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Capítulo 5

O lobo permanecia na mesma posição. Se Astrid não
estivesse observando os seus pulmões se moverem sob a
pelagem cinza e desgrenhada do animal, ela poderia
considerá-lo uma escultura extraordinariamente detalhista.
A sua pata dianteira esquerda estava inclinada para frente,
fazendo com que a terra se aglomerasse em sua fronte,
graças à força exercida quando este, certamente, estacou
naquele local.
Os seus olhos brilhantes estavam totalmente fixos no
rosto de Astrid. O rosto, que no momento, sabia ela,
deveria possuir uma expressão de terror. Com certeza ele
estava pálido, os olhos arregalados e a boca seca. O lobo
não encarou Dama nenhuma vez sequer, as suas órbitas
claras não desviavam para nenhum outro lugar, se não a
jovem que permanecia à sua frente.
O animal não poderia atravessar, o máximo que ele
conseguiria seria ultrapassar o rio e Astrid sabia que
aquilo não seria algo impossível para ele, não com aquelas
patas robustas e musculosas, não com aquele imenso
corpo acinzentado, os pelos tão escuros e sujos de lama e
terra. Espinhos se encontravam em sua face longa e
máscula, como se este estivesse lutando ou, imaginou
Astrid, se defendendo de algo, ou alguém.
De fato a sua respiração aparentava estar
descompassada e tão falha que os imensos pulmões do
lobo ainda se alargavam constantemente, ele parecia estar
tão cansado que Astrid duvidou por um instante se o
animal poderia tentar atravessar aquele imenso rio
rapidamente para atacar ela e Dama. A princesa acreditou
que não, talvez elas pudessem fugir, talvez elas
possuíssem esta chance. No entanto, o lobo não parecia
machucado, nenhum sangue escorria de nenhuma parte do
seu corpo grande e musculoso.
Sem pensar, Astrid pisou em um graveto quando ela
moveu a perna esquerda para trás. O seu corpo ficou
inerte, o fôlego saltou de seus pulmões tão freneticamente
que a sua vista se tornou embaçada, fazendo com que a
figura do animal se tornasse apenas um borrão. Mas, ele
ainda estava lá, não se movera nenhum centímetro, os
olhos claros apenas foram de encontro à perna da jovem,
como se aquilo fosse um mero espetáculo e ele estivesse
apreciando cada passo e mobilidade.
Os arbustos e folhas do outro lado do rio
farfalharam, Astrid não conseguia escutar nada. No
entanto, o lobo se virou apressadamente para trás, como se
aquela ventania repentina não fosse apenas aquilo, como
se o animal soubesse quem estava por trás daquelas
árvores, como se este esperasse por alguém. Astrid nunca
viu um lobo se comportar de tal forma, como se ele
pudesse controlar as suas próprias emoções, os seus
movimentos, o corpo e até mesmo os seus sentidos.
As narinas do animal se dilataram conforme este
recuava para trás, os seus olhos grandes ainda fixos em
algo além da clareira. Ele não se privou de rosnar
altamente, o grunhido retumbando ao redor do Reino
quando um homem alto e largo surgiu na frente do lobo.
Astrid podia jurar que o chão tremeu junto com o seu
coração sob o vestido que ela usava.
O homem não parecia nada gentil. Muito pelo
contrário, ele possuía um olhar rude e cruel em direção ao
animal, suas roupas estavam todas desgastadas, como se já
tivesse lutando antes que pudesse chegar ali, para
encontrar aquele lobo enorme e intimidante. Contudo, o
seu semblante permanecia horrendo e se tornou ainda pior
quando ele sorriu.
A boca se abriu em um sorriso largo, revelando os
seus dentes amarelos, quase podres. Sangue seco
permanecia em sua pele, em seus braços grossos e em seu
pescoço rechonchudo. As roupas tão rasgadas, que uma
parte da sua nudez aparecera ali, mas Astrid não deu
atenção para aquilo, e sim, para a adaga que o homem
desembainhou do cinto mordiscado. Ela não conseguia ver
