O lobo permanecia na mesma posição. Se Astrid não estivesse observando os seus pulmões se moverem sob a pelagem cinza e desgrenhada do animal, ela poderia considerá-lo uma escultura extraordinariamente detalhista. A sua pata dianteira esquerda estava inclinada para frente, fazendo com que a terra se aglomerasse em sua fronte, graças à força exercida quando este, certamente, estacou naquele local. Os seus olhos brilhantes estavam totalmente fixos no rosto de Astrid. O rosto, que no momento, sabia ela, deveria possuir uma expressão de terror. Com certeza ele estava pálido, os olhos arregalados e a boca seca. O lobo não encarou Dama nenhuma vez sequer, as suas órbitas claras não desviavam para nenhum outro lugar, se não a jovem que permanecia à sua frente. O animal não poderia atravessar, o máximo que ele conseguiria seria ultrapassar o rio e Astrid sabia que aquilo não seria algo impossível para ele, não com aquelas patas robustas e musculosas, não com aquele imenso corpo acinzentado, os pelos tão escuros e sujos de lama e terra. Espinhos se encontravam em sua face longa e máscula, como se este estivesse lutando ou, imaginou Astrid, se defendendo de algo, ou alguém. De fato a sua respiração aparentava estar descompassada e tão falha que os imensos pulmões do lobo ainda se alargavam constantemente, ele parecia estar tão cansado que Astrid duvidou por um instante se o animal poderia tentar atravessar aquele imenso rio rapidamente para atacar ela e Dama. A princesa acreditou que não, talvez elas pudessem fugir, talvez elas possuíssem esta chance. No entanto, o lobo não parecia machucado, nenhum sangue escorria de nenhuma parte do seu corpo grande e musculoso. Sem pensar, Astrid pisou em um graveto quando ela moveu a perna esquerda para trás. O seu corpo ficou inerte, o fôlego saltou de seus pulmões tão freneticamente que a sua vista se tornou embaçada, fazendo com que a figura do animal se tornasse apenas um borrão. Mas, ele ainda estava lá, não se movera nenhum centímetro, os olhos claros apenas foram de encontro à perna da jovem, como se aquilo fosse um mero espetáculo e ele estivesse apreciando cada passo e mobilidade. Os arbustos e folhas do outro lado do rio farfalharam, Astrid não conseguia escutar nada. No entanto, o lobo se virou apressadamente para trás, como se aquela ventania repentina não fosse apenas aquilo, como se o animal soubesse quem estava por trás daquelas árvores, como se este esperasse por alguém. Astrid nunca viu um lobo se comportar de tal forma, como se ele pudesse controlar as suas próprias emoções, os seus movimentos, o corpo e até mesmo os seus sentidos. As narinas do animal se dilataram conforme este recuava para trás, os seus olhos grandes ainda fixos em algo além da clareira. Ele não se privou de rosnar altamente, o grunhido retumbando ao redor do Reino quando um homem alto e largo surgiu na frente do lobo. Astrid podia jurar que o chão tremeu junto com o seu coração sob o vestido que ela usava. O homem não parecia nada gentil. Muito pelo contrário, ele possuía um olhar rude e cruel em direção ao animal, suas roupas estavam todas desgastadas, como se já tivesse lutando antes que pudesse chegar ali, para encontrar aquele lobo enorme e intimidante. Contudo, o seu semblante permanecia horrendo e se tornou ainda pior quando ele sorriu. A boca se abriu em um sorriso largo, revelando os seus dentes amarelos, quase podres. Sangue seco permanecia em sua pele, em seus braços grossos e em seu pescoço rechonchudo. As roupas tão rasgadas, que uma parte da sua nudez aparecera ali, mas Astrid não deu atenção para aquilo, e sim, para a adaga que o homem desembainhou do cinto mordiscado. Ela não conseguia ver direito, não com a visão mínima, para observar se a lâmina da