Léia auxiliava um dos escravos em um processo de cura complexo e confuso. As suas costas negras se encontravam curvadas enquanto este se sentava em uma maca grande e confortável, as suas mãos raladas com ferimentos abertos permaneciam postas de cada lado do corpo esguio e esquálido. O rosto do homem tão vazio e desprovido de expressões que Astrid podia jurar que apenas o seu corpo torturado e ensanguentado se mantinha ali, fixo naquele lugar. A curandeira aproximava as suas mãos pequenas e suaves sobre a coluna torácica do homem curvo, a dor finalmente percorrendo por seus olhos, as órbitas tão escuras, que Astrid mal conseguia observar as pupilas dilatadas. Os cabelos ruivos de Léia se moviam lentamente prendidos e unidos em uma trança, as sardas agora visíveis em sua pele avermelhada. Os ombros do escravo se inclinaram, dando à Astrid uma visão mais ampla do machucado profundo e extenso, este sangrando e manchando o tecido branco de algodão do móvel que se encontrava sob o homem, a dor era tanta que as pernas se movimentavam rapidamente. Ainda assim, nenhum grito sobressaiu da sua garganta. Os olhos estavam mais escuros e a pele sem cor enquanto Léia transmitia boa parte da sua magia para a coluna do homem. — Tem certeza de que não prefere se deitar? — A voz da curandeira era serena e calma, as suas observações pelo corpo do escravo controladas. Ele apenas negou com a cabeça e contraiu o lábio, evitando um assobio de dor. Muitos ali gritavam, outros apenas gemiam enquanto as diversas curandeiras trabalhavam em seus corpos suados e feridos. Astrid parecia incapaz de se conter, os seus ouvidos escutavam cada sofrimento e angústia que cortavam as cavidades vocais do povo, os sons se unindo com vários outros. Contudo, o escravo, cujo Léia permanecia cuidando, não abriu a boca nenhuma vez sequer, apenas as suas mãos machucadas se curvavam sobre a maca e sobre os lençóis brancos, agora sujos de sangue, os apertando com força. Não foi um trabalho rápido, mas também não fora demorado. Astrid poderia ter se retirado a qualquer instante e ter voltado para a torre da restauração mais tarde, já que Léia ainda não havia reparado em sua presença. Ela estava ocupada e concentrada demais para notar que uma jovem se encontrava ali perto e a observava realizar um trabalho complicado e com esmero. No entanto, a princesa apenas continuou ali, observando as feridas daquele homem diminuírem cada vez mais, ela encarou a expressão de dor se dissolver da sua face magra, o sangue sendo eliminado quase por inteiro da parte externa do seu corpo, apenas permanecendo no colchão do móvel. — Alteza — Os olhos de Léia se arregalaram, quase saltando das suas órbitas, quando a curandeira notou a presença de Astrid. Essa lhe concedeu uma reverência e piscou os olhos com surpresa —, não a vi, me desculpe. Está aqui há muito tempo? A princesa apenas lhe deu um aceno com a mão direita enquanto segurava a pomada com a esquerda. Os olhos de Léia se voltaram para o tornozelo de Astrid, a sua expressão se tornou mais séria e profissional. Ela retornou à postura anterior e curvou os lábios em um sorriso pequeno e confortável. — Algum problema com o seu tornozelo? O machucado piorou, ou infeccionou? — ela questionou com simpatia, os seus olhos azuis cianos brilhavam, fazendo um belo contraste com a trança vermelha e com as sobrancelhas delicadas. — Ah não. — Astrid afirmou e encarou a própria perna por baixo do vestido esmeralda e longo, as suas sandálias agora um pouco sujas por causa da lama. — Pelo contrário, ele... Amanheceu ótimo, sem nenhum ferimento, ou cicatriz — As suas palavras eram firmes e confusas, pois ela ainda não sabia como aquilo havia acontecido. — Oh! — Foi a única resposta de Léia antes que esta respirasse profundamente e desviasse o seu olhar para o outro lado da torre, a garganta se movendo com precisão e os dedos das suas mãos se entrelaçando entre si. — Eu gostaria de saber se esta pomada — Astrid mostrou o medicamento para a curandeira, ainda com uma expressão diferente —, era realmente necessária, quero dizer, creio que apenas a