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Chương 7 O cassino clandestino

O cassino clandestino era o oposto do galpão de onde tinham fugido. Ali, o chão era coberto por um tapete tão fofo que a Ayumi achou que seus saltos iam afundar até o subsolo. O teto tinha lustres de cristal que brilhavam tanto que chegavam a irritar, e o ar-condicionado estava no talo, fazendo o suor frio da nuca dela gelar instantaneamente.
— Relaxa o ombro, japa. Tu tá parecendo um boneco de posto travado. — Washington sussurrou, mantendo o sorriso de comercial de creme dental enquanto acenava para um estranho qualquer. — Bebe um pouco dessa água com gás aí e faz cara de quem é dona de metade de Tóquio.
— Eu tô tentando, mas esse salto tá acabando com a minha dignidade, Washington. E tem um cara de terno risca de giz me olhando como se eu fosse um bug no sistema dele. — Ayumi respondeu entre dentes, sem mexer os lábios.
— É o charme, bebê. Foca no plano. Eu vou ali pra mesa de Texas Hold'em fazer um barulho. Quando eu começar a rir alto demais, é o sinal de que a rede tá aberta.
Washington se afastou com a confiança de um herdeiro de mineradora. Ele puxou uma cadeira na mesa principal, pediu um uísque duplo e já soltou uma piada sobre o preço da soja que fez dois velhos de terno darem risada. O cara era um camaleão, Ayumi teve que admitir.
Ela, por sua vez, deslizou em direção ao bar. Sentou-se num banco alto de couro e abriu uma bolsa pequena, de onde tirou o celular e um dispositivo que parecia um carregador portátil comum, mas que era um sniffer de rede potente que ela mesma tinha montado com peças de roteadores contrabandeados.
— Uma taça de vinho branco, por favor. O mais seco que tiver. — ela pediu ao barman, tentando manter a voz firme.
Enquanto o rapaz buscava a bebida, Ayumi conectou o dispositivo. A tela do celular brilhou com linhas de comando verdes correndo sobre o fundo preto.
— Vamos lá, seus burgueses safados... me deem a senha da casa. — ela murmurou.
A rede Wi-Fi do cassino era protegida, claro, mas a segurança de borda era preguiçosa. Em menos de dois minutos, ela interceptou o pacote de dados do tablet de um dos garçons que anotava os pedidos.
“Acesso concedido: Admin_MecGold”
— Bingo. — Ayumi deu um gole no vinho, que tinha gosto de coisa cara e azeda ao mesmo tempo.
Ela começou a navegar pelos arquivos do servidor local. Estava procurando os logs de acesso que tinham causado o seu sequestro. Ela achou a pasta "Projeto Fênix". Mas, ao abrir os arquivos, seu coração deu um solavanco que não teve nada a ver com o susto do sequestro.
— Mas o que é isso...? — Seus dedos voavam pela tela.
O código que ela tinha bloqueado na corretora não era apenas um fluxo de lavagem de dinheiro. Tinha uma assinatura digital oculta, um "backdoor" que ela mesma tinha criado anos atrás, quando ainda era uma hacker adolescente fazendo bobagem nos fóruns da deep web. Era uma parte do seu passado que ela achava que tinha enterrado.
— O Doutor não quer só o dinheiro... ele quer o algoritmo de descriptografia que eu usei pra criar essa porta. — ela sentiu um calafrio. — Se ele tiver isso, ele consegue abrir qualquer carteira de cripto do país.
De repente, uma gargalhada escandalosa veio da mesa de pôquer.
— É DISSO QUE EU TÔ FALANDO! TRÊS VALETES E UM SORRISO NO ROSTO! — O grito do Washington ecoou, atraindo os olhares de todo o salão, inclusive dos seguranças que ficavam perto da porta de uma sala reservada nos fundos.
Era o sinal. Washington estava criando o caos necessário. Os seguranças se distraíram com o "fazendeiro" barulhento que estava ganhando uma mão pesada.
Ayumi se levantou, guardou o equipamento na bolsa e caminhou em direção ao corredor dos banheiros, que ficava convenientemente perto da sala do servidor. Mas, no meio do caminho, uma mão pesada pousou no ombro dela.
