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Capítulo 2

As sandálias de couro e desgastadas de Astrid
soavam pelo salão de treinamento como em uma dança majestosa e profissional de sapateado enquanto essa empunhava uma espada de lâmina curva e afiada, o aço tão prateado e tão lustroso que as cores acobreadas do sol incidiam em sua ponta, através das janelas retangulares,
agora totalmente abertas.
Astrid apontava para o vento, o ameaçando e o
atacando com a espada. O suor percorria por sua testa, as mechas castanhas escuras do seu cabelo caíam em cascatas sobre as suas têmporas já encharcadas com a transpiração.
As pernas bambeavam para manter o equilíbrio e a sua mão deslizava pelo cabo liso. Ela tentava mantê-la firme, mesmo que tremesse de exaustão. A princesa já estava melhor. Ela conseguia manter a sua respiração constante, inspirando e expirando quando necessário, os
pés se mantinham em equilíbrio, por mais que eles quisessem e implorassem para que ela se sentasse e os dessem um descanso.
Contudo, Astrid não podia parar. Não enquanto
estava treinando por apenas uma hora e o seu companheiro de treino estava atrasado. Apolo disse que Dimas viria. será que ele havia mentido? Talvez ele achasse divertido demais caçoar de Astrid. O Combatente podia fazer aquilo, seu pai não o puniria por isso e não daria atenção
para Astrid, caso ela resolvesse comentar como o guarda pessoal do rei a importunava diariamente.
Ela e Apolo nunca possuíram um relacionamento
amistoso, mas nem sempre eles discutiam. Eram colegas e se conheceram muito novos. Apolo é o mais velho entre eles dois, Astrid não tinha certeza de quantos anos o guarda possuía, mas ela diria que ele estava por volta dos seus vinte e três, ou vinte e quatro anos. Quatro anos mais
velho do que ela. Não que isso fosse importante.
Não era.
Astrid se lembrava de quando ele havia se tornado o Combatente pessoal do rei. O pai de Apolo havia falecido há alguns anos atrás, ele também era o segurança do seu mais, o mais confiável e o mais respeitado. Astrid sabia que aquilo era considerado uma honra para qualquer súdito,que o seu Soberano reconhecesse a sua presença e o admirasse tanto, que um bom emprego seria totalmente oferecido para ele.Dito e feito.
No entanto, o Combatente faleceu e Astrid era
jovem demais para que fosse capaz de se lembrar de todos
os detalhes, no entanto, ela se lembrava de Apolo. Ele ainda era um menino, talvez no começo da sua
adolescência, quando substituiu o pai. Ela se perguntava como o rei havia permitido que
um jovem fizesse parte daquele cargo. Alguma promessa feita ao guarda anterior? Não, o seu pai não prometia e quando prometia, ele não cumpria.
Astrid sabia disso por experiência própria. Apolo já deveria estar sendo treinado por seu pai, pois, mesmo jovem, alguns músculos já espreitavam em seus braços e coxas. Talvez ele já fosse digno daquele cargo antes mesmo de completar a maioridade, talvez ele só estivesse esperando por aquele momento. Quem sabe o que Apolo,
ou o seu pai já havia planejado para o seu futuro. Ele parecia se sentir confortável com a sua profissão, até mesmo quando estava ao lado de Astrid.
Apolo sempre estava se intrometendo em seus
assuntos pessoais, grande parte, sabia Astrid, assuntos que interessavam o seu pai. Contudo, o rei era tão cruel com ela que ele mandava um guarda tirar satisfações, em vez de que ele mesmo a procurasse e a questionasse. Não que
Astrid fosse responder todas as suas perguntas tolas, mas ele poderia ser um pouco menos covarde, se é que era possível.
Astrid soltou a espada da mão e tentou manter os pés firmes no chão enquanto parava subitamente os ataques.
No entanto, ela cambaleou para trás em alguns passos, a sua cabeça agora girava, fazendo com que um som agudo preenchesse o seu cérebro.