faca estava afiada, se o tal homem sabia lutar, ou se defender. As narinas do lobo ainda se dilatavam, contudo, ele não recuava mais, o animal estacionou no local, logo, olhando sobre o próprio ombro em direção à Astrid. O seu olhar era penetrante, como se ele estivesse tentando lhe avisar algo, ou lhe dando uma ordem. Os olhos tão profundos que a jovem recuou para trás. Dama a acompanhou. O lobo pareceu gostar disso. Ela estava sendo covarde? Com toda certeza, mas Astrid sabia que não conseguiria enfrentá-los e isso pareceu pesar em sua própria mente. O homem encarou o ponto mínimo, o qual o lobo olhava, ou observava: uma mulher delicada e pequena. Uma égua se encontrava ao seu lado, raspando as patas sobre a terra enlameada enquanto bufava sem parar. A mulher possuía uma expressão de hesitação e confusão, mas o seu corpo estava em posição de defesa, como se ela fosse conseguir se proteger, principalmente com a diversidade de estacas que se encontravam soltas no chão. Tão tola. O velho homem riu com escárnio e o lobo rugiu antes que pudesse atacá-lo. A pequena adaga do velho se inclinou para a direita, a fim de golpear o pescoço do animal, mas ele desviou como se soubesse qual golpe aquele homem usaria e trabalharia naquele momento. Os dentes afiados do animal rangeram enquanto este rasgava o braço do sujeito com as suas garras, essas tão grandes que Astrid conseguia observá-las com atenção de longe. O homem gemeu, contudo, ele aproveitou a inclinação do seu braço para pegar uma segunda adaga, que se encontrava em sua bota imunda, esta sendo menor do que a anterior. O lobo urrou quando a lâmina encontrou a lateral do seu estômago, sangue se espalhou diante das suas patas, mas Astrid soube que o corte foi superficial, porque segundos depois o animal estava atacando o velho com toda a sua força. O lobo parecia sentir tanta raiva que apenas ver aquele homem sofrendo poderia amenizá-la. O lobo golpeou aquele velho sujeito com força, e o derrubou, as duas adagas caindo de suas mãos e rolando para os lados. Os olhos arregalados do homem disseram o suficiente sobre o seu mais recente medo. Astrid observou ele recuar em direção a uma das adagas, a maior delas, porém, parou brutalmente ao sentir os dentes do lobo em sua perna esquerda. O grito soou tão alto que Astrid perdeu o equilíbrio. Dama foi para o lado da dona e relinchou baixinho ao presenciar aquela cena. O animal encarou Astrid sob os cílios e rugiu furiosamente, não para atacá-la, ela percebeu. Para que ela fugisse, como se ele entendesse o que aquilo estava proporcionando à sua mente, ao seu corpo. No entanto, Astrid não conseguia, ela não conseguia se mover, não sabia o que fazer. A princesa não sentia as suas pernas para que fosse capaz de subir em Dama e levá-las para longe daquele local. Ele rugiu novamente, ele rugiu enquanto os seus dentes se apertavam cada vez mais naquela perna ensanguentada, o osso agora aparecendo através dos olhos de Astrid. Ele urrava sem parar, pois ela estava sendo estúpida por ainda estar lá, por ainda não ter fugido, por estar aguentando observar todo aquele terror. A grama estava vermelha, grande parte dela suja de sangue, o sangue do homem e o sangue do lobo, os dois se difundindo entre si. Se aquele homem não morresse com aquela mordida infernal, ele morreria logo com uma infecção. Rapidamente, dolorosamente, impiedosamente. O lobo ainda rugia. — Astrid — alguém gritou muito distante. Os ouvidos da jovem zuniam em seu próprio cérebro, o som tão irritante, mas tão sereno. — Astrid — gritou novamente, uma voz fina e elegante, nenhum passo, apenas uma voz. A voz de alguém, a qual ela não reconheceu. Uma mulher, alguém a encontrou. Ela, quem quer que fosse, ouvira os gritos e veio à sua