sua magia bastou para que isso fosse possível. Léia negou com a cabeça e quando retornou a falar, a sua voz era rouca e nervosa: — Não exatamente. — A sua trança balançou junto com o vento — Nós curandeiras não conseguimos curar cem por cento alguém, fazemos a maior parte do trabalho, mas não totalmente. Normalmente, a cura leva um tempo para ser finalizada, não muito, mas isso, é claro, exceto com... — Os seres Esplendores. — Astrid a interrompeu e a curandeira engoliu em seco novamente, a respiração mais regular dessa vez — Então, este machucado deve ter sido muito superficial para se curar em menos de um dia. — Era o que a jovem preferia pensar e crer. Ela não ousava se lembrar do sonho que tivera naquele dia, muito menos no que ele podia significar. Os olhos da curandeira abaixaram para os seus pés, as sobrancelhas se arquearam e se moveram lentamente. — Isso é possível, Alteza, é realmente possível. — As suas narinas se dilataram e Léia pareceu mais confusa do que antes. — Astrid. — O quê? — ela questionou, os olhos azuis agora se encontrando com os olhos castanhos escuros da jovem. — Não precisa agir de uma maneira tão formal, prefiro informalidades, acho mais... Casual — Os seus lábios se retorceram e a postura permaneceu elegante, ou pelo menos, Astrid esperava que sim. — É claro. Eu percebi um pouco da sua naturalidade no dia anterior. — Léia falou com um sorriso meigo e doce em seu rosto — Contudo, não queria lhe tratar com desrespeito. — Será um desrespeito se você continuar fazendo reverências e me tratando de uma forma muito educada — Astrid brincou, ela sentiu os olhos brilhando, ao mesmo tempo em que um vento frio e delicioso irrompeu sobre o seu rosto. — Tudo bem, darei o meu melhor — A curandeira foi sincera, um riso escapou da sua garganta e o rosto se iluminou. Astrid encarava cada canto daquela torre, as pessoas ainda gritavam, alguns conversavam baixinho, mas todos possuíam os mesmos olhares vazios, ou de preocupação, ou de dor. A jovem sabia que não eram apenas dores físicas que percorriam por seus olhos, visto que ninguém ali, imaginava ela, cuidaria dos seus sofrimentos mentais. Aqueles escravos, aquele povo nunca saberia como é conversar com alguém e como a sensação de leveza pode ser tão necessária ao irromper por seu corpo após compartilhar tristezas, agonias e aflições com outros seres. Eles nunca saberiam como é se sentir bem, ouvidos e importantes. — Você tem um minuto? — Astrid voltou os seus olhos para Léia. A jovem não se surpreendeu ao encarar tristeza e empatia em sua vista, o próprio reflexo dos seus sentimentos. Astrid não soube por que havia perguntando aquilo e porque sentiu uma súbita necessidade de passar um tempo com Léia. No entanto, as palavras dispararam da sua boca antes que ela possuísse a chance de refletir sobre a situação. — Ah, eu... — ela pausou e olhou ao redor, a procura de novos pacientes, mas todos já estavam sendo examinados e curados. Ela suspirou levemente — É claro que sim. Elas percorreram boa parte do Reino Florestal. As árvores de galhos longos e finos eram as mais bonitas e as mais admiráveis, os troncos tão grossos e resistentes, que seria necessário mais de duas pessoas para encurralá-los. As duas moças conversavam e comentavam sobre a beleza estética do Reino, porém, Astrid guardava para si os comentários sobre as partes desagradáveis que habitavam naquele local. É claro que Léia possuía a consciência de como aquele Reino podia ser cruel, não por causa do lugar em si, mas por causa de quem o governava. Léia já deveria ter visto muito do que acontecia ali, Astrid só não sabia o quanto. A jovem não sabia há quanto tempo a curandeira morava naquele Reino, se ela nascera ali, se a sua família ainda estava viva e se esta trabalhava com os Beltranos, ou trabalhava na torre da restauração. Astrid não fazia ideia se o talento natural e incrivelmente maravilhoso de Léia pertencia apenas a ela mesma, ou se fora herdado dos seus parentes e antepassados. A jovem ainda se lembrava de como a curandeira curou aquele escravo, certamente para Léia, aquilo, aquela ação