Homepage/Entre sombras e sangue: O pacto de Blackwood/
Café, olhares e um Mustang barulhento
A Selena tava ali, tentando processar o fato de que o cara que acabou de sair do carro parecia ter saído direto de um editorial de moda daquelas revistas caras de Londres, mas com um toque de "eu vou destruir sua vida e você vai agradecer por isso" sabe? Ela sentiu aquele frio na barriga clássico, mas logo tratou de ignorar porque, poxa, ela era uma Moreau e não ia ficar babando por um playboy novo na cidade que provavelmente nem sabia onde ficava a biblioteca — Amiga, para de babar, tá ficando feio já — Selena sussurrou pra Adeline, que tava literalmente com a boca meio aberta. — Eu não tô babando, Sel, eu tô apreciando a estética, é diferente — a Adeline respondeu, ajeitando o cabelo rosa — e olha só, ele tá vindo pra cá mesmo, será que ele quer um café ou será que ele quer saber quem é a gata de cabelo bagunçado sentada na janela? — Cala a boca, Addy, sério — Selena sentiu o rosto esquentar e deu um gole no seu latte que tava até quente demais, queimando a pontinha da língua — ai, droga, que ódio. O sino da porta do Mocha & Magic tocou e parece que o som ficou ecoando por uns dez minutos na cabeça da Selena porque o ar no lugar mudou totalmente, ficou mais denso, sabe? O Ethan entrou e ele não tava sozinho, o Caleb tava logo atrás dele, rindo de alguma coisa e falando super alto como se fosse o dono do lugar. O Ethan tava com aquela cara de quem queria estar em qualquer lugar, menos ali, e quando ele tirou os óculos escuros, a Selena viu que os olhos dele eram de um azul tão profundo que chegava a ser meio irreal, parecia o fundo do oceano em dia de tempestade. — Caraca, Ethan, esse lugar tem cheiro de... flores e baunilha, eu vou morrer sufocado aqui dentro — o Caleb falou, rindo e dando um tapa no ombro do amigo — vamos logo pegar o que o seu pai pediu e cair fora. — Relaxa, Caleb, é só um café — o Ethan respondeu e a voz dele... caramba, era um negócio rouco que fazia a Selena querer ouvir ele lendo até a lista de ingredientes do Toddynho — pede o meu logo que eu vou esperar ali. O "ali" que ele escolheu foi exatamente a mesa ao lado da delas, e a Selena sentiu que ia ter um troço porque ele simplesmente sentou e jogou as chaves do Mustang em cima da mesa de madeira com um barulho metálico que fez ela pular de leve na cadeira. Ele olhou pra ela de soslaio, aquele olhar de quem sabe que tá sendo observado e gosta do poder que tem, e deu um sorrisinho de lado que era puro deboche. — Perdeu alguma coisa aqui, morena? — ele perguntou, direto, sem nem dar bom dia nem nada. A Selena, que não era de ficar calada, sentiu o sangue subir pra cabeça na hora. — No seu rosto? Só um pouco de arrogância, mas acho que já veio de fábrica, né? — ela respondeu, cruzando os braços e encarando ele de volta, o que fez a Adeline quase engasgar com o muffin de mirtilo que tava comendo. O Ethan deu uma risada curta, seca, e inclinou o corpo pra frente, ficando mais perto dela. — Gostei, você tem língua afiada pra quem mora numa cidade onde a maior emoção é ver a grama crescer — ele disse, com aquele tom descontraído mas que tinha uma camada de mistério por trás — Eu sou o Ethan. — Eu sei quem você é, as fofocas correm rápido em Raven’s Hollow — Selena disse, tentando manter a voz firme apesar do coração tá parecendo uma bateria de escola de samba — você é o cara da mansão na Alameda dos Sussurros, o filho do Elias que sumiu e voltou do nada. — Pelo visto meu pai tem razão, o povo aqui não tem o que fazer além de cuidar da vida alheia — ele deu de ombros, pegando o café que o Caleb trouxe e levantando da cadeira — a gente se vê por aí, Selena Moreau. Ela congelou. — Como você sabe meu nome? Eu não falei meu nome. Ele não respondeu, só deu uma piscadinha, virou as costas e saiu com o Caleb, que ainda deu um tchauzinho engraçado pras meninas antes de sair, e o som do motor do Mustang explodiu do lado de fora, fazendo o vidro da cafeteria tremer de leve. — Amiga... ele sabe seu nome! — Adeline tava surtando — ele sabe seu nome e ele é um gato nível absurdo, o que foi isso? — Eu não sei, Addy, mas meu pai disse pra eu ficar longe e agora eu tô começando a achar que ele tem razão — Selena se encostou na cadeira, sentindo uma sensação estranha, como se estivesse sendo observada mesmo