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Capítulo 6

Astrid dormira mal durante a noite. Os próprios
sonhos sendo perturbados e invadidos por uma série de
gritos tão altos e tão assustadores, que a princesa
conseguia sentir o seu corpo se movimentando sob as
cobertas quentes e macias.
Ela berrava.
O lobo à sua espreita, os olhos cintilantes e
desafiadores, como ela bem lembrava.
Uma dor agonizante surgiu em sua perna, não
apenas em seu tornozelo, e sim, em toda a extensão que
abrangia pele, carne e osso da sua panturrilha. Ela
conseguia ouvir o próprio coração em seus ouvidos, o som
tão alto e tão desesperador, como se ele quisesse se
libertar daquele pesadelo, como se já não aguentasse mais.
Aquela angústia infernal.
Ele precisava se libertar daquele corpo, a contração
dele batendo e forçando fortemente em seu peito. Mais.
Ele precisava de mais força para que fosse arrancado dali.
A dor precisava ser interrompida, ela deveria ser curada.
Astrid não aguentava mais aquela tortura, ela precisava
acordar, ela precisava de ar, ela precisava curar.
O lobo agora tão perto, o animal atravessara o rio.
Ele estava ao seu lado, imenso, forte e intimidante, nada
mudou. Exceto, pelas lágrimas que este possuía em seus
olhos, os olhos distantes, os olhos agora escuros devido ao
sombreamento que se instalou ali. Onde eles estavam? Ela
não fazia ideia, a sua vista não funcionava mais, apenas
manchas coloridas eram identificáveis, uma mais borrada
do que a outra e, ainda assim, ela observou as lágrimas do
lobo, o animal chorava com ela, chorava por sua dor,
chorava por seu desespero, ela podia sentir, mesmo com o
coração quase disparando do seu peito, ela sentia.
Ele curvou-se diante da sua perna em uma
reverência desequilibrada e nada sutil.
Sangue jorrava ao lado do seu abdômen.
Astrid apontou, como se o lobo não tivesse reparado
em seu próprio ferimento, como se ele não ligasse e não
desse atenção para a própria dor que, certamente, irradiava
por seu corpo, aquele corpo de pelos desgrenhados. Ele
continuou chorando, as lágrimas se camuflando em sua
pelagem cinza, indo em direção à perna de Astrid, o
líquido tão quente e tão delicioso de sentir. A textura caía
e se dissolvia ao redor do seu sangue, rápida e
inevitavelmente, como se aquilo fosse o correto a se fazer.
A dor amenizou, porém a respiração de Astrid
permanecia descompassada e falha, esta se misturando
com a do lobo e com o silêncio que reinava naquele local.
O animal apenas a encarou, o olhar ainda triste, ele parecia
sofrer. O corpo agora tão pequeno e, ainda assim, a sua
boca se curvou em um sorriso leve e doloroso. Antes que
este inclinasse lentamente a sua mandíbula, como se
palavras fossem ser pronunciadas através da sua garganta,
uma voz ecoou na mente de Astrid.
— Alteza. — Um som agudo e distante rompeu
entre os tímpanos de Astrid, ela sentou-se e procurou o
dono da voz. — Alteza.
Astrid encarou o lobo novamente, mas ele já não
estava mais naquele lugar, o qual ela nunca avistara. Um
pequeno impulso percorreu por seu corpo e os seus olhos
abriram repentinamente, antes que fossem fechados
novamente pela claridade que adentrava em seu quarto,
não em um local desconhecido, apenas em seu quarto. Um
sonho. É claro que fora um sonho, e Astrid sabia disso.
Mas, a dor havia sido tão real...
Uma mulher baixa e magra estava ao seu lado, os
dedos das mãos grudados em seu pulso, os olhos negros e
vazios a encarou suavemente. A mulher forçou um sorriso,
o que, certamente, falhara, pois mais parecia uma careta.
Ela lhe concedeu uma reverência, tão desproporcional
quanto a do lobo em seu sonho e lhe desejou um bom dia
em forma de sussurro.
Antes que Astrid pudesse retribuir o cumprimento, a
Beltrana a guiou lentamente em direção ao banheiro. A
banheira já preparada com água quente e com sais de
banho, os produtos de higiene sobre a parte lateral desta.
A princesa inalou o aroma de plantas silvestres e
jasmim antes de adentrar no aparelho marmorizado. Astrid
sabia que, caso pedisse para a mulher esfriar, ou esquentar
ainda mais aquela água, ela faria instantaneamente com a
sua magia. Mas, ali, encostada sobre a cabeceira da