de cura deveria ser e parecer incrivelmente normal, mas não para Astrid. É claro que ela já havia visto outras curandeiras pondo e distribuindo as suas magias para outras pessoas, inclusive para ela mesma, já que Astrid se machucava constantemente. Mesmo que fosse apenas um arranhão, ela era obrigada a receber curandeiras no Palácio, ou ir visitá-las diretamente em uma das torres. Contudo, Astrid nunca vira algo tão sereno e tão bem feito. Os laços que se entrelaçaram nos nós dos dedos de Léia, laços laranja, quase da cor do seu cabelo, estes se enroscando suavemente nas costas negras e esquálidas daquele escravo. Como a curandeira era prática e, ao mesmo tempo, bondosa e generosa. Ela pensava em como a expressão do escravo mudara quase que instantaneamente, mesmo que as cicatrizes ainda permanecessem ali. No entanto, ele tinha várias outras ao redor do seu corpo. Astrid gostava das próprias cicatrizes, mesmo que os seus significados fossem um tanto tolos, ainda assim, ela tinha um pouco de orgulho de cada uma delas. Quando a princesa aprendeu a utilizar uma espada após muito esforço, por exemplo. Antes disso, boa parte do seu corpo sofrera com rasgos e ferimentos, assim como quando ela caíra de uma árvore alta, a lesão dessa vez na nuca e em boa parte dos seus braços e pernas. Eram machucados estúpidos, mas todos eles a fizeram levantar e se recompor, pois mesmo que doesse, sempre haveria dores piores, dores invisíveis, dores mais fortes, dores terríveis. Contudo, foram e serão estas que fizeram e farão de Astrid uma pessoa mais forte, assim pode-se dizer dos escravos e dos Beltranos. A jovem tinha uma pequena dedução de que Léia poderia concordar com esse pensamento, como se com apenas um batimento cardíaco da curandeira, ele revelasse o que Léia tinha de melhor e os momentos ruins que ela já vivera. Astrid não fazia ideia de como poderia saber aquilo, mas ela podia sentir e observar isso nos olhos de Léia, mesmo jovens, eles eram maduros e sentimentais. — Como você virou curandeira? — ela perguntou, interrompendo os cantos gentis dos pássaros e os ruídos das folhas se contorcendo entre si. Léia encarou um cavalo marrom de crinas pretas e olhos esbugalhados. Astrid nunca fora muito para o lado Oeste do Reino, porém, gostou da pequena névoa que se formava ao longo da sua extensão. — Foi por acaso, literalmente. — Léia sorriu, porém, o sorriso não chegou aos seus olhos azuis — Cheguei ao Reino Florestal há pouco tempo, comparado com a maioria do povo que vive aqui desde que nasceram. Bom. Eu não nasci aqui, mas quando vim e soube que o Rei necessitava de novas curandeiras, eu aceitei. Sem pensar duas vezes. O azul dos seus olhos se iluminou. Astrid não soube identificar muito bem o que se passava através deles, mas ela sabia que não era uma alegria pura e fantástica que brotara ali. Talvez o sentimento fosse outro, talvez este fosse o oposto de diversão. — Você sempre quis ser curandeira, ou a sua ideia era outra? — ela questionou. O cavalo relinchou, mas nenhuma das duas lhe deu atenção. — Ninguém nunca me perguntou isso... — Léia parecia surpresa, o rosto agora corado e os dedos unidos uns nos outros. Ela pensou por um instante, provavelmente refletindo em como responder àquela pergunta — Não. Nem sempre eu quis ser uma curandeira, só formei essa ideia de uns anos para cá, foi muito recente. No entanto, eu não me arrependo de ter seguido por esse caminho, é gratificante demais ajudar e auxiliar aqueles que necessitam. De fato era. Astrid sentiu o seu peito apertar e o coração bater lentamente sob o seu corpo. Ela não sabia bem qual era a real sensação, mas ela podia imaginar. Assim, como ela imaginava como seria salvar aquele povo, como seria impedir as pessoas de sofrerem, impedir de que estas não apanhassem, não passassem fome, não fossem discriminadas. Como Astrid queria sentir uma sensação parecida com a que Léia sentia, mesmo que pouco, ela gostaria. — E você? — perguntou Léia — Gosta de ser uma princesa? Foi a vez de Astrid tornar a sua expressão piedosa em uma expressão de surpresa. Assim como ocorreu com