procura. Ela veio. — ASTRID — novamente. Dessa vez mais alta, como se ela estivesse ao seu lado, no entanto, não estava. A voz celestial estava longe e Astrid precisava correr. Corra! Uma última olhada para o lobo e ela viu os seus olhos escuros e controlados, estes concentrados nela. Ele queria que ela corresse, ela tinha que correr, alguém estava ali e estava a sua procura. A princesa agarrou as rédeas de Dama e subiu nesta, após escorregar e arrastar fortemente o seu tornozelo sobre uma rocha alta e musgosa. Um gemido soou da sua garganta, suas pernas estavam dormentes, doloridas, mas ela subiu. A princesa não estava machucada, não como aquele homem estava. Astrid não sabia se seria capaz de se lembrar daquela cena novamente. Dama virou rapidamente, ela não precisou de nenhum comando, nada. Apenas o receio fez com que a égua disparasse dali. Deixando as flechas para trás junto com aquele lobo, Astrid saiu daquele local sombreado, indo em direção ao lado oposto do rio. E com um último grito de terror daquele velho homem, ela soltou a respiração.Dama ainda corria freneticamente, as suas patas mais velozes do que nunca, como Astrid nunca vira anteriormente. Ela parecia voar e planar sob o céu quando chegaram à área vasta e plana do Reino Florestal, os Beltranos pareciam atordoados, os ouvidos de Astrid ainda zuniam com o desespero, mas o grito da mulher cessou. Apenas o berro de dor e medo daquele homem permanecia em seu cérebro, como se este ainda estivesse ali. Como se ele tivesse a seguido para implorar por ajuda. — ASTRID — novamente o seu nome foi chamado, dessa vez mais perto do que antes. Contudo, não era uma voz feminina que a chamava, muito menos um corpo curvilíneo que a segurou pelos braços. Havia mais músculos ali, circundando toda a extensão de seus membros superiores. "Onde é que você estava?" — Apolo, era Apolo quem a segurava e estava à procura de respostas, é óbvio que ele ouviu os gritos. Ele era um Combatente, a sua audição era aguçada, assim como a do restante deles. — Escutamos barulhos, berros e não sabíamos onde você estava. Não sentimos o seu cheiro. Íamos lhe procurar. — Ele passou os dedos sobre os cabelos, agora dourados pela luz solar. — Estou bem. — ela disse, os olhos se desviando para os Beltranos que ainda escutavam a sua conversa com o guarda. Todos viraram as cabeças rapidamente e se concentraram em suas tarefas, mas Astrid podia jurar que os seus olhos vazios estavam repletos e banhados com preocupação. — Quem era a mulher que estava me chamando? — Que mulher? Não havia ninguém a chamando além de mim. — ele respondeu, os olhos ainda atentos no corpo esguio de Astrid. — Uma mulher... — Você bateu a sua cabeça? — Apolo questionou, os seus dedos ameaçaram se esticar até a ponta do crânio da princesa, no entanto, esta recuou prontamente. — Esquece. — Ela pensaria naquilo, naquela voz, mais tarde. Mais tarde. Apolo suspirou profundamente e passou os dedos grandes por suas têmporas, logo as massageando. O corpo parecia inerte, mas o seu peito se movia de cima a baixo enquanto a mão esquerda permanecia sob o bolso do uniforme. Os seus olhos castanhos se voltaram para a princesa, porém, logo se desviaram em direção à Dama, os lábios formando uma linha fina repentinamente. — O que houve com ela? — ele questionou com a voz firme e audível. Astrid sentiu o seu estômago se revirar, juntamente com a comida que ela tinha saboreado pela manhã. Se Dama estivesse machucada... — Por que está tão assustada? Astrid olhou de relance para Dama, examinando rapidamente todo o corpo da égua, nenhum sangue percorria por aquele pelo liso e negro. Graças às Rainhas. Astrid suspirou com o súbito alívio que percorreu por sua espinha. Apenas o rosto de Dama permanecia repleto com