banheira, Astrid apenas tentou relaxar.
Mesmo que os pensamentos do seu pesadelo sempre
retornassem para a sua mente.
Ela mergulhou, afundou e voltou à superfície, os
cabelos agora molhados e devidamente limpos, mesmo
que ela ainda fosse precisar esfregá-los um pouco mais
para que não se tornassem tão bagunçados quando Astrid
voltasse a se aventurar pelo Reino Florestal com Dama.
Apesar de que, a princesa não faria isso tão cedo, lembrou
ela, após retornar à sua conversa com a curandeira, que
ocorrera no dia anterior.
O banho foi tranquilo, quando comparado ao seu
sono da noite anterior. Ela precisava relaxar. Astrid ainda
sentia os seus ombros tensos, o corpo mais cansado do que
nunca. As suas mãos tremiam levemente quando esta
aceitou a toalha que a Beltrana lhe ofereceu. Seu corpo,
pelo menos, estava mais limpo e cheiroso do que antes.
A princesa escolheu um de seus vestidos enquanto a
mulher penteava e cuidava dos seus cachos. Astrid não
podia usar calças, ou vestimentas mais confortáveis para
um treinamento de espadas, ou para uma série de
exercícios. Esta ordem dada por seu pai, é claro, já que, de
acordo com ele, uma princesa, ou uma mulher de verdade,
não deveria se portar de tal forma. Não deveria andar por
aí parecendo um Beltrano, ou um escravo e usar calças
estava diretamente relacionado com estes motivos.
O que para Astrid era uma grande estupidez do rei.
Ela gostaria de argumentar contra o seu
pensamento, mas contrariá-lo não possuía um bom
significado, mesmo para ela que era a sua filha e herdeira.
Após a finalização da mulher em seus cabelos e em
sua face, Astrid a dispensou educadamente para que
pudesse vestir o seu vestido, após perguntar o seu nome. A
Beltrana apenas corou e respondeu com os olhos
desolados: Tina.
A princesa a agradeceu pelo seu trabalho.
O vestido era de um verde esmeralda longo, com
mangas curtas, a saia um pouco justa e um tecido fino e
suave, o que era ótimo para ser utilizado naquela
primavera. Ela não poderia retornar os seus exercícios
hoje, a princesa respeitaria a indicação de Léia. No
entanto, Astrid adoraria ter que fugir de Apolo, apenas
para desobedecê-lo, já que ele, certamente, estaria a
vigiando para que ela se mantivesse em seus próprios
limites.
Astrid suspirou com o pensamento repentino. Era
uma sensação terrível ser controlada por alguém, mesmo
que fosse para o seu próprio bem. Ela não via como aquilo
podia ser considerado algo positivo em sua vida, a
princesa só conseguia observar as desvantagens, mas por
mais imprudente e impulsiva que ela fosse, Astrid tentaria
manter o seu próprio controle, só não sabia por quanto
tempo mais.
Ela seguiu em direção à sua penteadeira e tocou na
pomada de hortelã que a curandeira havia lhe dado, para
que Astrid a usasse em seu tornozelo machucado. A jovem
não mancou nenhuma vez esta manhã, ela não percebeu
isso, já que mesmo com a magia de Léia impregnada em
seu corpo, um incômodo ainda se mantinha ali, na parte
traseira da sua panturrilha.
Astrid abaixou-se para examinar o pé. Nada,
nenhuma cicatriz permanecia ali, nenhum tipo de
arranhão, ou algum pequeno machucado que continuara no
dia anterior. Nada. Não era possível que ela tivesse se
curado tão rápido, a pomada só foi usada ontem e se Léia
lhe concedeu, é porque esta deveria ser utilizada mais
vezes. Sabem-se as Rainhas quantas.
Os olhos se contraíram e a sua mente disparou para
o sonho que tivera.
Cura.
Sonho de que ela estava sendo curada pelo lobo.
Aquele lobo. Contudo, nada disso era possível, nada fazia
sentido, ele não estaria ao seu lado, ele nunca entraria ali.
Havia sido apenas um sonho e uma grande coincidência.
Talvez o machucado fosse mais superficial do que ela e
Léia pensaram, mas mesmo assim, Astrid partiu para o
corredor e seguiu em direção à saída do Palácio para
encontrar a curandeira.
Astrid percorria e caminhava lentamente pelos
corredores do Palácio. Nenhuma dor habitava em seu
corpo, muito pelo contrário, ela andava perfeitamente
bem, como se nada tivesse acontecido, como se a dor em
seu tornozelo, a cena do lobo mordendo a perna daquele
homem, o seu grito logo em seguida, não passassem de um
sonho.
