Depois daquela noite na galeria a minha cabeça virou um liquidificador ligado no modo turbo. Eu postei a foto com o Lucas e, cara, o Pedro surtou... ele começou a postar umas indireta com música de corno no Story, mas eu só dei "mute" e segui minha vida. O problema real não era o ex imaturo, era o que tava rolando dentro da minha própria casa. Eu tava na cozinha, tentando focar em lavar a louça mas eu tava quase quebrando os pratos de tanto pensar. Minha mãe tava sentada na mesa corrigindo umas provas dos alunos dela, mas ela me olhava de canto de olho... ela me conhece, sabe quando eu to com a "nuvenzinha preta" na cabeça. — Lia, desembucha logo — ela disse, largando a caneta vermelha. — Voce ta ai esfregando esse mesmo copo faz dez minutos. O que ta pegando? Eu parei, respirei fundo e senti meus olhos arderem. Sabe quando vc guarda muita coisa e parece que vai explodir? — Mãe... a gente precisa conversar serio — eu disse, sentando na frente dela, ainda com a mão meio úmida do detergente. — É sobre o Lucas. A Luiza deu um sorrisinho, achando que eu ia falar que ele era fofo ou algo assim, mas minha cara tava pessima. — Eu acho que eu to sentindo alguma coisa por ele, mãe. De verdade. Não é mais so pra irritar o Pedro ou pq ele é bonito. Ele me entende, sabe? O papo flui... mas eu to com muito medo. — Medo de que, minha filha? Ele é um rapaz otimo, o Henrique so fala bem dele... — Medo de estragar a SUA felicidade! — eu interrompi, e uma lagrima teimosa desceu. — Mãe, voce ta tao feliz com o Henrique. Faz anos que eu nao te vejo sorrindo pro celular desse jeito. O Henrique é o pai dele... e se eu e o Lucas dermos errado? Se a gente brigar ou se envolver demais e isso virar um climão entre voces? Eu nao quero ser o motivo de voce perder o Henrique. Eu peguei na mão dela, sentindo ela meio gelada. — Se for necessario... se voce achar que vai atrapalhar voces, eu me afasto do Lucas agora mesmo. Eu juro. Eu dou um jeito no meu coração, volto a falar com o Pedro ou fico sozinha, mas eu quero que voce seja feliz primeiro. Voce ja sofreu demais desde que o pai morreu, e eu nao vou ser o empecilho da sua vida. O silencio que ficou na cozinha foi de matar. Dava pra ouvir o barulho da geladeira velha e os carros passando la fora na rua. Minha mãe ficou me olhando por um tempo, com uma cara que eu nao conseguia decifrar. Eu ja tava esperando ela falar "é verdade filha, melhor a gente manter a amizade", sabe? Mas aí ela apertou minha mão com força e deu um sorriso tão doce que meu coração deu um solavanco. — Lia, olha pra mim — ela disse, limpando meu rosto com o polegar. — Voce realmente acha que eu seria feliz vendo voce sacrificar o que sente por minha causa? Eu sou sua mãe, nao sua dona. — Mas mãe, o Henrique... — O Henrique me ama, e ele ama o Lucas. E se voces dois estao se gostando, isso so deixa as coisas mais completas, voce nao entende? Nao existe essa de "eu primeiro". Eu ja vivi muito, ja tive meu grande amor com seu pai e agora estou tendo uma segunda chance. Mas voce... voce ta começando agora. Ela deu uma risadinha e continuou: — Voce merece ser feliz tambem, Lia. Voce trabalha, voce me ajuda, voce é uma garota de ouro. Se o Lucas te faz bem, eu sou a primeira a apoiar. E se um dia voces terminarem e ficar climão, a gente resolve como adulta. Mas nao ouse se afastar dele por medo de me atrapalhar. A gente vai viver essa bagunça juntas, entendeu? Eu dei um soluço e abracei ela por cima da mesa mesmo. Que alivio, amiga! Parece que saiu um camiao de cima de mim. A gente ficou ali um tempo abraçadas, entre os papeis de prova e o cheiro de café. — Mas ó — ela disse, se separando do abraço e voltando pro tom de professora — Ele tem 20 anos, entao juizo nessa cabeça hein! Nada de pular etapas. — Pode deixar, dona Luiza — eu ri, me sentindo leve como nunca. Mais tarde, eu tava no quarto e o Lucas me mandou uma foto de uma camera nova que ele tava querendo comprar. Eu respondi com um audio: — Lucas, minha mãe ja sabe. E ela deu o sinal verde kkkkk. Nao deu dez segundos e ele ligou. — Serio? Pq o meu pai tambem nao para de perguntar de voce. Ele disse que se a gente namorar, ele vai ser o sogro mais chato do mundo. — Namorar? Quem falou em namorar? — eu brinquei, mas por dentro eu tava gritando. — Ué, eu to falando. Ou voce acha que eu te levei naquela galeria so pra olhar foto? Amanha eu vou ai na lanchonete te ver, e dessa vez nao quero saber de Pedro nem de ninguem. Só eu e voce. Desliguei o celular e me joguei na cama. O Pedro que ficasse la com a Vanessa dele, pq agora o caminho tava livre e eu nao tinha mais do que me esconder. Mas eu mal sabia que a Vanessa nao ia deixar barato... guria invejosa nao dorme em serviço né? Mas isso eu resolvia depois. Por enquanto, eu so queria dormir pensando no sorriso do Lucas.
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Bình Luận Sách (58)
Gabrieli Lopes
O livro é uma mistura de sentimentos e desejos com um toque de dúvidas e medo
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