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CAPÍTULO 02

Toda a gente de Celborbun assistia ao retorno da filha do padeiro e seus dois irmãos. Homens e mulheres, de olhos tristes e músculos cansados, lamentando intimamente pelo destino daquela jovem que havia tentado a sorte em fugir.
Tonlul, que escoltava Eirene para dentro dos muros da cidade enlameada, parou de andar assim que seus olhos encontraram uma pequena figura feminina espremida no meio da multidão curiosa , obrigando a fugitiva a parar também.
— Você deveria escolher melhor as tuas amizades. — disse o ruivo, com escárnio. Então foi até o amontoado de pessoas e puxou para fora uma jovem de cabelos dourados e longos. As mãos da loira, sujas de terra, denunciavam que ela havia acabado de mexer com plantação.
— Amice? Foi...você...? — Eirene inquiriu para a amiga, mesmo que já estivesse certa da resposta. Amice era a única a saber que Eirene tentaria fugir da cidade. Apenas ela sabia.
Com as bochechas um pouco ruborizadas, a loira abaixou a cabeça.
— Você me entregou? Por que fez isso? — a outra insistiu. Não conseguia entender. Quais sentimentos por trás daqueles olhos azuis claros levaram Amice à estragar todo o plano? Sendo que a própria Eirene havia a convidado para fugirem juntas.
Tonlul riu. E disse:
— Amice sabe que não pode servir à dois mestres. Quem não se curva perante o Rei Demônio, não merece a dádiva da vida.
A loira ergueu o olhar. E encarou a amiga. Eirene, ainda tentava entender o porquê. O porquê de tudo aquilo.
— Eu sinto muito, Eirene. Mas, ele tem razão. Não se pode servir à dois mestres. Aceite Ágoston como o mestre destas terras e viva.
Um sorriso seco nasceu nos lábios da fugitiva.
— Nunca. — sussurrou. — Nunca. NUNCA!
Tonlul e os demais soldados trocaram olhares entre si. Uma risada masculina abafada pelo elmo ecoou pelo ambiente, ao mesmo tempo que o soldado ruivo também sorriu. E então, todas as pessoas ao redor lamentaram. O pequeno Klaus lamentou em silêncio. Os pássaros e os céus lamentaram. Pois não havia mais nada a ser feito por ela naquele momento. A não ser lamentar.
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Ainda naquela mesma tardezinha, quando toda a população de Celborbun já estava reunida na praça, Tonlul pediu que as pessoas não comessem muito, pois, a cena que veriam naquele dia, seria de embrulhar o estômago. O que claramente era uma zombaria. Pois, ninguém em Celborbun possuía comida o suficiente para se empanturrar. Um pouco temerosos pelo que iria acontecer, centenas de homens e mulheres aguardavam em silêncio. Bem. No fundo já tinham uma noção, pois, as notícias sobre a jovem Eirene e sua audácia haviam se espalhado como fogo por toda a cidade. Era dia de execução. O estranho, é que não havia o costumeiro palanque instalado na praça. O palanque onde os fugitivos costumavam serem decapitados, queimados, afogados ou apedrejados. Tudo parecia normal por ali. Isto é, se não fosse pela quantidade anormal de pessoas reunidas em um único lugar.
Depois de um longo tempo de espera, e ausência de respostas, eis que surgiu Tonlul montado em seu cavalo marrom, trazendo uma jovem de longos cabelos negros consigo, cujas mãos estavam amarradas. Temendo cair e ser arrastada pelo animal, Eirene fazia o possível para não tropeçar, ao mesmo tempo que andava rapidamente ao lado dele. De longe ela viu seu irmãozinho Klaus na multidão, com os olhos fechados e as mãos unidas à altura do peito enquanto parecia sussurrar em silêncio. Ela havia pedido para que ele ficasse em casa. Cuidando de Liana. Não seria nada bom para o menino presenciar mais uma morte na família. A jovem preferia mil vezes que ele ficasse sabendo por notícias, depois. No entanto, o garotinho estava ali. Orando por ela.
Tonlul parou o cavalo no centro da praça. Os curiosos, chegaram mais perto. Eirene em nenhum momento abaixou a cabeça. Pois no fim, ela não havia feito nada de errado. Suas mãos estavam limpas. Sua consciência também.