depois dele ter ido embora — aquele cara não é normal, tem algo nele que me dá arrepios, e não é do jeito bom. Depois disso, as meninas tentaram seguir o dia, foram na loja de discos onde o dono, o Sr. Henderson, que era um senhorzinho de uns 70 anos que usava boina e cheirava a naftalina, ficava reclamando que a música de hoje em dia era tudo barulho de liquidificador. Selena comprou um vinil antigo do Fleetwood Mac porque ela era dessas, e tentou tirar o Ethan da cabeça, mas era impossível, o rosto dele parecia tatuado na retina dela. Quando ela chegou em casa, na Rua das Hortênsias, o pai dela, o Endrick, tava na varanda limpando umas ferramentas. Ele olhou pra ela com aquele olhar de "eu sei o que você fez no verão passado", mesmo que ela só tivesse ido tomar café. — Viu o movimento na cidade hoje, Selena? — ele perguntou, sem tirar os olhos do que tava fazendo. — Vi, pai, a Adeline me arrastou pro centro, o de sempre — ela tentou ser casual, mas era péssima mentirosa. — Ouvi dizer que os Blackwood já estão causando, o filho dele anda por aí com aquele carro barulhento como se fosse o dono da rua — Endrick suspirou, guardando uma chave de fenda — fica longe daquela colina, Selena, eu tô falando sério, aquela família traz problema desde que o mundo é mundo. — Pai, a gente tá em 2024, não no meio de uma guerra de famílias medievais — ela reclamou, entrando em casa e subindo pro quarto — eles são só pessoas ricas e meio esnobes, relaxa — Você não sabe de nada, filha — ele murmurou pra si mesmo, com uma expressão preocupada que a Selena não viu. No quarto dela, a Selena jogou a bolsa no chão e se jogou na cama, o teto do quarto era cheio de estrelinhas que brilhavam no escuro que ela colou quando tinha doze anos e nunca teve coragem de tirar. Ela pegou o celular e viu que tinha uma mensagem no grupo das amigas. •Mensagem no Grupo "As Meninas e a Adeline" Adeline: GENTE, vcs não acreditam, a Maya disse que viu o Caleb e o Ethan na floresta perto da cachoeira agora pouco, e disse que eles tavam correndo numa velocidade que parecia que tavam em cima de uma moto, mas tavam a pé! Chloe: Impossível, a Maya deve ter bebido muito energético, ninguém corre tão rápido assim no meio daquela mata cheia de lama. Maya: Eu juro por tudo que é mais sagrado! Eu tava treinando minha corrida e vi um vulto passar por mim, quando eu olhei, era o Caleb rindo e o Ethan logo atrás, eles sumiram no meio das árvores em um segundo, bizarro d+ A Selena sentiu um calafrio percorrer a espinha. Ela lembrou do jeito que o Ethan olhou pra ela na cafeteria, da temperatura da pele dele quando ele encostou de leve na mesa... era fria, fria demais pra alguém que tava num lugar aquecido. Ela levantou, foi até a janela e olhou em direção à Alameda dos Sussurros, a mansão ficava lá no topo, envolta por uma névoa que nunca parecia dissipar. — O que você é, Ethan Blackwood? — ela sussurrou pra si mesma, enquanto apertava o pingente de pedra que sua mãe tinha deixado pra ela antes de morrer. Ela não sabia, mas lá na mansão, o Ethan tava parado na sacada, olhando exatamente na direção da casa dela, com os sentidos aguçados captando o cheiro do perfume dela, uma mistura de baunilha e tinta de desenho, que o vento levava até ele mesmo a quilômetros de distância — Ela é diferente, não é? — o Caleb apareceu do nada atrás dele, sem fazer barulho nenhum. — Ela é um problema, Caleb — o Ethan respondeu, sem desviar o olhar — e o problema maior é que eu não consigo parar de pensar no gosto que o sangue dela deve ter. — Eita, calma lá, draculinha — o Caleb riu, mas o Ethan não achou graça — o Elias mata a gente se você encostar num fio de cabelo da filha do Moreau. — Ele não precisa saber — o Ethan deu um sorriso predatório, as pupilas dilatando até os olhos ficarem quase pretos — por enquanto, eu só quero ver até onde essa curiosidade dela vai levar ela. O silêncio da noite em Raven's Hollow foi quebrado apenas pelo uivo de um lobo lá longe, mas a Selena sabia que não era um lobo qualquer, o clima tava mudando e as sombras da Alameda dos Sussurros tavam começando a se esticar até a porta dela, e o pior de tudo é que, no fundo, ela não queria fugir. Continua...
Salamat
Suportahan ang may-akda na magdala sa iyo ng mga magagandang kwento
muito bom
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