um aceno com a mão
direita enquanto segurava a pomada com a esquerda. Os
olhos de Léia se voltaram para o tornozelo de Astrid, a sua
expressão se tornou mais séria e profissional. Ela retornou
à postura anterior e curvou os lábios em um sorriso
pequeno e confortável.
— Algum problema com o seu tornozelo? O
machucado piorou, ou infeccionou? — ela questionou com
simpatia, os seus olhos azuis cianos brilhavam, fazendo
um belo contraste com a trança vermelha e com as
sobrancelhas delicadas.
— Ah não. — Astrid afirmou e encarou a própria
perna por baixo do vestido esmeralda e longo, as suas
sandálias agora um pouco sujas por causa da lama. — Pelo
contrário, ele... Amanheceu ótimo, sem nenhum ferimento,
ou cicatriz — As suas palavras eram firmes e confusas,
pois ela ainda não sabia como aquilo havia acontecido.
— Oh! — Foi a única resposta de Léia antes que
esta respirasse profundamente e desviasse o seu olhar para
o outro lado da torre, a garganta se movendo com precisão
e os dedos das suas mãos se entrelaçando entre si.
— Eu gostaria de saber se esta pomada — Astrid
mostrou o medicamento para a curandeira, ainda com uma
expressão diferente —, era realmente necessária, quero
dizer, creio que apenas a sua magia bastou para que isso
fosse possível.
Léia negou com a cabeça e quando retornou a falar,
a sua voz era rouca e nervosa:
— Não exatamente. — A sua trança balançou junto
com o vento — Nós curandeiras não conseguimos curar
cem por cento alguém, fazemos a maior parte do trabalho,
mas não totalmente. Normalmente, a cura leva um tempo
para ser finalizada, não muito, mas isso, é claro, exceto
com...
— Os seres Esplendores. — Astrid a interrompeu e a
curandeira engoliu em seco novamente, a respiração mais
regular dessa vez — Então, este machucado deve ter sido
muito superficial para se curar em menos de um dia. —
Era o que a jovem preferia pensar e crer. Ela não ousava
se lembrar do sonho que tivera naquele dia, muito menos
no que ele podia significar.
Os olhos da curandeira abaixaram para os seus pés,
as sobrancelhas se arquearam e se moveram lentamente.
— Isso é possível, Alteza, é realmente possível. —
As suas narinas se dilataram e Léia pareceu mais confusa
do que antes.
— Astrid.
— O quê? — ela questionou, os olhos azuis agora se
encontrando com os olhos castanhos escuros da jovem.
— Não precisa agir de uma maneira tão formal,
prefiro informalidades, acho mais... Casual — Os seus
lábios se retorceram e a postura permaneceu elegante, ou
pelo menos, Astrid esperava que sim.
— É claro. Eu percebi um pouco da sua naturalidade
no dia anterior. — Léia falou com um sorriso meigo e
doce em seu rosto — Contudo, não queria lhe tratar com
desrespeito.
— Será um desrespeito se você continuar fazendo
reverências e me tratando de uma forma muito educada —
Astrid brincou, ela sentiu os olhos brilhando, ao mesmo
tempo em que um vento frio e delicioso irrompeu sobre o
seu rosto.
— Tudo bem, darei o meu melhor — A curandeira
foi sincera, um riso escapou da sua garganta e o rosto se
iluminou.
Astrid encarava cada canto daquela torre, as pessoas
ainda gritavam, alguns conversavam baixinho, mas todos
possuíam os mesmos olhares vazios, ou de preocupação,
ou de dor. A jovem sabia que não eram apenas dores
físicas que percorriam por seus olhos, visto que ninguém
ali, imaginava ela, cuidaria dos seus sofrimentos mentais.
Aqueles escravos, aquele povo nunca saberia como é
conversar com alguém e como a sensação de leveza pode
ser tão necessária ao irromper por seu corpo após