Além daquela voz feminina suave e bela.
No entanto, a jovem estava enganada, não fora
apenas a sua imaginação brincando com ela, aquilo
realmente aconteceu. Astrid ainda podia ver os olhos
assustados e esbugalhados de Dama, como Apolo parecia
desesperado para encontrá-la, como ele atravessaria
aquelas árvores apenas para procurá-la. Além de que ela
conhecera Léia, uma mulher simpática e doce, era o que
esta aparentava ser. Competente também parecia ser uma
ótima palavra para descrevê-la.
Astrid suspirou profundamente ao passar pelo
escritório do seu pai, a porta revestida por madeira de
carvalho estava entreaberta. Murmúrios e xingamentos
saíam de dentro da sala, ecoando pelo corredor. O vento
que adentrava pelas janelas levando as palavras
inapropriadas para longe daquele Reino e além dele.
— Apolo? — o rei, seu pai, chamou. A voz grave e
rouca, como se este tivesse passado a noite inteira gritando
e resmungando reclamações para pessoas aleatórias, ou
quem sabe, para si mesmo.
A princesa caminhou para o interior da sala,
empurrando a porta levemente e posicionando a cabeça
sobre a sua lateral enquanto os seus dedos finos
seguravam a maçaneta redonda, logo, sentindo o frio da
magia habitar ali.
— Sou eu, pai — ela disse, a voz arrastada, como se
Astrid não quisesse estar ali. Ela não queria mesmo, mas
precisava conversar com ele, lembrou-se. Mesmo que
tivesse que escutar as suas ignorâncias.
— Oh! — Não havia surpresa ali, os seus olhos
ainda estavam frios, quase congelados, negros iguais à
mais pura escuridão. Não havia brilho neles — Faz um
tempo que não a vejo, querida. Entre, temos que
conversar.
Astrid podia jurar que iria virar a mesa que se
encontrava na sala. É claro que ela ainda gostaria de tirar
satisfações com o seu pai sobre alguns assuntos. Contudo,
ele também queria deixar algumas coisas claras, ou lhe
emburrar com as suas ordens ridículas, mas ela não estava
a fim de contrariá-lo, não nesse momento. Essa hora podia
chegar daqui a pouco, com o desenrolar da conversa.
A jovem entrou no cômodo. As paredes antigas e
escuras com mármores criados para parecerem madeiras,
os pisos tão escuros quanto os blocos verticais. A
escrivaninha ocupava quase todo o espaço da sala, com
papéis jogados nesta, uma carta aberta, o papel amarelado
e límpido. O tapete felpudo negro permanecia sob a base
da mesa e poltronas estofadas claras se encontravam à sua
frente.
Uma luz amarela iluminava aquele espaço,
iluminando as prateleiras e as estantes que se encontravam
ao redor da sala, alguns livros tão desgastados, que Astrid
não fazia ideia do que o seu pai fazia com eles, ou se estes
já estavam velhos o suficiente para estarem descascando.
Um mapa grande e extenso se encontrava na parede oeste,
descrevendo os Reinos de Brighid e onde cada um poderia
ser encontrado. Nenhum mapa interno do Reino Florestal
se encontrava ali, não a vista, pelo menos.
Astrid sentou-se defronte para o pai, os seus olhos se
desviando para aquele rosto sombrio e repugnante. Os
olhos pretos concentrados nela, em cada movimento que
esta fazia, em cada encarada e em cada suspiro que a
jovem realizava. O cabelo castanho, penteado para trás,
fazia um contraste assustador com a sua pele negra, as
rugas tão visíveis em sua face, que Astrid se perguntava se
alguma vez em sua vida ele não tivesse sido tão
estressado.
O nariz grosso e pontudo se inclinou para os lados,
após o Rei sorrir abertamente, um sorriso odioso e
manipulador, mas Astrid não encolheu os ombros. Ela já
estava acostumada com aquela expressão terrível.
— E então? — o seu pai sibilou, as pontas dos seus
dedos compridos e finos batucando na escrivaninha e
criando uma melodia desproporcional.
— Então o quê? — ela questionou, os braços soltos
pela poltrona e as pernas esticadas até o centro do tapete
preto.
— Não há nada para dizer? Como por exemplo, o
seu ferimento e como você voltou de onde gritos soaram
pelo Reino.
A sua calma e quietude nas palavras o fazia mais
odioso do que o normal, Astrid sabia, mas ela não iria
demonstrar, ou expressar qualquer reação diante daquela
pergunta. Não era preocupação que percorria pelos seus
olhos e não eram palavras aflitas que saltavam da sua