Ela pegou a garrafa de água que permanecia no
parapeito da janela e tomou um pequeno gole do liquido gelado. A princesa não podia tomar mais do que aquilo, já que ela continuaria o treinamento e não estava nem um pouco a fim de passar mal naquele momento. As imagens de Apolo e de seu pai ainda percorriam em sua mente. Ambos sérios, com rostos gélidos. O seu pai mais inexpressivo do que o Combatente.
Eles eram um tanto semelhantes, não fisicamente.
Astrid não sabia se mentalmente também, ela não sabia se Apolo era tão perverso como o seu pai poderia ser. A princesa tinha essa consciência, contudo, ela não sabia até
que ponto ele podia chegar com a sua arrogância e aversão.
— Você se cansa muito rápido, não estou lhe
treinando da forma correta? — Astrid sabia muito bem de quem era aquela voz tão melancólica e rouca.
Os olhos verdes e repuxados a encarava. Dimas
estava ao lado da parede, vestido com uma roupa própria para o treinamento. O traje branco, com uma estampa laranja escura e discreta, lhe caía perfeitamente bem, apertando em lugares, os quais Astrid imaginava que faria
qualquer mulher parar instantaneamente em algum local e admirar todos aqueles contornos. Os cabelos castanhos de Dimas se moviam graciosamente, graças ao vento forte
que saltava pelas enormes aberturas retangulares. Os seus passos eram lentos e silenciosos, certamente devido aos seus longos anos de treinamento e vigilâncias.
As suas pernas eram longas, tão longas que Dimas conseguiu atravessar o outro lado do salão em poucos passos, parando alguns centímetros de Astrid, que ainda se encontrava ofegante e, supôs ela, praticamente derrotada.
Ela conseguia sentir os cabelos desgrenhados sobre o topo da cabeça. O que antes era um penteado com um coque formal e elegante, agora, com certeza, estava mais para um ninho de passarinhos. As suas bochechas
deveriam estar coradas com todo aquele suor e com o cansaço que percorria o seu corpo. Astrid estava parada há um tempo e o seu sangue já havia esfriado. Seria mais difícil agora para ela continuar a sua prática.
Dimas gargalhou, inclinando a cabeça para trás. —
Você está absolutamente adorável, Astrid.
A princesa franziu a testa e revirou os olhos.
— Está atrasado. Eu poderia enfiar esta espada em seu estômago agora mesmo. — Ela apontou um dedo para a espada agora caída no chão branco.
— Desculpe, não foi a minha intenção — Dimas já
estava parando de rir e ele buscava ar para encher os pulmões novamente.
A sua risada era esquisita e nada atraente. Astrid já havia se acostumado com aquele som, mas, ainda assim, ela sempre possuía vontade de sorrir com aquilo, mesmo agora, enquanto fingia sentir raiva do amigo.
— Cássio me prendeu no Reino Solar por um bom
tempo, as coisas não estão muito boas por lá. — Ele deu de ombros, agora relaxado, no entanto, com uma expressão séria por ter citado o nome do irmão — Tive que vigiar por alguns minutos antes dele me liberar.
O Rei Abraham, também chamado de Cássio por
seus irmãos, governava o Reino Solar, o qual possuía mais dias quente do que frios, com pôr e nascer do sol incrivelmente belo e espetacular, pelo menos era o que
Dimas havia dito, já que Astrid nunca saíra do Reino
Florestal.
Ela nunca havia ido visitar aquela paisagem tão
maravilhosa, como era descrita por vários Beltranos e Combatentes, que já tiveram o prazer e a sorte de
vivenciá-la.
Os Beltranos possuíam essa única sorte quando
migravam do Reino Florestal para o Reino Solar, visto que, eles trabalhavam sem parar naquele local. Dimas havia dito há um tempo que as suas expressões, em seu Reino, não eram nada comparadas às expressões que os
súditos possuíam ali.
Eles aparentavam estar mais cansados, depressivos e sofríveis. Dor e angústia passavam sobre os olhos de muitos deles, como detalhou o amigo. Astrid se sentia mal
