Alguns minutos após o amanhecer, Astrid descia as enormes escadarias de mármore do palácio. O vestido cobalto farfalhava em suas costas, este sendo mais folgado do que o normal para que a princesa conseguisse manter os seus exercícios mais confortáveis e relaxados. As botas de couro soavam sobre o piso lustroso enquanto ela se movimentava, fazendo com que as facas embutidas em seu cinto se tornassem pesadas e balançassem em sua cintura. Os Combatentes postos ali tão cedo não se incomodaram quando a princesa desceu em direção à cozinha para que pudesse se servir rapidamente de alguns pães de alho, frutas secas e suco, após receber diversas reverências dos cozinheiros, estes preocupados da princesa se alimentar juntamente com eles e não na sala de jantar com o seu pai, que provavelmente permanecia trancafiado em seu escritório naquela hora da manhã. Astrid aceitou as suas formalidades e deixou que um dos Beltranos a servisse com um longo sorriso no rosto. A sua pele era pálida e velha, como se o homem não saísse daquele local há muito tempo, logo, evitando a luz do sol. Os seguranças também não a impediram de ultrapassar os portões revestidos de ferro, tão limpos e tão bem cuidados, que Astrid se perguntou quantas vezes era preciso limpá-los por semana. As suas pernas ainda permaneciam doloridas por causa da tarde anterior, cujo treinamento com Dimas fora duradouro e esgotante, fazendo com que Astrid dormisse a noite inteira sem interrupções. Apenas os sonhos de seres poderosos e com magias extremamente intensas habitaram em sua mente naquela noite. O receio daquela possível realidade ainda percorria por sua cabeça quando ela acordou no dia seguinte com o canto dos pássaros e com os ruídos que os escravos produziam. Astrid encarou sobre o ombro mais uma vez antes de prosseguir o seu caminho. O palácio era revestido com pedras ferro, as quais possuíam texturas semelhantes à madeira, todas tão diferentes e fascinantes. As cores escuras e claras formavam dégradés sobre toda a fachada da construção, causando uma impressão de rusticidade, antiguidade e deslumbramento aos olhos de quem encarassem. As torres, que se encontravam ao lado da imensa construção, eram altas e esguias quando vistas de longe, mas Astrid sabia como elas eram gigantes e largas para que um considerável número de guardas se mantivesse naquelas alturas, com o propósito de impedir a entrada de seres indesejáveis, ou seja, aqueles que habitavam os Reinos que não compunham o Reino Florestal, nem o Reino Solar. Árvores com folhas absurdamente verdes e saudáveis se encontravam ao redor do paço, estas sobre gramas, as quais estavam circundadas por flores coloridas e vibrantes. A paisagem era linda e atraente. Contudo, Astrid tinha a consciência de que tudo aquilo era pura sedução física, já que naquele Reino a aparência tinha o objetivo de sobressair às vidas sofríveis que o povo enfrentava diariamente. Astrid se encontrava ao lado das grades dos estábulos no momento em que os seus pensamentos se dispersaram. O mesmo cavalariço do dia anterior se encontrava ali, erguendo as mãos para que a sua magia entrasse em contato direto com a terra já meio escavada. Uma pá se encontrava ao seu lado, para caso a fraca magia se esgotasse, ele pudesse continuar escavando com os seus braços finos e compridos. A princesa adentrou o local, chamando a sua atenção e a atenção de alguns trabalhadores que permaneciam no estábulo. Todos arregalaram os olhos como se estivessem encarando algo monstruoso. Diversas reverências foram feitas com a sua chegada e Astrid lhes mostrou um sorriso de conforto, logo acenando com a mão direita para todos. No entanto, ela notara o olhar perdido e sofrível do cavalariço que cuidava de Dama. Os olhos esbugalhados estavam repletos de tristeza e desolação. Astrid já caminhava em sua direção rapidamente, ignorando as pequenas picadas dos arbustos, que ainda não haviam sido aparados, em seus tornozelos. — Dama está bem? — Astrid questionou, sentindo um nó em seu intestino. As palavras soaram mais baixas do que ela esperava. — Sim, Alteza, a égua está completamente bem — A voz do Beltrano saiu em um sussurro. A garganta oscilando, provavelmente com o nervosismo de uma princesa se dirigir a ele de uma maneira tão informal. O peito de Astrid subiu com o alívio, assim como os seus ombros, antes tensionados, relaxaram instantaneamente. Ela encarou novamente a pequena cova que o cavalariço construíra, era realmente uma cova muito pequena para que Dama coubesse ali. O trabalhador, certamente, notou o