Léia, ninguém nunca havia lhe perguntado aquilo. A jovem sabia que, para o povo, ser princesa tinha um bom significado, riqueza, lazer, tempo, alimento e Astrid tinha total consciência de que a sua vida era ótima, comparada à dos Beltranos e à dos escravos. Contudo, ela odiava ser uma herdeira do rei, a falta de atenção que esta recebera desde a infância, a perda da sua mãe, o seu aprisionamento e o relacionamento abusivo que possuía com o seu pai. A culpa de fazer parte da primeira classe na hierarquia e não ter o poder de fazer absolutamente nada para mudar aquele cenário detestável e abominável, que se encontrava no local onde ela cresceu, onde ela viu e presenciou a tristeza, o choro, o medo, o rancor, a crueldade, as diversas ruínas que se despedaçavam lentamente nas mentes frágeis dos Beltranos e dos escravos, que eram considerados inferiores, pesava sobre ela. Cada sentimento desagradável foi guardado no fundo do seu cérebro e ela nunca se esqueceria deles. A sua cabeça estava tão cansada que ela não conseguia mais discernir e se lembrar dos momentos bons que já vivera ali. — Não. Eu nunca quis isso para a minha vida. Na verdade, eu nunca tive escolha. — ela disse, enquanto os seus pés batucavam em um piso branco de madeira. Falar sobre assuntos pessoais não era o seu forte, principalmente com aqueles que não eram íntimos seus. — Pode parecer estúpido, mas ser considerada uma princesa tem as suas desvantagens. — E essas desvantagens são maiores do que as vantagens e os momentos bons? — Léia a entendia, mesmo que o questionamento fosse implícito, Astrid sabia que ela entendia. A jovem assentiu com a cabeça, concordando com a pergunta da curandeira. — Eu entendo. Nem sempre o que vivemos é o que parece ser — ela suspirou e os seus olhos se entristeceram novamente. — Você guarda uma história da sua vida, não é? — Todos eles guardavam, no entanto, Astrid não estava falando de qualquer história, e sim, uma que fizesse a curandeira se sentir tão triste e péssima. As lembranças que fazia os seus olhos se esvaziarem e que fazia o seu corpo encolher. — E quem não guarda? — ela riu tristemente e desviou o olhar antes de continuar — Quando eu tinha oito anos, eu morava com a minha mãe e com o meu pai no Reino da Névoa. A minha mãe era incrível, uma mulher feliz e estonteante. — Léia sorriu largamente — O meu pai, pelo contrário, era sério e rígido. Um dia ele começou a agir de uma maneira estranha, estava mais agressivo do que costumava ser e parecer. Ele... — Léia respirou fundo, as pernas tremendo. — Você não precisa... — Astrid tentou falar, mas Léia a interrompeu. — Um dia ele começou a nos agredir, não apenas com palavras, como ele fazia, mas sim, com socos e chutes. Minha mãe e eu sempre acordávamos nos dias seguintes doloridas e com marcas por todo o corpo. Ele sempre pedia desculpas e ela sempre o perdoava. Eu não entendia o porquê antes, mas depois entendi. — A sua voz estava falha e rouca — O medo é um dos sentimentos mais cruéis e injustos que existem, dependendo da situação em que ele se encontra. — Eu sei — Astrid concordou com a voz calma e triste. Ela sabia mesmo, não da mesma forma como Léia aprendeu, mas a princesa também havia aprendido do seu jeito. — Então ela morreu. O meu pai bateu nela até que esta fechasse os seus olhos e não os abrissem mais. — A curandeira desviava o olhar para os lados e muitas vezes para o chão, ele parecia queimar sob as suas pálpebras — Desde então, ele continuou a me bater e a me agredir com palavras terríveis e nojentas. Isso, até que eu completasse dezesseis anos, antes que eu tivesse fugido. Os olhos de Astrid brilharam com surpresa e entendimento. Foi assim que ela entrou no Reino Florestal. — Foi uma luta incansável e quase impossível chegar ao Reino Florestal. Tive que caminhar muitos dias do Oeste para o Sul e eu nunca possuí muita magia, ela sempre foi bem limitada. Não é à toa que eu sou uma Meio Mágica. — Ela riu da sua própria piada, depois retornando à seriedade — Mas, eu cheguei. Eu estava cansada, exausta para ser mais exata, a fome era o pior, se alimentar