receio e desespero, mas, exceto isso, tudo parecia bem. Ela estava bem e era isso o que importava naquele momento. — Ela vai ficar bem. — A voz de Astrid não passava de um sussurro, a sua garganta aparentava estar fria e os seus ouvidos pareciam que iriam explodir a qualquer momento. — Tenho que levá-la de volta aos estábulos. — Irei chamar alguém para levá-la... — Não. — Astrid falou com a voz falha, mas ela soube que foi firme o suficiente para que Apolo recuasse e parasse de falar. A princesa ergueu a coluna, os cabelos castanhos voando ao redor de suas costas, enquanto esta se punha de pé e saltava da sela de Dama. Um gemido, acompanhado de um grito, soou através da sua garganta. Uma pontada de dor pousou em seu tornozelo direito, sangue pingava sobre o vestido cobalto, o manchando, fazendo com que uma cor escura se instalasse em sua ponta. O sangue quase seco, como ela não havia reparado? — Como isso aconteceu? — Apolo arfou, os ombros largos se curvaram minimamente e os seus olhos se contraíram com o cheiro acobreado do sangue, supunha Astrid. — Me cortei, eu acho. — Ela não havia sentido a dor um tanto agonizante no momento, mas a princesa recordava da rocha que deslizou sobre a parte inferior do seu tornozelo. — Você estava no local em que houve os gritos, não estava? — O rosto de Apolo não passava de uma máscara severa e aflita, os lábios ainda contraídos, a testa franzida e os olhos tão desconfiados que Astrid duvidou por um momento da sua própria capacidade de mentir bem. De mentir para ele. — Apenas escutei uns rugidos. — ela mentiu enquanto encarava os seus olhos. A princesa tentou focar em sua dor e não no olhar avaliador de Apolo e em seu rosto neutro. — Dama se assustou, logo eu me assustei. Com certeza, ralei o meu tornozelo em algo e viemos direto para cá. Ele parecia considerar as suas palavras. Astrid não fazia ideia se parecera convincente. Contudo, Apolo examinava o seu rosto atentamente e, certamente, as contrações que este realizava não eram para enganá-lo. O seu pé começou a latejar, mas ela não queria parar de encarar os olhos de Apolo. Ele precisava acreditar em suas mentiras. O rosto largo e pálido daquele homem retornou para a sua mente. O lobo mordendo fortemente a sua perna para que nada ali sobrasse, para que ele sentisse toda àquela dor. Astrid não fazia ideia se ele merecia todo aquele sofrimento. Ela tentou não demonstrar nenhuma expressão em sua face, quando se lembrou do olhar atento e controlado do lobo em sua direção. De como ele parecia querer que ela fugisse, de como ele rugiu e esperou até que ela estivesse longe o suficiente para que ele desse o seu ataque final. Apolo se ofereceu para ajudar Astrid durante o caminho que percorreram para chegar à curandeira. Ela se recusou, assim como recusou a oferta de subir novamente em Dama. A égua já estava cansada e exausta demais, ela precisava se alimentar e descansar o suficiente para que todo aquele terror se dissipasse da sua mente. — Não sabia que as curandeiras estavam na torre mais distante do palácio — Astrid murmurou para Apolo, a fim de amenizar a dor em seu pé e evitar a mancada constante que ela realizava no momento. De fato, eles estavam andando por minutos e, graças ao orgulho de Astrid, o seu pé piorava cada vez mais, já que esta não aceitara o auxílio de Apolo. Cada passo que a princesa dava, um nó se formava em seu estômago, os dedos dos pés se curvavam dentro da bota e um enjoo se instalava em sua garganta. Apolo pareceu perceber, mas não comentou nada. Era melhor assim, Astrid não aguentaria conversar sobre a própria dor no momento. — Não estão... — os seus olhos cor de mel estavam direcionados para além do horizonte, onde mais cedo, os gritos ecoaram por volta de todo o Reino. — Não