olhar questionador de Astrid sobre as terras espalhadas, pois logo comentou: — Um potro acabou de falecer, Alteza. — O seu tom era tão deplorável, que Astrid sentiu pena brotar em seu peito. — Uma das éguas estava fraca demais e já imaginávamos que o parto não seria algo tão... Belo de se presenciar. — As curandeiras não conseguiram fazer nada por ele? — Astrid ainda encarava aquele pequeno buraco, onde mais tarde haveria um potro que não possuiu a chance de viver. O cavalariço negou com a cabeça, a boina cobrindo os seus cabelos cinza e ralos, antes de dizer: — Vossa Majestade, Rei Howard, não nos dera permissão, Alteza. Vossa Majestade não queria que convocássemos as curandeiras para que cuidassem dos animais, mas de qualquer forma, ele não teria resistido mesmo. — Os seus ombros delgados estavam mais curvos do que antes, fazendo com que o trabalhador diminuísse alguns centímetros. É claro que o seu pai havia os proibido de quaisquer ajudas, ou contatos com auxiliares para que estes cuidassem dos animais feridos e enfermos. Astrid não queria escutar nada sobre o Rei e sobre as suas injustiças, não naquele momento, porém, observando aquele homem tão frágil e tão sem forças... Aquilo era um imenso egoísmo. — Sinto muito. — Era tudo o que ela poderia oferecer. Astrid era uma princesa, a herdeira do Rei. No entanto, aquele termo era totalmente desnecessário, já que ela não poderia fazer nada para mudar aquelas situações. Situações tão desagradáveis. A princesa sabia que, caso tentasse discutir com o seu pai sobre esses acontecimentos, não adiantaria de muita coisa. No entanto, apesar desse pensamento, ela gostaria de tentar. O trabalhador lhe concedeu, novamente, uma reverência longa e demorada, enquanto os seus dedos finos tocavam na boina escura para evitar que esta saltasse da sua cabeça. — Muito obrigado, Alteza — ele agradeceu tão calmo e tão sereno, que Astrid sentiu o seu peito apertar ainda mais. Ela acenou com a cabeça educadamente antes de continuar o seu caminho para o interior do estábulo, onde, sabia ela, Dama a estaria esperando. A princesa imaginava como seria se Dama estivesse no lugar daquele potro, tão imóvel e sem vida alguma, como Astrid lidaria com aquilo. Ela se perguntava se a sua expressão seria idêntica à expressão do cavalariço, ou se seria pior, se ela estaria mais abatida do que ele, se é que era possível. Dama bufou suavemente e andou lentamente de um lado para o outro ao ver Astrid se aproximando. Um dos trabalhadores abriu a porteira e puxou Dama com cuidado para não a machucar, logo, a tirando detrás das grades e pondo a sela em seu dorso. As crinas prateadas de Dama se agitavam com o vento e as suas pernas robustas batucavam sobre o piso de brita, já impaciente para sair daquele local. Ela queria se movimentar. Astrid a acariciou antes de montar na sela e puxar levemente as rédeas, logo agradecendo ao trabalhador que a ajudara. Ele lhe ofereceu um cumprimento e acenou com a mão para que as grades, de madeiras pálidas, se fechassem. O dia estava completa e incrivelmente agradável. O sol permanecia mais forte do que estivera no dia anterior, os raios cintilando sobre as poucas fontes de água que se encontravam no local, aves cantavam no topo das árvores enquanto as cercavam. O povo continuava com os seus trabalhos, alguns conversavam com as vozes baixas, já outros falavam alto, tentando sobressair os barulhos que alguns de seus equipamentos, ou materiais produziam. Todos possuíam as mesmas expressões de cansaço e de dor. Felizmente nenhum escravo passou em seu caminho enquanto Astrid cavalgava, ela não sabia se conseguiria os encarar e receber as suas saudações e sorrisos falsos. Não porque eles eram pessoas ruins, muito pelo contrário, e sim, porque eles não possuíam mais forças para expressarem sentimentos bons, para fingirem que tudo estava bem, quando na verdade, tudo estava desabando sobre os seus pés. Ela só queria os ajudar, mas não sabia como. Ali estava, o local do enforcamento. O corpo de Astrid estremeceu freneticamente e Dama curvou ainda mais o seu tronco, com o intuito de manter a princesa equilibrada, como se ela entendesse o que aquele lugar significava para a sua dona. Tão inteligente e esperta. A respiração de Astrid parecia não existir mais, o fôlego se dissipou rapidamente dos seus pulmões ao encarar a área. Parecia ser vasta quando observada de longe, como se fosse apenas mais uma das casas de madeira de um dos Beltranos, ou de uma família. No entanto, aquele era um lugar abominável, o qual Astrid nunca