O sol nasceu em São Paulo pedindo desculpas, escondido atrás de uma camada de poluição cinza que parecia um cobertor velho. Dentro do "Buraco do Rato", a luz entrava em feixes finos pelas frestas do teto de zinco, iluminando a poeira que dançava no ar. Ayumi acordou com o pescoço travado e o som de algo fritando. Ela abriu os olhos e viu Washington agachado perto de um fogareiro de acampamento, concentrado em virar uns pedaços de mortadela numa frigideira amassada. — Bom dia, bela adormecida. Achei que ia ter que jogar um balde de água pra você despertar. Dormiu igual uma pedra, hein? — Washington disse, sem tirar os olhos da "gastronomia" dele. — Pedra não, Washington. Dormi igual a alguém que foi sequestrada, perseguida por motos e quase virou peneira. — Ayumi sentou, estalando as costas com uma careta. — Que cheiro é esse? Você tá fritando... mortadela às seis da manhã? — É o café dos campeões, japa! Proteína pura pra aguentar o tranco. E ó, não reclama não que o pão é de ontem, mas tá firme. Ayumi aceitou o pedaço de pão com mortadela, porque a fome era maior que o bom senso nutricional. Enquanto mastigava, ela olhou para o Washington, que já parecia totalmente desperto, com aquela energia de quem tinha dormido dez horas num colchão de mola, e não três horas no cimento. — Qual é o plano agora, "mestre cuca"? A gente não vai ficar aqui comendo embutido o dia todo, vai? — De jeito nenhum. O plano é o seguinte: o Doutor tem um cassino clandestino que funciona nos fundos de uma oficina de luxo nos Jardins. É lá que o dinheiro grosso roda e onde ele gosta de se gabar das conquistas dele. Se a gente quer pegar o acesso que ele tirou de você ou descobrir o que ele realmente quer, é lá que a gente vai entrar. — Nos Jardins? — Ayumi olhou para as próprias roupas, sujas de graxa, poeira e resto de temaki. — Washington, olha pra mim. Eu pareço alguém que frequenta cassino de luxo? Eu pareço alguém que foi despejada de um lixão. Washington deu um sorrisinho vitorioso e apontou para umas sacolas de loja de departamento que estavam escondidas atrás de uma pilha de cabos. — Eu dei um pulo na rua enquanto você babava aí no chão. Usei um pouco daquele "fundo de reserva" que eu guardo pra emergências. Tem roupa aí pra nós dois. Não é uma Gucci, mas passa por coisa fina se a gente souber fingir. Ayumi pegou uma das sacolas e tirou um vestido preto justo, simples, mas elegante, e um par de saltos que pareciam instrumentos de tortura. — Washington... onde você conseguiu isso? E como você sabia o meu número? — Ah, eu tenho olho clínico pra essas coisas. E não pergunta muito não, o "vendedor" era um cara que faz entrega de carga extraviada, então tá tudo no esquema. Agora vai ali pro canto, dá um trato nesse rosto e se transforma na hacker bilionária que você é. Eu vou fazer o mesmo. Meia hora depois, a transformação estava completa. Ayumi tinha usado a câmera do celular desligado como espelho, limpado o rosto com lenços umedecidos e prendido o cabelo num coque alto e firme, que dava a ela um ar de autoridade e mistério. O vestido preto caía bem, escondendo os arranhões nos braços. Quando ela saiu de trás do transformador, deu de cara com o Washington. Ele tinha trocado a jaqueta de couro por um blazer azul marinho levemente apertado nos ombros, uma camisa branca aberta e o cabelo penteado pra trás com tanto gel que brilhava mais que a careca do Zeca Urubu. — E aí? Ficou muito ruim ou eu tô parecendo o próximo 007 da quebrada? — Ele perguntou, tentando ajeitar o punho da camisa. Ayumi ficou em silêncio por dois segundos, piscando. — Olha... se você ficar de boca fechada e não falar nenhuma gíria, até que dá pra enganar. Mas assim que você abrir a boca e soltar um "pô, meu chapa", a segurança bota a gente pra fora a pontapés. — Magoou, japa! Eu sei ser fino quando eu quero. Sou um homem de mil faces. — Sei. Só tenta não usar nenhuma dessas faces pra flertar com a garçonete enquanto eu tento invadir o servidor local deles, beleza? — Pode deixar, patroa. O foco é total na missão. Eles saíram do galpão e, em vez da XT barulhenta, Washington tinha arrumado um carro alugado — um sedan prata comum, daqueles que não chamam atenção de ninguém. — Onde tá a moto? — ela perguntou. — Escondida sob a lona. Pra onde a gente vai, o "estilo" pede quatro rodas e ar-condicionado. A viagem até os Jardins foi tensa. Conforme o cenário mudava das ruas esburacadas da periferia para as avenidas arborizadas e cheias de prédios espelhados, Ayumi sentia o estômago dar voltas. Ela revisava o plano mentalmente: Washington serviria de distração, jogando algumas mãos de pôquer e fazendo o tipo "empresário do agronegócio" (o que combinava com o sotaque dele, segundo ele mesmo), enquanto ela usaria um dispositivo de interceptação Wi-Fi para clonar as credenciais do gerente da casa. — Chegamos. — Washington disse, estacionando a uma quadra da oficina "Mecânica Gold". O lugar era impecável. Carros que custavam mais que um bairro inteiro entravam e saiam. Na porta, dois brutamontes de terno cinza conferiam os nomes num tablet. — Pronto pra isso? — Washington perguntou, olhando para ela. — Não. Mas eu realmente quero o meu celular de volta e quero ver esse "Doutor" cair do cavalo. — Então bora. Lembra: você é a minha consultora financeira e eu sou o cara que tem mais dinheiro que juízo. Eles saíram do carro. Washington ofereceu o braço para Ayumi, que hesitou, mas aceitou, sentindo o tecido do blazer dele. Eles caminharam até a entrada com uma confiança que nenhum dos dois sentia de verdade. — Boa noite, cavalheiros. — Washington disse, a voz subindo um tom na formalidade, mas mantendo aquele brilho debochado. — Washington Albuquerque e minha associada, Dra. Ayumi. Estamos na lista do Dr. Ricardo. O segurança olhou o tablet, olhou para os dois — parando um pouco mais de tempo na Ayumi — e deu um aceno seco. — Podem entrar. O bar está à direita e as mesas aos fundos. Aproveitem a noite. Assim que passaram pela porta e entraram no ambiente refrigerado, com cheiro de charuto caro e som de jazz ambiente, Ayumi sussurrou no ouvido dele: — "Washington Albuquerque"? Sério? — Achei que dava um ar de quem tem fazenda de gado. Agora para de reclamar e começa a trabalhar no seu aparelhinho, que eu vou ver se esse uísque deles é de verdade. A caçada estava dentro da toca do lobo. E agora, qualquer erro não resultaria apenas em cordas e galpões velhos, mas em algo muito mais definitivo. *Eles estão dentro. Ayumi precisa achar um lugar estratégico para abrir o notebook ou usar o celular sem ser notada, enquanto Washington começa a ganhar (ou perder) dinheiro na mesa de pôquer para atrair a atenção do gerente. É aí que ela descobre que o sequestro não foi só pelos acessos, mas por algo escondido no código dela que nem ela sabia que existia.*
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