direito, não com a visão mínima, para observar se a lâmina
da faca estava afiada, se o tal homem sabia lutar, ou se
defender.
As narinas do lobo ainda se dilatavam, contudo, ele
não recuava mais, o animal estacionou no local, logo,
olhando sobre o próprio ombro em direção à Astrid. O seu
olhar era penetrante, como se ele estivesse tentando lhe
avisar algo, ou lhe dando uma ordem.
Os olhos tão profundos que a jovem recuou para
trás. Dama a acompanhou.
O lobo pareceu gostar disso. Ela estava sendo
covarde? Com toda certeza, mas Astrid sabia que não
conseguiria enfrentá-los e isso pareceu pesar em sua
própria mente.
O homem encarou o ponto mínimo, o qual o lobo
olhava, ou observava: uma mulher delicada e pequena.
Uma égua se encontrava ao seu lado, raspando as patas
sobre a terra enlameada enquanto bufava sem parar. A
mulher possuía uma expressão de hesitação e confusão,
mas o seu corpo estava em posição de defesa, como se ela
fosse conseguir se proteger, principalmente com a
diversidade de estacas que se encontravam soltas no chão.
Tão tola.
O velho homem riu com escárnio e o lobo rugiu
antes que pudesse atacá-lo. A pequena adaga do velho se
inclinou para a direita, a fim de golpear o pescoço do
animal, mas ele desviou como se soubesse qual golpe
aquele homem usaria e trabalharia naquele momento. Os
dentes afiados do animal rangeram enquanto este rasgava
o braço do sujeito com as suas garras, essas tão grandes
que Astrid conseguia observá-las com atenção de longe.
O homem gemeu, contudo, ele aproveitou a
inclinação do seu braço para pegar uma segunda adaga,
que se encontrava em sua bota imunda, esta sendo menor
do que a anterior. O lobo urrou quando a lâmina encontrou
a lateral do seu estômago, sangue se espalhou diante das
suas patas, mas Astrid soube que o corte foi superficial,
porque segundos depois o animal estava atacando o velho
com toda a sua força. O lobo parecia sentir tanta raiva que
apenas ver aquele homem sofrendo poderia amenizá-la.
O lobo golpeou aquele velho sujeito com força, e o
derrubou, as duas adagas caindo de suas mãos e rolando
para os lados. Os olhos arregalados do homem disseram o
suficiente sobre o seu mais recente medo. Astrid observou
ele recuar em direção a uma das adagas, a maior delas,
porém, parou brutalmente ao sentir os dentes do lobo em
sua perna esquerda. O grito soou tão alto que Astrid
perdeu o equilíbrio.
Dama foi para o lado da dona e relinchou baixinho
ao presenciar aquela cena.
O animal encarou Astrid sob os cílios e rugiu
furiosamente, não para atacá-la, ela percebeu. Para que ela
fugisse, como se ele entendesse o que aquilo estava
proporcionando à sua mente, ao seu corpo. No entanto,
Astrid não conseguia, ela não conseguia se mover, não
sabia o que fazer. A princesa não sentia as suas pernas
para que fosse capaz de subir em Dama e levá-las para
longe daquele local.
Ele rugiu novamente, ele rugiu enquanto os seus
dentes se apertavam cada vez mais naquela perna
ensanguentada, o osso agora aparecendo através dos olhos
de Astrid. Ele urrava sem parar, pois ela estava sendo
estúpida por ainda estar lá, por ainda não ter fugido, por
estar aguentando observar todo aquele terror.
A grama estava vermelha, grande parte dela suja de
sangue, o sangue do homem e o sangue do lobo, os dois se
difundindo entre si. Se aquele homem não morresse com
aquela mordida infernal, ele morreria logo com uma
infecção. Rapidamente, dolorosamente, impiedosamente.
O lobo ainda rugia.
— Astrid — alguém gritou muito distante. Os
ouvidos da jovem zuniam em seu próprio cérebro, o som
tão irritante, mas tão sereno.
— Astrid — gritou novamente, uma voz fina e
elegante, nenhum passo, apenas uma voz. A voz de
alguém, a qual ela não reconheceu. Uma mulher, alguém a
encontrou.
Ela, quem quer que fosse, ouvira os gritos e veio à
sua procura.