boca.
Astrid apenas deu de ombros, um gesto casual e um
tanto desrespeitoso, visto que esta se encontrava diante de
um Rei.
— Não foi nada demais, apenas escorreguei e me
machuquei em uma pedra. — Ele inclinou os lábios para
falar, mas Astrid o interrompeu — E quanto aos gritos...
— ela se lembrou do dia anterior, contudo, evitou
expressar aquilo, aquelas memórias em seus olhos —
Apenas os escutei, não sei de onde vieram, se era isto o
que queria saber.
Ele grunhiu, o rosto se contorcendo em uma careta
enojada e furiosa. Os seus lábios formaram uma linha fina
e uma espécie de murmúrio soou entre os ouvidos de
Astrid, seguidos por uma palavra:
— Mentirosa — Sim, ela era. No entanto, isso não
parecia pesar em sua consciência. Astrid não queria
conversar sobre o lobo com ninguém, muito menos com o
seu pai. Não quando ela ficou parada ali, próxima ao rio
Clypeus, sem fazer absolutamente nada. Já foi humilhante
o suficiente pensar naquilo sozinha, imagina compartilhar
com alguém.
— Não tem porque não acreditar. Pode ter vindo de
qualquer lado. Eu apenas escutei, já disse. — Seus braços
se cruzaram e ela tentou manter o rosto o mais neutro
possível.
— Me respeite. Eu sou o seu pai e, principalmente, o
Rei deste Reino. — É claro que o poder da Soberania
seria mais importante para ele do que um simples e
estúpido parentesco. Astrid engoliu em seco, porém, ainda
o encarava — Já falei para parar com essas caminhadas
que a levam para longe do Reino. Não é um pedido, é uma
ordem e se você não me obedecer...
— Se não o quê? — Desafiou Astrid, as pupilas se
dilatando, o coração bombeando rapidamente sob as suas
costelas. — É o máximo que consigo ir, já que não posso
sair daqui. Ficar presa dentro desta prisão não está nos
meus planos.
— Pois eu recomendo que você a acrescente em seus
planos, porque eu não irei mudar a minha opinião. Não me
desafie, Astrid, ou eu acabo com a sua liberdade o mais
rápido que eu puder, em um piscar de olhos, se você
estiver duvidando. — Ele a ameaçou, os olhos revestidos
com fúria e ódio, os dedos ainda tamborilando sobre a
mesa.
— Isso não é liberdade e não pode ser comparada
com tal. — A sua voz aumentou, a garganta se fechando
cada vez mais, os punhos já cerrados e um frio irradiando
em seu intestino. — Você fala como se estivesse
preocupado comigo.
Ele não falou, não a contrariou. Astrid sabia que
preocupação era a última coisa que ele sentiria na vida,
mas ainda assim, ela esperava que ele mentisse e dissesse
que se importava com ela, da mesma maneira que ele se
importava com o seu cargo e poder. No entanto, isso não
aconteceu.
E como doía.
O seu pai apenas inclinou a cabeça para o lado, os
cabelos se movendo, a face ainda fria e ausente de boas
expressões. Ele tocou em sua testa, o frio se estabelecendo
naquele cômodo, o poder da sua magia invadindo aquele
espaço. A única planta do vaso que permanecia em sua
escrivaninha morrendo. O vaso se partindo em mil
pedaços com apenas um movimento.
Astrid não conseguiu esconder o salto que esta deu
ainda em sua cadeira enquanto o seu pai se levantava
lentamente e se inclinava para perto dela, enquanto este
encarava os seus olhos profundamente, como se fosse os
queimar e os transformar em cinzas naquele momento.
Contudo, a jovem não desviou o olhar, ela não sentia
medo e mesmo que sentisse, ela iria enfrentá-lo.
— Não quero você me desobedecendo, não ouse me
contrariar de forma alguma. — Ele respirou, o ar saindo
do seu nariz — Você não sabe do que eu sou capaz, não
venha se fazer de corajosa. Você, Astrid... — o seu nome
saindo da sua boca, o som tão terrível — É a minha
herdeira, mas eu não sentiria pena, ou remorso se eu
fizesse algo contra você, porque cá entre nós, você está
merecendo.
Aquilo doeu. Se tudo aquilo fosse para aparentar ser
uma ameaça, ele falhara. “Eu não sentiria pena, ou
remorso se eu fizesse algo contra você.”
Ele não se importava, ele não faria nada por ela,
nunca. Como se ela não fosse nada, como se ela não fosse
interessante, útil, como se Astrid não passasse de uma
humana estúpida e nojenta, que não valia o esforço. E
talvez ela fosse.
Astrid sentiu a garganta congelar antes que o seu pai