compartilhar tristezas, agonias e aflições com outros seres.
Eles nunca saberiam como é se sentir bem, ouvidos
e importantes.
— Você tem um minuto? — Astrid voltou os seus
olhos para Léia. A jovem não se surpreendeu ao encarar
tristeza e empatia em sua vista, o próprio reflexo dos seus
sentimentos.
Astrid não soube por que havia perguntando aquilo e
porque sentiu uma súbita necessidade de passar um tempo
com Léia. No entanto, as palavras dispararam da sua boca
antes que ela possuísse a chance de refletir sobre a
situação.
— Ah, eu... — ela pausou e olhou ao redor, a
procura de novos pacientes, mas todos já estavam sendo
examinados e curados. Ela suspirou levemente — É claro
que sim.
Elas percorreram boa parte do Reino Florestal. As
árvores de galhos longos e finos eram as mais bonitas e as
mais admiráveis, os troncos tão grossos e resistentes, que
seria necessário mais de duas pessoas para encurralá-los.
As duas moças conversavam e comentavam sobre a beleza
estética do Reino, porém, Astrid guardava para si os
comentários sobre as partes desagradáveis que habitavam
naquele local. É claro que Léia possuía a consciência de
como aquele Reino podia ser cruel, não por causa do lugar
em si, mas por causa de quem o governava.
Léia já deveria ter visto muito do que acontecia ali,
Astrid só não sabia o quanto. A jovem não sabia há quanto
tempo a curandeira morava naquele Reino, se ela nascera
ali, se a sua família ainda estava viva e se esta trabalhava
com os Beltranos, ou trabalhava na torre da restauração.
Astrid não fazia ideia se o talento natural e incrivelmente
maravilhoso de Léia pertencia apenas a ela mesma, ou se
fora herdado dos seus parentes e antepassados.
A jovem ainda se lembrava de como a curandeira
curou aquele escravo, certamente para Léia, aquilo, aquela
ação de cura deveria ser e parecer incrivelmente normal,
mas não para Astrid. É claro que ela já havia visto outras
curandeiras pondo e distribuindo as suas magias para
outras pessoas, inclusive para ela mesma, já que Astrid se
machucava constantemente. Mesmo que fosse apenas um
arranhão, ela era obrigada a receber curandeiras no
Palácio, ou ir visitá-las diretamente em uma das torres.
Contudo, Astrid nunca vira algo tão sereno e tão
bem feito. Os laços que se entrelaçaram nos nós dos dedos
de Léia, laços laranja, quase da cor do seu cabelo, estes se
enroscando suavemente nas costas negras e esquálidas
daquele escravo. Como a curandeira era prática e, ao
mesmo tempo, bondosa e generosa. Ela pensava em como
a expressão do escravo mudara quase que
instantaneamente, mesmo que as cicatrizes ainda
permanecessem ali. No entanto, ele tinha várias outras ao
redor do seu corpo.
Astrid gostava das próprias cicatrizes, mesmo que os
seus significados fossem um tanto tolos, ainda assim, ela
tinha um pouco de orgulho de cada uma delas. Quando a
princesa aprendeu a utilizar uma espada após muito
esforço, por exemplo. Antes disso, boa parte do seu corpo
sofrera com rasgos e ferimentos, assim como quando ela
caíra de uma árvore alta, a lesão dessa vez na nuca e em
boa parte dos seus braços e pernas. Eram machucados
estúpidos, mas todos eles a fizeram levantar e se
recompor, pois mesmo que doesse, sempre haveria dores
piores, dores invisíveis, dores mais fortes, dores terríveis.
Contudo, foram e serão estas que fizeram e farão de Astrid
uma pessoa mais forte, assim pode-se dizer dos escravos e
dos Beltranos.
A jovem tinha uma pequena dedução de que Léia
poderia concordar com esse pensamento, como se com
apenas um batimento cardíaco da curandeira, ele revelasse