permanentemente. Elas estão aqui hoje para curar os escravos, mas só algumas delas. Os escravos andavam de um lado para o outro sem parar. Astrid captava os seus olhares curiosos em seu tornozelo e no sangue que escorria por ele. Contudo, as cabeças eram abaixadas rapidamente, como se ela fosse odiar aqueles olhares e lhes punir, mais do que já eram punidos. O coração de Astrid parou por um momento, ela respirou profundamente e continuou ao encalço de Apolo. — Era para você estar na minha frente enquanto eu lhe sigo. — Apolo fez menção de parar, no entanto, Astrid o impediu com um aceno de negação. — Não se preocupe com isso, mal estou conseguindo me mover, não me espere. — Mesmo assim ele a esperou. Apolo estacionou no meio de uma área revestida de árvores e flores brancas e amarelas, os olhos do Combatente percorrendo os membros inferiores de Astrid. — Não vai infeccionar, a magia das curandeiras é forte o suficiente para consertar isso. — Ele apontou para o seu tornozelo descoberto. Ela não estava preocupada com aquilo. Astrid deu de ombros e seguiu em frente enquanto mancava pelas rochas e arbustos, os espinhos incomodando a parte inferior da sua panturrilha. Eles chegaram a uma alta torre, a Torre da Restauração, a qual diversas curandeiras trabalhavam constantemente. Havia duas dessa torre no Reino Florestal, uma ao Norte e outra ao Sul. De acordo com Apolo, hoje as melhores curandeiras estavam ali, na torre do Norte, realizando os seus trabalhos nos escravos e em alguns Beltranos, que acabavam se machucando com algumas de suas tarefas. As muitas mulheres que ali se encontravam lançaram reverências longas e cumprimentos para Astrid. Ela preferia que não as fizessem, no entanto, a princesa não estava em condições de dar ordens no momento. Apolo a seguia para o fim do corredor. Eles passaram por diversos negros feridos, alguns chiavam, outros pareciam não sentir as mãos das curandeiras em seus corpos esqueléticos e desnutridos. Outros agradeciam gentilmente às trabalhadoras, que pareciam cuidar muito bem de todos. Astrid seguia Apolo. Ele a ajudou a subir alguns degraus da escada bem revestida, os corrimãos tão limpos que Astrid parecia suja demais para estar naquele local. E de fato, ela estava. Contudo, não era a única. O guarda deu algumas batidas suaves na porta grande e rústica. A madeira era revestida por luas. Luas de todas as fases. Pequenas estrelas circundavam esses satélites prateados, estrelas azuis, amarelas, vermelhas e ametistas. Todas formando um imenso e único cérebro humano, como se aquele órgão fosse o responsável por imaginar coisas tão deslumbrantes e incríveis. Ele realmente era. Uma pintura admirável e exótica. Uma voz doce e calma soou do outro lado do cômodo. Uma mulher de cabelos acobreados apareceu atrás de uma das estantes cobertas de livros. A sala era imensa, tão rústica quanto o restante da torre, mas confortável o suficiente para que qualquer um se sentisse confortável ali dentro. Uma brisa quente e suave beijou o rosto fino de Astrid, as persianas beges das janelas balançavam sob o vento, fazendo com que alguns papéis na escrivaninha sobrevoassem. A pequena mulher se aproximou ligeiramente de Astrid e de Apolo, os seus olhos quentes e grandes percorreram a linha de sangue que se formava abaixo do vestido da princesa. Antes que Astrid pudesse abrir a boca para comentar sobre a mesma história que contara ao Apolo, a curandeira lhe concedeu uma reverência majestosa e elegante. — Vossa Alteza — ela disse, o rosto tão jovem, quanto o seu próprio corpo. Ela poderia ter a idade de Astrid, alguns anos a mais, talvez. Astrid abanou a sua mão, soltando um suspiro profundo de seus pulmões. — Por favor, não se incomode. Preciso apenas... — ela procurou