Ela veio.
— ASTRID — novamente. Dessa vez mais alta,
como se ela estivesse ao seu lado, no entanto, não estava.
A voz celestial estava longe e Astrid precisava correr.
Corra!
Uma última olhada para o lobo e ela viu os seus
olhos escuros e controlados, estes concentrados nela. Ele
queria que ela corresse, ela tinha que correr, alguém estava
ali e estava a sua procura.
A princesa agarrou as rédeas de Dama e subiu nesta,
após escorregar e arrastar fortemente o seu tornozelo sobre
uma rocha alta e musgosa. Um gemido soou da sua
garganta, suas pernas estavam dormentes, doloridas, mas
ela subiu. A princesa não estava machucada, não como
aquele homem estava. Astrid não sabia se seria capaz de
se lembrar daquela cena novamente.
Dama virou rapidamente, ela não precisou de
nenhum comando, nada. Apenas o receio fez com que a
égua disparasse dali.
Deixando as flechas para trás junto com aquele lobo,
Astrid saiu daquele local sombreado, indo em direção ao
lado oposto do rio.
E com um último grito de terror daquele velho
homem, ela soltou a respiração.Dama ainda corria freneticamente, as suas patas
mais velozes do que nunca, como Astrid nunca vira
anteriormente. Ela parecia voar e planar sob o céu quando
chegaram à área vasta e plana do Reino Florestal, os
Beltranos pareciam atordoados, os ouvidos de Astrid ainda
zuniam com o desespero, mas o grito da mulher cessou.
Apenas o berro de dor e medo daquele homem permanecia
em seu cérebro, como se este ainda estivesse ali. Como se
ele tivesse a seguido para implorar por ajuda.
— ASTRID — novamente o seu nome foi chamado,
dessa vez mais perto do que antes. Contudo, não era uma
voz feminina que a chamava, muito menos um corpo
curvilíneo que a segurou pelos braços. Havia mais
músculos ali, circundando toda a extensão de seus
membros superiores.
"Onde é que você estava?" — Apolo, era Apolo
quem a segurava e estava à procura de respostas, é óbvio
que ele ouviu os gritos. Ele era um Combatente, a sua
audição era aguçada, assim como a do restante deles. —
Escutamos barulhos, berros e não sabíamos onde você
estava. Não sentimos o seu cheiro. Íamos lhe procurar. —
Ele passou os dedos sobre os cabelos, agora dourados pela
luz solar.
— Estou bem. — ela disse, os olhos se desviando
para os Beltranos que ainda escutavam a sua conversa com
o guarda. Todos viraram as cabeças rapidamente e se
concentraram em suas tarefas, mas Astrid podia jurar que
os seus olhos vazios estavam repletos e banhados com
preocupação. — Quem era a mulher que estava me
chamando?
— Que mulher? Não havia ninguém a chamando
além de mim. — ele respondeu, os olhos ainda atentos no
corpo esguio de Astrid.
— Uma mulher...
— Você bateu a sua cabeça? — Apolo questionou,
os seus dedos ameaçaram se esticar até a ponta do crânio
da princesa, no entanto, esta recuou prontamente.
— Esquece. — Ela pensaria naquilo, naquela voz,
mais tarde.
Mais tarde.
Apolo suspirou profundamente e passou os dedos
grandes por suas têmporas, logo as massageando. O corpo
parecia inerte, mas o seu peito se movia de cima a baixo
enquanto a mão esquerda permanecia sob o bolso do
uniforme. Os seus olhos castanhos se voltaram para a
princesa, porém, logo se desviaram em direção à Dama, os
lábios formando uma linha fina repentinamente.
— O que houve com ela? — ele questionou com a
voz firme e audível. Astrid sentiu o seu estômago se
revirar, juntamente com a comida que ela tinha saboreado
pela manhã. Se Dama estivesse machucada... — Por que
está tão assustada?
Astrid olhou de relance para Dama, examinando
rapidamente todo o corpo da égua, nenhum sangue
percorria por aquele pelo liso e negro. Graças às Rainhas.
Astrid suspirou com o súbito alívio que percorreu por sua
espinha. Apenas o rosto de Dama permanecia repleto com
receio e desespero, mas, exceto isso, tudo parecia bem. Ela
