Capítulo 7: O Barulho do Motor e o Silêncio do Bairro
A manhã na lanchonete tava sendo um caos total. O Seu Jorge cismou que o estoque de maionese caseira tava baixo e ficou reclamando no meu ouvido desde as sete. Eu tava lá, batendo o balcão com o pano, mas minha mente tava no áudio que o Lucas mandou de madrugada. Ele disse que vinha, e eu tava sentindo uma mistura de ansiedade com um medo bobo de o Pedro aparecer de novo pra estragar o clima. — Lia, limpa a mesa cinco logo que o pessoal do escritório ja vai descer pro almoço — o Seu Jorge gritou da cozinha. — Ja to indo, Seu Jorge! Calma que eu so tenho duas mãos — respondi, guardando o celular no bolso do avental rapidinho. A Tati chegou perto de mim com uma cara de quem tinha visto um fantasma. Ou uma fofoca das grandes. — Amiga, vc não viu quem ta ali na esquina ne? — ela sussurrou, apontando com o queixo pra janela. Eu olhei e senti meu sangue gelar. O Pedro tava lá, parado na moto dele, mas dessa vez ele tava sozinho. Ele tava olhando fixo pra porta da lanchonete, com uma cara de quem não dormia faz dias. A Vanessa não tava com ele, o que era estranho pq eles tavam igual chiclete nos ultimos dias. — Ele não cansa, Tati? O cara ja me humilhou na frente de todo mundo e agora ta ai fazendo plantão — eu disse, sentindo uma raiva subir. — Acho que o Story com o Lucas bateu forte, Lia. Ele deve ta querendo tirar satisfação. Eu ignorei. Voltei a atender os pedidos, servindo café e misto quente, tentando fingir que a rua tava vazia. Foi quando o barulho de um motor diferente ecoou na rua. Não era o som agudo da moto do Pedro, era algo mais encorpado. O Jeep do Henrique apontou na esquina. Meu coração errou as batida. O Lucas tava no volante, de óculos escuros e uma camiseta preta básica que destacava bem o braço dele. Ele estacionou bem na frente, e eu vi pelo reflexo do vidro que o Pedro fechou a cara na hora. O Lucas desceu do carro com aquela calma de quem é dono da situação. Ele entrou na lanchonete e o sininho da porta pareceu tocar mais alto que o normal. O cheiro de perfume caro dele misturou com o cheiro de fritura do lugar, e por um segundo, pareceu que o mundo parou. — Eai — ele disse, chegando no balcão e dando aquele sorriso de lado que acaba comigo. — Oi... voce veio mesmo — eu respondi, sentindo minha mão tremer enquanto eu entregava um cardápio pra ele, mesmo sabendo que ele nao ia pedir nada. — Falei que vinha. Não gosto de deixar as coisas pela metade — ele tirou os óculos e me olhou nos olhos. — Voce ta bem? Ta com uma cara de quem não dormiu. — Ah, muita coisa na cabeça, sabe como é. Minha mãe te contou né? Sobre a nossa conversa? — Contou sim. Ela ligou pro meu pai e o velho ficou todo feliz. Parece que a gente tem o apoio do alto escalão agora — ele deu uma risadinha e pegou na minha mão por cima do balcão, sem se importar com quem tava olhando. Nesse momento, eu vi o Pedro descendo da moto e vindo em direção a porta. A Tati arregalou os olhos e se encolheu atras da maquina de café. — Lia, a gente precisa conversar — o Pedro disse, entrando na lanchonete sem nem olhar pro Lucas. A voz dele tava embargada, meio estranha. O Lucas não soltou minha mão. Ele só virou o rosto devagar pra olhar pro Pedro. O clima ficou tao pesado que dava pra cortar com uma faca. — Ela ta trabalhando, cara. Não ta vendo? — o Lucas disse, com uma voz calma mas que impunha um respeito que eu nunca vi em ninguem da minha idade. — Eu não falei com voce, "boy" de condomínio. Eu quero falar com a Lia — o Pedro deu um passo a frente, ignorando o Lucas. — Lia, aquilo com a Vanessa... foi bobeira. Eu tava com raiva, voce postou aquela foto com esse cara e eu surtei. Mas a gente se conhece desde criança, voce sabe que eu gosto de voce. Eu olhei pro Pedro e, por incrivel que pareça, eu não senti raiva. Senti pena. Pena pq ele achava que um beijo na Vanessa ia me trazer de volta por ciume, quando na verdade so me deu a certeza de que a gente não tinha nada a ver. — Pedro, acabou — eu disse, tentando manter a voz firme, bem feminina mas decidida. — Não foi so a Vanessa. A gente ja tava em caminhos diferentes. Voce tentou me machucar e agora vem aqui pedir desculpa? Não funciona assim. — É por causa dele né? — ele apontou pro Lucas. — Voce mal conhece esse cara. O que ele tem que eu não tenho? Um carro caro? O Lucas levantou da banqueta bem devagar. Ele era mais alto que o Pedro e parecia muito mais homem ali, naquela postura. — O que ela tem comigo é assunto nosso, amigão — o Lucas disse, ficando frente a frente com ele. — Mas uma coisa eu te garanto: eu não preciso usar ninguem pra fazer pirraça pra ela. Agora, faz um favor pra voce mesmo e sai daqui antes que o dono da lanchonete te expulse. O Pedro olhou pra mim uma ultima vez, esperando que eu dissesse algo pra defender ele, mas eu so continuei segurando a mão do Lucas. Ele girou nos calcanhares e saiu batendo a porta. A gente viu ele subir na moto e sair fritando pneu pela avenida. Um silencio se instalou. O Seu Jorge saiu da cozinha com uma espátula na mão. — Que que foi esse show ai fora? Lia, se esse moleque voltar aqui pra causar problema eu vou ter que te dispensar mais cedo — ele reclamou, mas dava pra ver que ele so tava preocupado. — Deixa baixo, Seu Jorge. Ja resolveu — eu disse, respirando fundo. O Lucas me olhou com um jeito preocupado. — Foi mal pelo climão. Eu não queria que voce passasse por isso no seu trampo. — Tudo bem, Lucas. Ja tava engasgado esse assunto — eu respondi, sentindo um alivio gigante. — Mas e agora? Voce veio ate aqui so pra me salvar do ex maluco? — Na real? Eu vim te convidar pra jantar na minha casa hoje. Meu pai quer comemorar o "noivado" dele com a sua mãe, e ele disse que nao aceita um não como resposta. E depois... eu queria te levar num lugar que eu gosto de fotografar a noite. Topa? — Jantar de novo? — eu ri. — Minha mãe vai surtar de alegria. Eu topo. Mas com uma condição. — Qual? — Que a gente não fale de Pedro nem de Vanessa a noite toda. — Fechado — ele selou o acordo dando um beijo na minha testa, na frente de todo mundo, inclusive da Tati que ja tava digitando a fofoca pro bairro inteiro. Eu voltei a trabalhar com um sorriso no rosto que nem as reclamações do Seu Jorge conseguiam tirar. A Zona Norte parecia mais brilhante hoje, e eu tava começando a achar que as sombras que nos uniram tavam finalmente dando lugar a algo muito mais solar. Mas no fundo, eu sabia que a Vanessa não ia aceitar ter sido "descartada" pelo Pedro e ver a gente feliz desse jeito. Aquela guria era venenosa, e o veneno dela ainda ia respingar na gente.
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Bình Luận Sách (58)
Gabrieli Lopes
O livro é uma mistura de sentimentos e desejos com um toque de dúvidas e medo
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