as palavras corretas para a sua situação, para o tornozelo machucado, para o que ela passou e vivenciou há momentos atrás. A curandeira apenas sorriu com compreensão e inclinou a cabeça em direção à uma maca cinza, que permanecia no canto da sala. Astrid sentou-se, encostando as suas costas na parede fria, porém, confortável. — Pode colocar um travesseiro, Alteza, se sentir vontade — a curandeira disse. Os lábios se moveram lentamente em um sorriso gentil, tão gentil quanto os seus olhos azuis claros, como o próprio Rio Clypeus. Aquele Rio. — Estou bem, obrigada — o olhar de Astrid e de Apolo se cruzaram, palavras não pronunciadas percorreram por aquele olhar malicioso e divertido. Quem diria que você sabe ser educada. — Apolo parecia dizer. Astrid apenas revirou os olhos e bufou baixinho. — Vamos ver — a curandeira ficou de frente para Astrid, esta curvando a sua perna lentamente para não a machucar. A mulher levantou uma pequena parte do seu vestido, apenas o necessário para conseguir discernir quão profundo, ou superficial fora o machucado e se uma possível infecção poderia estar surgindo ali. Apolo se contorceu em seu lugar. Ele estava encostado em uma parede, os olhos se alternando entre o machucado no tornozelo de Astrid e no próprio cômodo. — Algum problema, soldado? — Astrid o provocou — Não consegue ver um pouco de sangue? Ele riu, uma risada irônica e divertida — Eu sou um soldado, Alteza, sangue para mim não é nenhuma novidade. — O Combatente sorriu, os braços se cruzando levemente abaixo do seu peito. Astrid podia jurar que uma risada saltou da curandeira, ela não sabia dizer, não com a dor que irrompeu sobre si quando a mulher ruiva tocou em seu pé. — Parece bom. — ela disse e Astrid arqueou uma de suas sobrancelhas. A curandeira sorriu — Nenhuma infecção, o corte fora superficial. Amanhã mesmo você estará confortável novamente, mas isso não significa que não deva permanecer em repouso. — Se ela soubesse o significado dessa palavra, isso não teria acontecido. — Apolo murmurou e Astrid lançoulhe um gesto vulgar. — Não seja mal educada, Alteza. — Isso é uma ordem? — Astrid retrucou. Apolo apenas gargalhou e negou com a cabeça, os cabelos loiros se movimentando de um lado para o outro. A curandeira sorria com o pequeno diálogo que Astrid e Apolo mantiveram dentro daquele cômodo. A princesa perguntou a si mesma se a mulher recebia muitas visitas, ou se aquela sala era exclusiva para os familiares e aliados do rei. Astrid não perguntou, ela não queria saber a resposta. A curandeira lhe trouxe um tônico de gengibre, logo utilizando um pouco da sua magia no tornozelo de Astrid para que o ferimento se tornasse apenas uma cicatriz, não totalmente cicatrizado, porém, melhorou bastante. Uma pomada de hortelã fora dada para a princesa e a mulher ordenou que esta usasse todos os dias, até que o ferimento cessasse por completo. — Não esqueça, não infeccionou, mas isso ainda pode acontecer — alertou a curandeira enquanto limpava as suas próprias mãos e as enxugava em um pano limpo. — Obrigada... — Astrid franziu a testa e contraiu os lábios. — Bennett — ela falou, as bochechas corando levemente. Alguém da realeza já havia questionado o seu nome? — Léia Bennett. Astrid assentiu e sorriu para a mulher ruiva. — Obrigada, Léia. — A sua única resposta foi uma reverência. A curandeira não havia questionado sobre o ocorrido, sobre o que realmente aconteceu para que a princesa da realeza aparecesse naquela torre, machucada, com sangue espirrando do seu tornozelo. E por esse motivo, Astrid retribuiu o sorriso e aceitou a sua saudação formal de bom grado.
Salamat
Suportahan ang may-akda na magdala sa iyo ng mga magagandang kwento
ótimo
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