por isso, mas é claro que o Rei Abraham os tratava
daquela forma, já que ele e o pai de Astrid possuíam
alianças tão fortes que, até mesmo na maldade, eles se
igualavam.
O Rei Abraham assumiu o posto de Rei após a morte
do seu pai. Dimas, felizmente, ainda era muito jovem, uma
criança, mas Astrid sabia que ele guardava recordações
dos seus parentes, que eram pessoas tão boas para os
filhos e para o povo do Reino. O atual Rei Abraham
abusava da bondade dos seus irmãos mais novos e os
faziam o obedecer a qualquer custo. Abraham não possuía
piedade quando o assunto era tratá-los mal, os humilhar e os deixar trancafiados por dias, até que estes fizessem tudo
o que ele queria.
Astrid o odiava.
— Pelo menos o tempo não foi tão longo... — não
comparado às outras vezes, acrescentou a princesa mentalmente.
Dimas assentiu como se lesse as palavras implícitas nos olhos castanhos escuros de Astrid. Ela suspirou e forçou um sorriso para o amigo que continuava de pé à sua frente. As suas costas estavam retas, sem nenhuma curva e nenhuma falha. Os braços fortes caíam ao lado do quadril estreito, que estava circundado por um cinto de couro preto e gasto. Nele algumas lâminas afiadas permaneciam
embutidas e totalmente a vista de qualquer um que encarasse aquele local do seu corpo.
— O que houve no Reino Solar? — Ela não havia
perguntado e, rapidamente, isso pesou sobre a sua mente.
Se ele estava vigiando agora a pouco, no horário de lazer,isso significava que as coisas estavam realmente complicadas.
Dimas apontou para a espada ainda jogada no chão, próxima aos pés de Astrid e curvou a cabeça para o lado.
— Vamos treinando e eu lhe conto, sim? — Astrid
pegou a arma do piso brilhante, suas pernas latejando com o pequeno movimento. O sangue não estava mais quente e o seu corpo pareceu piorar cada vez mais com cada ação
que ela realizava.
Dimas desembainhou a espada de suas costas, a
qual, Astrid não havia percebido até aquele momento.
Estava muito bem escondida atrás das suas costas largas e musculosas. Ele fez um movimento rápido com o cabo negro da arma, a lâmina tão fina que, se ele não tivesse cuidado naquele momento, poderia matar Astrid em poucos segundos, com sangue jorrando do seu pescoço, estômago, ou qualquer outra parte do seu corpo.
Astrid ficou em posição esperando o ataque do
amigo, que foi lançado após um segundo. As lâminas de aço se cruzaram entre si e um ruído de metais disparou entre o silêncio do salão, até mesmo os pássaros que permaneciam fora do castelo pararam de cantar as suas melodias dramáticas. A princesa inclinou o pulso para a esquerda se defendendo da investida que Dimas havia realizado.
— Muito bom. — ele elogiou em um tom divertido e
surpreso. Astrid definitivamente estava evoluindo com aquela arma — Controle a sua respiração, As.
Então ela inspirou e expirou profundamente
enquanto dançava com Dimas. Uma valsa rápida e
complicada, sem música, apenas com os sons estridentes do metal sobre metal e das respirações aceleradas.
— Os Beltranos... — Começou Dimas, o fôlego
ainda regular — Muitos desapareceram, assim como vários de nossos barcos. Não fazemos ideia de para onde foram e como fugiram, se é que fugiram. — Astrid atacou brutalmente, mas Dimas se protegeu. — Cássio está furioso e não consegue entender como conseguiram escapar com tantos guardas à vista. No entanto, eu sei. — Raiva percorreu os seus olhos esmeraldas, logo os escurecendo — Cássio mudou todas as posições dos seguranças, eles não estão mais nas torres, todos estão em terra firme e os grupos diminuíram depois da última
guerra.

Bình Luận Sách (2863)

  • avatar
    FlorLaravilla

    ótimo

    4d

      0
  • avatar
    BiancaCarla

    muito bom

    12d

      0
  • avatar
    RitaMayara

    muito bom

    19/04

      0
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