o que Léia tinha de melhor e os momentos ruins que ela já
vivera. Astrid não fazia ideia de como poderia saber
aquilo, mas ela podia sentir e observar isso nos olhos de
Léia, mesmo jovens, eles eram maduros e sentimentais.
— Como você virou curandeira? — ela perguntou,
interrompendo os cantos gentis dos pássaros e os ruídos
das folhas se contorcendo entre si.
Léia encarou um cavalo marrom de crinas pretas e
olhos esbugalhados. Astrid nunca fora muito para o lado
Oeste do Reino, porém, gostou da pequena névoa que se
formava ao longo da sua extensão.
— Foi por acaso, literalmente. — Léia sorriu,
porém, o sorriso não chegou aos seus olhos azuis —
Cheguei ao Reino Florestal há pouco tempo, comparado
com a maioria do povo que vive aqui desde que nasceram.
Bom. Eu não nasci aqui, mas quando vim e soube que o
Rei necessitava de novas curandeiras, eu aceitei. Sem
pensar duas vezes.
O azul dos seus olhos se iluminou. Astrid não soube
identificar muito bem o que se passava através deles, mas
ela sabia que não era uma alegria pura e fantástica que
brotara ali. Talvez o sentimento fosse outro, talvez este
fosse o oposto de diversão.
— Você sempre quis ser curandeira, ou a sua ideia
era outra? — ela questionou. O cavalo relinchou, mas
nenhuma das duas lhe deu atenção.
— Ninguém nunca me perguntou isso... — Léia
parecia surpresa, o rosto agora corado e os dedos unidos
uns nos outros. Ela pensou por um instante, provavelmente
refletindo em como responder àquela pergunta — Não.
Nem sempre eu quis ser uma curandeira, só formei essa
ideia de uns anos para cá, foi muito recente. No entanto,
eu não me arrependo de ter seguido por esse caminho, é
gratificante demais ajudar e auxiliar aqueles que
necessitam.
De fato era. Astrid sentiu o seu peito apertar e o
coração bater lentamente sob o seu corpo. Ela não sabia
bem qual era a real sensação, mas ela podia imaginar.
Assim, como ela imaginava como seria salvar aquele
povo, como seria impedir as pessoas de sofrerem, impedir
de que estas não apanhassem, não passassem fome, não
fossem discriminadas. Como Astrid queria sentir uma
sensação parecida com a que Léia sentia, mesmo que
pouco, ela gostaria.
— E você? — perguntou Léia — Gosta de ser uma
princesa?
Foi a vez de Astrid tornar a sua expressão piedosa
em uma expressão de surpresa. Assim como ocorreu com
Léia, ninguém nunca havia lhe perguntado aquilo. A
jovem sabia que, para o povo, ser princesa tinha um bom
significado, riqueza, lazer, tempo, alimento e Astrid tinha
total consciência de que a sua vida era ótima, comparada à
dos Beltranos e à dos escravos. Contudo, ela odiava ser
uma herdeira do rei, a falta de atenção que esta recebera
desde a infância, a perda da sua mãe, o seu aprisionamento
e o relacionamento abusivo que possuía com o seu pai.
A culpa de fazer parte da primeira classe na
hierarquia e não ter o poder de fazer absolutamente nada
para mudar aquele cenário detestável e abominável, que se
encontrava no local onde ela cresceu, onde ela viu e
presenciou a tristeza, o choro, o medo, o rancor, a
crueldade, as diversas ruínas que se despedaçavam
lentamente nas mentes frágeis dos Beltranos e dos
escravos, que eram considerados inferiores, pesava sobre
ela. Cada sentimento desagradável foi guardado no fundo
do seu cérebro e ela nunca se esqueceria deles. A sua
cabeça estava tão cansada que ela não conseguia mais
discernir e se lembrar dos momentos bons que já vivera
ali.
— Não. Eu nunca quis isso para a minha vida. Na
verdade, eu nunca tive escolha. — ela disse, enquanto os