estava bem e era isso o que importava naquele momento.
— Ela vai ficar bem. — A voz de Astrid não
passava de um sussurro, a sua garganta aparentava estar
fria e os seus ouvidos pareciam que iriam explodir a
qualquer momento. — Tenho que levá-la de volta aos
estábulos.
— Irei chamar alguém para levá-la...
— Não. — Astrid falou com a voz falha, mas ela
soube que foi firme o suficiente para que Apolo recuasse e
parasse de falar.
A princesa ergueu a coluna, os cabelos castanhos
voando ao redor de suas costas, enquanto esta se punha de
pé e saltava da sela de Dama. Um gemido, acompanhado
de um grito, soou através da sua garganta. Uma pontada de
dor pousou em seu tornozelo direito, sangue pingava sobre
o vestido cobalto, o manchando, fazendo com que uma cor
escura se instalasse em sua ponta.
O sangue quase seco, como ela não havia reparado?
— Como isso aconteceu? — Apolo arfou, os ombros
largos se curvaram minimamente e os seus olhos se
contraíram com o cheiro acobreado do sangue, supunha
Astrid.
— Me cortei, eu acho. — Ela não havia sentido a
dor um tanto agonizante no momento, mas a princesa
recordava da rocha que deslizou sobre a parte inferior do
seu tornozelo.
— Você estava no local em que houve os gritos, não
estava? — O rosto de Apolo não passava de uma máscara
severa e aflita, os lábios ainda contraídos, a testa franzida
e os olhos tão desconfiados que Astrid duvidou por um
momento da sua própria capacidade de mentir bem.
De mentir para ele.
— Apenas escutei uns rugidos. — ela mentiu
enquanto encarava os seus olhos. A princesa tentou focar
em sua dor e não no olhar avaliador de Apolo e em seu
rosto neutro. — Dama se assustou, logo eu me assustei.
Com certeza, ralei o meu tornozelo em algo e viemos
direto para cá.
Ele parecia considerar as suas palavras. Astrid não
fazia ideia se parecera convincente. Contudo, Apolo
examinava o seu rosto atentamente e, certamente, as
contrações que este realizava não eram para enganá-lo. O
seu pé começou a latejar, mas ela não queria parar de
encarar os olhos de Apolo. Ele precisava acreditar em suas
mentiras.
O rosto largo e pálido daquele homem retornou para
a sua mente. O lobo mordendo fortemente a sua perna para
que nada ali sobrasse, para que ele sentisse toda àquela
dor. Astrid não fazia ideia se ele merecia todo aquele
sofrimento. Ela tentou não demonstrar nenhuma expressão
em sua face, quando se lembrou do olhar atento e
controlado do lobo em sua direção. De como ele parecia
querer que ela fugisse, de como ele rugiu e esperou até que
ela estivesse longe o suficiente para que ele desse o seu
ataque final.
Apolo se ofereceu para ajudar Astrid durante o
caminho que percorreram para chegar à curandeira. Ela se
recusou, assim como recusou a oferta de subir novamente
em Dama. A égua já estava cansada e exausta demais, ela
precisava se alimentar e descansar o suficiente para que
todo aquele terror se dissipasse da sua mente.
— Não sabia que as curandeiras estavam na torre
mais distante do palácio — Astrid murmurou para Apolo,
a fim de amenizar a dor em seu pé e evitar a mancada
constante que ela realizava no momento.
De fato, eles estavam andando por minutos e, graças
ao orgulho de Astrid, o seu pé piorava cada vez mais, já
que esta não aceitara o auxílio de Apolo. Cada passo que a
princesa dava, um nó se formava em seu estômago, os
dedos dos pés se curvavam dentro da bota e um enjoo se
instalava em sua garganta. Apolo pareceu perceber, mas
não comentou nada. Era melhor assim, Astrid não
aguentaria conversar sobre a própria dor no momento.
— Não estão... — os seus olhos cor de mel estavam
direcionados para além do horizonte, onde mais cedo, os
gritos ecoaram por volta de todo o Reino. — Não
permanentemente. Elas estão aqui hoje para curar os