entrou. Contudo, ela não precisava adentrá-lo para que ele a assombrasse, para que ela possuísse diversos pesadelos durante tarde da noite. O local do enforcamento foi criado, especialmente para os escravos, com o objetivo de os maltratarem das piores formas possíveis, com açoites e com lâminas afiadas até que sangue jorrasse de seus corpos negros e magérrimos. Caso, o agressor possuísse o mínimo de piedade possível, os escravos eram enforcados com rapidez para que não sentissem dor. No entanto, na maioria das vezes, essa ação repulsiva tinha o intuito de lhes causar sofrimentos, sofrimentos esses, que Astrid imaginava serem impossíveis de aguentar, visto que ela conseguia escutar as súplicas de piedade dos escravos contra os agressores, enquanto esta se esforçava para dormir. Ela respirou fundo e fechou os olhos, controlando a sua respiração, assim como Dimas havia a ensinado. Inspirar e expirar. Inspirar e expirar. Inspirar e expirar. Dama agora se movimentava lentamente e apesar dos pensamentos de Astrid ainda estarem naquele local horrendo, elas já haviam passado dele. No momento, ambas se moviam entre as árvores que projetavam sombras. O sol não conseguia ultrapassar as folhas, já que essas estavam todas entremeadas umas nas outras, fazendo com que aquele local permanecesse mais escuro. Astrid lançava algumas flechas de madeira de pinho em direção a um dos alvos coloridos, que ela pintara em uma árvore caliandra-rosa. A sua mira evoluiu muito desde que ela dera início a esses treinamentos. A princesa já havia corrido durante meia hora ao redor de algumas plantas, o suor agora escorria pelo seu corpo e as suas pernas tremiam cada vez mais com os seus esforços. Dama brincava com algumas folhas e arbustos, ela chutava diversas pedras pequenas para o lado e recuava quando uma águia soava entre a floresta. Elas estavam próximas ao rio Clypeus, cujo propósito era separar os quatro Reinos de Brighid por escudos protetores lançados pelos quatro Reis. Os únicos que podiam ultrapassar o território do Reino Florestal era o povo do Reino Solar, exceto em um único dia do ano, o qual toda a magia era dissipada. Mas, é claro que nenhum dos outros dois Reinos atacavam, pois nenhum gostaria de iniciar uma guerra interna, não enquanto houvesse tantos riscos e tantas perdas, principalmente devido à última guerra, apesar desta ter sido externa. Nenhum rei era tolo e Astrid sabia disso. Se estes se encontravam no topo da hierarquia, apenas isso significava muita coisa. Eles eram espertos e habilidosos, além de poderosos. Eram até demais, pensou Astrid após relembrar do assunto comentado com Dimas no dia anterior. Fechar a mente. Ela tentou bloquear os seus pensamentos na noite passada, no entanto, Astrid não fazia a mínima ideia se aquilo servira de algo. Eles deveriam ser fortes demais, quando comparados a uma humana, logo, esse pequeno fechamento seria muito fácil de ser reaberto e controlado, supunha ela. Dama se hidratava no rio cristalino, a água era tão transparente e reluzente, que caso os raios de sol incidissem ali, Astrid não conseguiria enxergar mais nada, se continuasse a encarando de perto. Contudo, ela permanecia lançando as flechas, ou estacas, como Apolo havia as denominado, na árvore, acertando o mesmo alvo diversas vezes. Suas mãos agora latejavam, assim como os seus braços, por causa da força exercida. Astrid revirou os olhos e contraiu os pequenos dedos da mão direita, porém, parou subitamente com o susto que levou. Dama relinchou tão alto que a princesa sentiu o seu coração escapulir pela boca, os seus ouvidos formavam um emaranhado estranho de ruídos e a sua mente girava rapidamente. Ela correu rápido em direção à Dama, tão depressa que quase caíra nos galhos que estavam sobre o chão enlameado. Os seus dedos roçavam na pele da égua a procura de qualquer ferimento. Dama respirava com dificuldade e o seu coração palpitava sem nenhuma pausa. — O que... O que houve? — Astrid perguntou tão sem forças, que pensou que fosse desmaiar. Todo aquele susto, aquele barulho. Ela não conseguia achar o machucado na égua, não conseguia perceber, ou notar o que havia de errado. Contudo, Dama não olhou para Astrid nenhuma vez sequer. Os seus olhos turquesa permaneciam fixos em algum ponto além do rio, além daquelas águas gélidas e movimentadas. E quando Astrid ergueu o olhar, ela o viu. Um imenso lobo de pelagem cinza a encarava com uma expressão fria e devoradora.
Cảm ơn
Ủng hộ tác giả để mang đến cho bạn những câu truyện hay
ótimo
3d
0muito bom
11d
0muito bom
19/04
0Xem tất cả