seus pés batucavam em um piso branco de madeira. Falar
sobre assuntos pessoais não era o seu forte, principalmente
com aqueles que não eram íntimos seus. — Pode parecer
estúpido, mas ser considerada uma princesa tem as suas
desvantagens.
— E essas desvantagens são maiores do que as
vantagens e os momentos bons? — Léia a entendia,
mesmo que o questionamento fosse implícito, Astrid sabia
que ela entendia.
A jovem assentiu com a cabeça, concordando com a
pergunta da curandeira.
— Eu entendo. Nem sempre o que vivemos é o que
parece ser — ela suspirou e os seus olhos se entristeceram
novamente.
— Você guarda uma história da sua vida, não é? —
Todos eles guardavam, no entanto, Astrid não estava
falando de qualquer história, e sim, uma que fizesse a
curandeira se sentir tão triste e péssima. As lembranças
que fazia os seus olhos se esvaziarem e que fazia o seu
corpo encolher.
— E quem não guarda? — ela riu tristemente e
desviou o olhar antes de continuar — Quando eu tinha oito
anos, eu morava com a minha mãe e com o meu pai no
Reino da Névoa. A minha mãe era incrível, uma mulher
feliz e estonteante. — Léia sorriu largamente — O meu
pai, pelo contrário, era sério e rígido. Um dia ele começou
a agir de uma maneira estranha, estava mais agressivo do
que costumava ser e parecer. Ele... — Léia respirou fundo,
as pernas tremendo.
— Você não precisa... — Astrid tentou falar, mas
Léia a interrompeu.
— Um dia ele começou a nos agredir, não apenas
com palavras, como ele fazia, mas sim, com socos e
chutes. Minha mãe e eu sempre acordávamos nos dias
seguintes doloridas e com marcas por todo o corpo. Ele
sempre pedia desculpas e ela sempre o perdoava. Eu não
entendia o porquê antes, mas depois entendi. — A sua voz
estava falha e rouca — O medo é um dos sentimentos
mais cruéis e injustos que existem, dependendo da
situação em que ele se encontra.
— Eu sei — Astrid concordou com a voz calma e
triste. Ela sabia mesmo, não da mesma forma como Léia
aprendeu, mas a princesa também havia aprendido do seu
jeito.
— Então ela morreu. O meu pai bateu nela até que
esta fechasse os seus olhos e não os abrissem mais. — A
curandeira desviava o olhar para os lados e muitas vezes
para o chão, ele parecia queimar sob as suas pálpebras —
Desde então, ele continuou a me bater e a me agredir com
palavras terríveis e nojentas. Isso, até que eu completasse
dezesseis anos, antes que eu tivesse fugido.
Os olhos de Astrid brilharam com surpresa e
entendimento. Foi assim que ela entrou no Reino Florestal.
— Foi uma luta incansável e quase impossível
chegar ao Reino Florestal. Tive que caminhar muitos dias
do Oeste para o Sul e eu nunca possuí muita magia, ela
sempre foi bem limitada. Não é à toa que eu sou uma
Meio Mágica. — Ela riu da sua própria piada, depois
retornando à seriedade — Mas, eu cheguei. Eu estava
cansada, exausta para ser mais exata, a fome era o pior, se
alimentar de frutos mágicos não é tão bom quanto
aparenta ser.
“Consegui adentrar no Reino, por sorte a Noite da
Hasta estava sendo comemorada naquele dia, logo, você já
sabe...”
— A magia estava totalmente dissipada. — Astrid
respondeu e Léia confirmou com a cabeça antes de olhar
para as suas mãos pálidas e pequenas.
— O Rei, seu pai, me encontrou. Eu pedi ajuda, era
a única coisa que eu podia ser capaz de dizer naquele
momento, mesmo que eu estivesse quase morta e então...
— ela pareceu nervosa. Astrid sabia que havia algo a mais
naquela parte, no entanto, se Léia não quisesse comentar,
ela não iria se intrometer — Ele me abrigou. Me levou à