escravos, mas só algumas delas.
Os escravos andavam de um lado para o outro sem
parar. Astrid captava os seus olhares curiosos em seu
tornozelo e no sangue que escorria por ele. Contudo, as
cabeças eram abaixadas rapidamente, como se ela fosse
odiar aqueles olhares e lhes punir, mais do que já eram
punidos. O coração de Astrid parou por um momento, ela
respirou profundamente e continuou ao encalço de Apolo.
— Era para você estar na minha frente enquanto eu
lhe sigo. — Apolo fez menção de parar, no entanto, Astrid
o impediu com um aceno de negação.
— Não se preocupe com isso, mal estou
conseguindo me mover, não me espere. — Mesmo assim
ele a esperou. Apolo estacionou no meio de uma área
revestida de árvores e flores brancas e amarelas, os olhos
do Combatente percorrendo os membros inferiores de
Astrid.
— Não vai infeccionar, a magia das curandeiras é
forte o suficiente para consertar isso. — Ele apontou para
o seu tornozelo descoberto. Ela não estava preocupada
com aquilo. Astrid deu de ombros e seguiu em frente
enquanto mancava pelas rochas e arbustos, os espinhos
incomodando a parte inferior da sua panturrilha.
Eles chegaram a uma alta torre, a Torre da
Restauração, a qual diversas curandeiras trabalhavam
constantemente. Havia duas dessa torre no Reino
Florestal, uma ao Norte e outra ao Sul. De acordo com
Apolo, hoje as melhores curandeiras estavam ali, na torre
do Norte, realizando os seus trabalhos nos escravos e em
alguns Beltranos, que acabavam se machucando com
algumas de suas tarefas.
As muitas mulheres que ali se encontravam
lançaram reverências longas e cumprimentos para Astrid.
Ela preferia que não as fizessem, no entanto, a princesa
não estava em condições de dar ordens no momento.
Apolo a seguia para o fim do corredor. Eles
passaram por diversos negros feridos, alguns chiavam,
outros pareciam não sentir as mãos das curandeiras em
seus corpos esqueléticos e desnutridos. Outros agradeciam
gentilmente às trabalhadoras, que pareciam cuidar muito
bem de todos.
Astrid seguia Apolo. Ele a ajudou a subir alguns
degraus da escada bem revestida, os corrimãos tão limpos
que Astrid parecia suja demais para estar naquele local.
E de fato, ela estava.
Contudo, não era a única.
O guarda deu algumas batidas suaves na porta
grande e rústica. A madeira era revestida por luas. Luas de
todas as fases. Pequenas estrelas circundavam esses
satélites prateados, estrelas azuis, amarelas, vermelhas e
ametistas. Todas formando um imenso e único cérebro
humano, como se aquele órgão fosse o responsável por
imaginar coisas tão deslumbrantes e incríveis.
Ele realmente era.
Uma pintura admirável e exótica.
Uma voz doce e calma soou do outro lado do
cômodo. Uma mulher de cabelos acobreados apareceu
atrás de uma das estantes cobertas de livros. A sala era
imensa, tão rústica quanto o restante da torre, mas
confortável o suficiente para que qualquer um se sentisse
confortável ali dentro. Uma brisa quente e suave beijou o
rosto fino de Astrid, as persianas beges das janelas
balançavam sob o vento, fazendo com que alguns papéis
na escrivaninha sobrevoassem.
A pequena mulher se aproximou ligeiramente de
Astrid e de Apolo, os seus olhos quentes e grandes
percorreram a linha de sangue que se formava abaixo do
vestido da princesa. Antes que Astrid pudesse abrir a boca
para comentar sobre a mesma história que contara ao
Apolo, a curandeira lhe concedeu uma reverência
majestosa e elegante.
— Vossa Alteza — ela disse, o rosto tão jovem,
quanto o seu próprio corpo. Ela poderia ter a idade de
Astrid, alguns anos a mais, talvez.
Astrid abanou a sua mão, soltando um suspiro
profundo de seus pulmões.
— Por favor, não se incomode. Preciso apenas... —
ela procurou as palavras corretas para a sua situação, para
o tornozelo machucado, para o que ela passou e vivenciou