— A senhorita parece perdida. O salão de jogos é pro outro lado. — A voz era calma, mas fria como gelo picado.
Ayumi se virou e deu de cara com um homem de uns cinquenta anos, cabelos grisalhos perfeitamente alinhados e um terno que custava mais que a casa do Zeca Urubu. Era o Doutor em pessoa.
— Ah, eu só estava procurando um pouco de silêncio. Meu associado ali... — ela apontou para o Washington, que agora estava tentando ensinar o croupier a contar piada. — ...ele se empolga um pouco quando ganha.
O Doutor deu um sorriso que não chegou aos olhos.
— O senhor Albuquerque. Um homem interessante. Mas eu tenho a impressão de que você é a parte mais inteligente dessa dupla, senhorita Ayumi. Ou devo dizer... Ghost_Byte?
O sangue de Ayumi fugiu do rosto. Aquele era o seu codinome de dez anos atrás.
— Eu não sei do que o senhor está falando. — ela tentou manter a pose, mas sentiu a bolsa pesar no ombro.
— Sabe sim. Você deixou uma assinatura naquele bloqueio da semana passada. Uma assinatura que eu reconheceria em qualquer lugar. Eu procurei por você por muito tempo. Aqueles idiotas que te sequestraram ontem deveriam ter sido mais gentis, mas sabe como é a mão de obra hoje em dia... rústica.
Washington, do outro lado do salão, percebeu o clima. Ele parou de rir instantaneamente. Ele viu o Doutor perto da Ayumi e sua mão desceu instintivamente para a base das costas, onde o "Argumento" (dessa vez uma versão menor e retrátil) estava escondido sob o blazer.
— Algum problema aqui, cavalheiros? — Washington chegou deslizando, parando ao lado da Ayumi e passando o braço pelo ombro dela de um jeito possessivo, mas que ela sentiu como um escudo. — Minha consultora tá te dando trabalho, Doutor? É que ela é muito técnica, sabe como é... fala difícil.
O Doutor olhou para o Washington com um desprezo profundo.
— Senhor Albuquerque, ou seja lá qual for o seu nome real. Você está num lugar perigoso com uma mercadoria valiosa demais para o seu bico.
— "Mercadoria" é a mãe, ô do jaleco! — Washington soltou a gíria sem querer, a máscara de fazendeiro trincando. — A guria tem nome e ela tá comigo. E pelo que eu vi no seu segurança ali na porta, vocês estão precisando de um curso de boas maneiras.
— Vocês não vão sair daqui com o que vieram buscar. — o Doutor fez um sinal discreto com a cabeça.
Três seguranças começaram a fechar o cerco. O barulho do cassino continuava, mas naquela pequena bolha de tensão, o ar estava prestes a explodir.
— Ayumi... — Washington sussurrou, a voz agora sem nenhuma brincadeira. — Você pegou o que precisava no celular?
— Peguei mais do que eu queria, Washington. A gente precisa dar o fora. Agora.
— Beleza. Segura na minha mão e não solta por nada. — Washington deu aquele sorriso de lado, o último antes da briga começar. — Doutor, valeu pelo uísque, mas a gente prefere o podrão do Baixinho.
Washington chutou a base de uma mesa de drinques próxima, jogando copos e garrafas no chão para criar uma barreira de vidro quebrado. No segundo seguinte, ele puxou a Ayumi e saiu atropelando quem estivesse na frente.
— PEGUEM ELES! — o grito do Doutor ecoou por cima do jazz.
A paz dos Jardins estava prestes a ser quebrada por um par de fugitivos improváveis e um rastro de destruição luxuosa.
*A fuga do cassino é frenética. Eles saem pelo estacionamento, mas os carros de luxo dos clientes dificultam a manobra. Washington precisa fazer o carro alugado render como se fosse um bólido de Fórmula 1, enquanto Ayumi tenta deletar os dados do servidor do Doutor remotamente antes que eles percam o sinal Wi-Fi.*

Bình Luận Sách (66)

  • avatar
    RibeiroDaniela

    muito bom

    1d

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  • avatar
    Xiria Iny

    eu gosto

    1d

      0
  • avatar
    Alice Gabrielly

    Achei muito legal

    5d

      0
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