pudesse sorrir largamente e recuar para longe dela. Os
seus braços e pernas fixos no mesmo lugar, como se o seu
corpo não soubesse como responder àquele insulto.
Palavras tão horrendas, palavras horríveis, péssimas, mas
todas sinceras. Isto era pior do que qualquer sentimento
que ela sentira. Astrid preferia a dor em seu tornozelo, do
que escutar aquela frase novamente.
Os seus olhos percorriam a escrivaninha, os papéis
todos rabiscados e espalhados sobre esta, alguns com
destinatários, outros apenas com garranchos, outros ainda
limpos e brancos.
Ela suspirou e desviou a sua atenção para o papel
amarelado, uma letra uniforme e elegante se encontrava
escrita ali, as palavras minúsculas, tão pequenas que
Astrid mal conseguiu discernir o que estava sendo descrito
no texto, exceto por uma sigla e por algumas palavras que
a acompanhava.
R22. PRETO. GRANDE E DISTINTO. O SEU
LOCAL NUNCA MUDA.
Astrid não fazia ideia do que aquilo podia significar
e se significava algo. Antes que ela pudesse tentar ler o
restante da folha, o seu pai puxou o papel com força,
quase o rasgando, logo o trancando na gaveta que possuía
em sua mesa.
— Não lhe dei permissão para ficar bisbilhotando os
meus assuntos, não lhe interessa o que há aqui — ele
falou, a respiração cortante, os olhos arregalados e as
mãos postas sobre a escrivaninha.
Astrid encolheu os dedos sob as suas mãos e se
levantou rapidamente. Ela ignorou a arrogância do seu pai,
rei, o que ele fosse naquele momento e nos outros. Como
ele gostaria de ser convocado. Ela não se importava.
A jovem ia tentar de tudo para evitar se importar.
— Antes que eu me retire — a sua voz estava firme.
Bom. —, quero que, por favor... — ela lutou contra aquela
educação forçada, o seu cérebro evitando que a palavra
saltasse da sua boca — Eu gostaria que os animais fossem
atendidos por algumas curandeiras que tenham a
competência de ajudá-los.
O Rei bufou uma risada. Astrid podia jurar que até
os pássaros pararam de cantar lá fora.
— E por que exatamente eu perderia o meu tempo
com essas bobagens?
— Porque a quantidade de cavalos está diminuindo,
um potro faleceu recentemente... — ela disse, no entanto,
o seu pai a interrompeu instantaneamente, evitando que
Astrid continuasse.
— Você anda conversando com o povo? — A sua
raiva aumentou. Astrid imaginou quanto tempo demoraria
para ele lançar aquela escrivaninha sobre a sua cabeça —
Eu lhe disse e repito pela última vez. Não fale com eles,
não converse, não mantenha contato. São pobres,
imundos. — Ele cuspiu — Não vale a nossa atenção, nem
mesmo a sua. — Astrid tentou não se importar com essa
última frase — Se os cavalos estão morrendo, então eles
não estão fazendo um bom trabalho e eu mesmo irei dar
um jeito nisso.
— Não! — Ela exclamou, a voz ainda firme, mas
pouco controlada — São cavalariços, não curandeiros. Os
animais precisam de auxílios vindos de pessoas que
realmente entendam do assunto. Os cavalariços não têm
nada a ver com tudo isso.
Astrid preferiu ignorar as outras palavras do seu pai.
Aquilo era o suficiente, ela não podia aguentar mais do
que isso, ela era impulsiva demais, podia fazer algo, o qual
se arrependeria mais tarde, principalmente com a frase
anterior dita por ele: “Eu não sentiria pena, ou remorso se
eu fizesse algo contra você.”
Ela saiu da sala antes que o Rei pudesse comentar
algo. Apolo caminhava em sua direção no lado oposto do
corredor, mas ela passou por ele e não o encarou. Astrid
não queria conversar com ninguém no momento,
principalmente com ele, não ali, não com toda aquela raiva
que percorria por seu corpo, em suas entranhas.
Astrid percorreu até a torre da restauração sem sentir
nenhuma dor. Apenas fúria e desgostoso se instalavam ali,
além da sensação de frio. Um frio imenso, como se este
pudesse se libertar do seu corpo a qualquer momento.
Ela também gostaria de se libertar daquele corpo,
caso fosse possível.

หนังสือแสดงความคิดเห็น (2863)

  • avatar
    FlorLaravilla

    ótimo

    1d

      0
  • avatar
    BiancaCarla

    muito bom

    9d

      0
  • avatar
    RitaMayara

    muito bom

    19/04

      0
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