de frutos mágicos não é tão bom quanto aparenta ser. “Consegui adentrar no Reino, por sorte a Noite da Hasta estava sendo comemorada naquele dia, logo, você já sabe...” — A magia estava totalmente dissipada. — Astrid respondeu e Léia confirmou com a cabeça antes de olhar para as suas mãos pálidas e pequenas. — O Rei, seu pai, me encontrou. Eu pedi ajuda, era a única coisa que eu podia ser capaz de dizer naquele momento, mesmo que eu estivesse quase morta e então... — ela pareceu nervosa. Astrid sabia que havia algo a mais naquela parte, no entanto, se Léia não quisesse comentar, ela não iria se intrometer — Ele me abrigou. Me levou à torre da restauração para que eu fosse cuidada e depois trabalhasse naquele local. “Eu tive opções, Astrid, essa é uma das nossas diferenças, você não teve escolha, mas eu tive e sinto muito por você. De verdade. Eu podia ser uma Meio Mágica e trabalhar nos jardins, ou nos estábulos, ou ser uma curandeira. E eu escolhi a terceira opção porque eu gostaria de salvar aqueles que sofrem constantemente com agressões físicas e mentais, eu gostaria de ajudá-los, mesmo que de uma forma não tão direta, pois quando eu mais precisei e enquanto eu estava sofrendo, não tinha ninguém para me ajudar. No entanto, naquele momento eu soube que eu poderia mudar isso. Por mim e por eles.” Astrid não sabia o que pensar. Aquela história, as lembranças, os pesadelos reais, todos jogados em sua mente. Todo aquele sofrimento vivido por uma mulher real, com sentimentos e traumas reais. Os olhos da jovem se voltaram para a curandeira, ela não passara por metade do que Léia já viveu. Ela não fazia ideia de como aquilo deveria doer. As suas próprias dores já eram terríveis, imagine viver tudo aquilo, como seria ter esse peso sobre o seu peito. A sua garganta oscilou e Astrid olhou para o além das árvores e da neblina. — Eu sinto muito — A jovem não sabia como demonstrar os seus sentimentos, ela não tinha ideia do que poderia ser dito para amenizar a dor da curandeira e mesmo que as ideias de palavras bonitas e reconfortantes surgissem em sua mente, ela sabia que aquela situação não iria melhorar com elas —, por tudo o que você já enfrentou. Os olhos de Léia possuíam um ar de compreensão. A curandeira sabia que aquilo era o máximo de afeto que Astrid iria compartilhar. Ela entendeu que Astrid não iria falar sobre a triste história da sua vida, não naquele momento, pelo menos, não quando elas tinham acabado de se conhecer. Aquilo poderia estar parecendo tão estranho para a princesa. — O meu poder... — Léia falou depois de um tempo em silêncio e Astrid a encarou, confusa, mas não comentou nada, apenas esperou — Não sei bem como ele funciona, contudo, eu consigo sentir em quem posso confiar, ou algo assim. Astrid sabia que aquilo era possível, ela também já tinha ouvido falar sobre aqueles poderes, não eram tão raros quanto diversos outros, pelo contrário, eram muito comentados, tanto em livros, quanto na boca do povo. Apesar de tudo, era um dom incrivelmente admirável. — Não acho que ele combine muito comigo. — Ela sorriu levemente — Sou emotiva demais para possuí-lo, não é uma combinação muito agradável. — De qualquer forma, é bom saber que eu sou confiável — Léia riu e Astrid esboçou uma careta, o rascunho de um sorriso. —, e quanto a ser emotiva, todos nós temos os nossos extremos. A curandeira assentiu. A brisa fria beijou os seus rostos, o rosto negro e o rosto pálido. Os olhos azuis de Léia ainda encaravam o horizonte, percorrendo toda a extensão do lado Oeste, encarando o Reino da Névoa, o Reino que a abrigou durante dezesseis anos e apesar desta ter sofrido muito naquele local, Astrid percebeu como a curandeira sentia falta dele, da sua mãe, do seu lar. E mais uma vez, Astrid sentiu a inveja percorrer sobre o seu sangue, a inveja acompanhada pela tristeza de não possuir o sentimento e o conhecimento do que significava o termo: lar
Cảm ơn
Ủng hộ tác giả để mang đến cho bạn những câu truyện hay
muito bom
7d
0muito bom
19/04
0Muito bom, recomendo muito!
13/04
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