— Eis aqui uma traidora entre nós. — o soldado ruivo apontou para ela. — Junto aos irmãos pequenos, esta vadia tentou escapar de Celborbun.
A multidão estava em silêncio.
— Por ter negado Ágoston e seu governo, a lei diz que esta jovem, Eirene, deverá pagar por seu crime de traição!
Eirene permaneceu olhando para a multidão. O coração aflito pelo destino que seus irmãos teriam sozinhos naquele mundo. Sem ela para cuidá-los e protegê-los.
— Mas, hoje, tomamos uma decisão diferente!
Ao lado da jovem, haviam dois soldados que, pela primeira vez, não estavam usando seus elmos. Um deles, possuía cabelos castanhos e curtos, que realçavam seus olhos escuros carregados de uma frieza incômoda. O outro, possuía fios louros e encaracolados, que, por sua vez, destacavam um par de lindos olhos azuis.
— Eirene, por seu comportamento inapropriado, receberá um pequeno castigo! — ninguém entendeu o que o ruivo Tonlul quis dizer com aquelas palavras. Nem mesmo a própria julgada.
Como? Ela não seria executada?
Nenhuma outra palavra foi proferida. Virando-se para a jovem, Tonlul pegou-a pelos cabelos, e, com as próprias mãos, começou a rasgar-lhe as roupas. Empurrada bruscamente contra o chão, ela em prantos tentava esconder os seios expostos. O ruivo terminou de puxar totalmente o vestido dela, deixando-a completamente vulnerável, enquanto algumas pessoas riam e outras tampavam os olhos. O que estava acontecendo? Que tipo de punição era aquela? Se já não bastasse a humilhação, os dois soldados, antes postados ao lado de Eirene, começaram a desferir vários chutes e socos contra a jovem caída. A revolta cresceu entre a plateia. Furiosos, alguns homens berravam. Mas nada podiam fazer. Tonlul riu. O último ato do homem antes de ir embora foi berrar para a multidão:
— Considerem-na uma garota de sorte! Não é todos os dias que sou gentil!
E sumiu. Aos poucos a multidão dispersou-se. Todos passavam por Eirene. Exposta. Ferida. Muitos lamentavam pela situação da jovem e até lhe desejavam melhoras. No entanto, não passava daquilo. E, tal como não havia mais resquícios de sol algum conforme as horas avançaram, também não havia de pessoas nas ruas estreitas de Celborbun. O vento uivava com sofreguidão. Observando bem de perto só havia uma pessoa de pé nas ruas naquele momento. Ou melhor; uma pessoinha. Um garotinho de olhos acastanhados e rosto rechonchudo, que, com os bracinhos magricelos de fora, havia usado o único tecido disponível no momento para cobrir as partes expostas da irmã. Eirene ainda estava parcialmente vulnerável na parte de cima. Mas seus cabelos compridos ajudavam a cobrir um pouco. Tremendo de frio, Klaus observava o rosto inchado dela. O quão ferida estava. Lágrimas desciam de seus olhos. E o pior de tudo; Eirene estava semi-consciente. O que só aumentava mais o seu sofrimento. Podia sentir a brisa gelada batendo em seu corpo. Podia ver Klaus abaixado ao seu lado, olhando para o chão e rangendo os dentes. No entanto não conseguia sentir um pouquinho de força sequer nascendo dentro de si. A força necessária para se levantar e sair daquela situação.
A lua já brilhava em seu ponto mais alto no céu. Quando, entre uma das vielas iluminadas por tochas, surgiu a figura de um alazão negro. Montado nele estava um homem. Klaus chegou mais perto da irmã. Em nenhum momento tirou os olhos do estranho que, com trotadas suaves, passava muito perto deles. O garotinho pensou que aquele seria mais um cidadão prestes à ignorá-los. Era o que todos estavam fazendo.
Até ver o sujeito e seu cavalo pararem um pouco mais à frente.

Bình Luận Sách (2117)

  • avatar
    Robert Dos Santos Silva

    esse livro é muito bom

    03/01

      0
  • avatar
    GuimarãesDaiane

    uma bosta gostei muito

    08/03/2025

      0
  • avatar
    Soares MorenoIsabella

    muito bom

    18/02/2025

      0
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