há momentos atrás. A curandeira apenas sorriu com
compreensão e inclinou a cabeça em direção à uma maca
cinza, que permanecia no canto da sala.
Astrid sentou-se, encostando as suas costas na
parede fria, porém, confortável.
— Pode colocar um travesseiro, Alteza, se sentir
vontade — a curandeira disse. Os lábios se moveram
lentamente em um sorriso gentil, tão gentil quanto os seus
olhos azuis claros, como o próprio Rio Clypeus.
Aquele Rio.
— Estou bem, obrigada — o olhar de Astrid e de
Apolo se cruzaram, palavras não pronunciadas
percorreram por aquele olhar malicioso e divertido.
Quem diria que você sabe ser educada. — Apolo
parecia dizer. Astrid apenas revirou os olhos e bufou
baixinho.
— Vamos ver — a curandeira ficou de frente para
Astrid, esta curvando a sua perna lentamente para não a
machucar. A mulher levantou uma pequena parte do seu
vestido, apenas o necessário para conseguir discernir quão
profundo, ou superficial fora o machucado e se uma
possível infecção poderia estar surgindo ali.
Apolo se contorceu em seu lugar. Ele estava
encostado em uma parede, os olhos se alternando entre o
machucado no tornozelo de Astrid e no próprio cômodo.
— Algum problema, soldado? — Astrid o provocou
— Não consegue ver um pouco de sangue?
Ele riu, uma risada irônica e divertida — Eu sou um
soldado, Alteza, sangue para mim não é nenhuma
novidade. — O Combatente sorriu, os braços se cruzando
levemente abaixo do seu peito.
Astrid podia jurar que uma risada saltou da
curandeira, ela não sabia dizer, não com a dor que
irrompeu sobre si quando a mulher ruiva tocou em seu pé.
— Parece bom. — ela disse e Astrid arqueou uma de
suas sobrancelhas. A curandeira sorriu — Nenhuma
infecção, o corte fora superficial. Amanhã mesmo você
estará confortável novamente, mas isso não significa que
não deva permanecer em repouso.
— Se ela soubesse o significado dessa palavra, isso
não teria acontecido. — Apolo murmurou e Astrid lançoulhe um gesto vulgar. — Não seja mal educada, Alteza.
— Isso é uma ordem? — Astrid retrucou. Apolo
apenas gargalhou e negou com a cabeça, os cabelos loiros
se movimentando de um lado para o outro.
A curandeira sorria com o pequeno diálogo que
Astrid e Apolo mantiveram dentro daquele cômodo. A
princesa perguntou a si mesma se a mulher recebia muitas
visitas, ou se aquela sala era exclusiva para os familiares e
aliados do rei. Astrid não perguntou, ela não queria saber a
resposta. A curandeira lhe trouxe um tônico de gengibre,
logo utilizando um pouco da sua magia no tornozelo de
Astrid para que o ferimento se tornasse apenas uma
cicatriz, não totalmente cicatrizado, porém, melhorou
bastante. Uma pomada de hortelã fora dada para a princesa
e a mulher ordenou que esta usasse todos os dias, até que o
ferimento cessasse por completo.
— Não esqueça, não infeccionou, mas isso ainda
pode acontecer — alertou a curandeira enquanto limpava
as suas próprias mãos e as enxugava em um pano limpo.
— Obrigada... — Astrid franziu a testa e contraiu os
lábios.
— Bennett — ela falou, as bochechas corando
levemente. Alguém da realeza já havia questionado o seu
nome? — Léia Bennett.
Astrid assentiu e sorriu para a mulher ruiva.
— Obrigada, Léia. — A sua única resposta foi uma
reverência.
A curandeira não havia questionado sobre o
ocorrido, sobre o que realmente aconteceu para que a
princesa da realeza aparecesse naquela torre, machucada,
com sangue espirrando do seu tornozelo. E por esse
motivo, Astrid retribuiu o sorriso e aceitou a sua saudação
formal de bom grado.

Bình Luận Sách (2863)

  • avatar
    FlorLaravilla

    ótimo

    4d

      0
  • avatar
    BiancaCarla

    muito bom

    12d

      0
  • avatar
    RitaMayara

    muito bom

    19/04

      0
  • Xem tất cả

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