torre da restauração para que eu fosse cuidada e depois
trabalhasse naquele local.
“Eu tive opções, Astrid, essa é uma das nossas
diferenças, você não teve escolha, mas eu tive e sinto
muito por você. De verdade. Eu podia ser uma Meio
Mágica e trabalhar nos jardins, ou nos estábulos, ou ser
uma curandeira. E eu escolhi a terceira opção porque eu
gostaria de salvar aqueles que sofrem constantemente com
agressões físicas e mentais, eu gostaria de ajudá-los,
mesmo que de uma forma não tão direta, pois quando eu
mais precisei e enquanto eu estava sofrendo, não tinha
ninguém para me ajudar. No entanto, naquele momento eu
soube que eu poderia mudar isso. Por mim e por eles.”
Astrid não sabia o que pensar. Aquela história, as
lembranças, os pesadelos reais, todos jogados em sua
mente. Todo aquele sofrimento vivido por uma mulher
real, com sentimentos e traumas reais. Os olhos da jovem
se voltaram para a curandeira, ela não passara por metade
do que Léia já viveu. Ela não fazia ideia de como aquilo
deveria doer. As suas próprias dores já eram terríveis,
imagine viver tudo aquilo, como seria ter esse peso sobre
o seu peito.
A sua garganta oscilou e Astrid olhou para o além
das árvores e da neblina.
— Eu sinto muito — A jovem não sabia como
demonstrar os seus sentimentos, ela não tinha ideia do que
poderia ser dito para amenizar a dor da curandeira e
mesmo que as ideias de palavras bonitas e reconfortantes
surgissem em sua mente, ela sabia que aquela situação não
iria melhorar com elas —, por tudo o que você já
enfrentou.
Os olhos de Léia possuíam um ar de compreensão.
A curandeira sabia que aquilo era o máximo de afeto que
Astrid iria compartilhar. Ela entendeu que Astrid não iria
falar sobre a triste história da sua vida, não naquele
momento, pelo menos, não quando elas tinham acabado de
se conhecer. Aquilo poderia estar parecendo tão estranho
para a princesa.
— O meu poder... — Léia falou depois de um tempo
em silêncio e Astrid a encarou, confusa, mas não
comentou nada, apenas esperou — Não sei bem como ele
funciona, contudo, eu consigo sentir em quem posso
confiar, ou algo assim.
Astrid sabia que aquilo era possível, ela também já
tinha ouvido falar sobre aqueles poderes, não eram tão
raros quanto diversos outros, pelo contrário, eram muito
comentados, tanto em livros, quanto na boca do povo.
Apesar de tudo, era um dom incrivelmente admirável.
— Não acho que ele combine muito comigo. — Ela
sorriu levemente — Sou emotiva demais para possuí-lo,
não é uma combinação muito agradável.
— De qualquer forma, é bom saber que eu sou
confiável — Léia riu e Astrid esboçou uma careta, o
rascunho de um sorriso. —, e quanto a ser emotiva, todos
nós temos os nossos extremos.
A curandeira assentiu. A brisa fria beijou os seus
rostos, o rosto negro e o rosto pálido. Os olhos azuis de
Léia ainda encaravam o horizonte, percorrendo toda a
extensão do lado Oeste, encarando o Reino da Névoa, o
Reino que a abrigou durante dezesseis anos e apesar desta
ter sofrido muito naquele local, Astrid percebeu como a
curandeira sentia falta dele, da sua mãe, do seu lar.
E mais uma vez, Astrid sentiu a inveja percorrer
sobre o seu sangue, a inveja acompanhada pela tristeza de
não possuir o sentimento e o conhecimento do que
significava o termo: lar

Bình Luận Sách (2862)

  • avatar
    BiancaCarla

    muito bom

    7d

      0
  • avatar
    RitaMayara

    muito bom

    19/04

      0
  • avatar
    Micaelly Nunes de Oliveira Pereira

    Muito bom, recomendo muito!

    13/04

      0
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