Astrid dormira mal durante a noite. Os próprios sonhos sendo perturbados e invadidos por uma série de gritos tão altos e tão assustadores, que a princesa conseguia sentir o seu corpo se movimentando sob as cobertas quentes e macias. Ela berrava. O lobo à sua espreita, os olhos cintilantes e desafiadores, como ela bem lembrava. Uma dor agonizante surgiu em sua perna, não apenas em seu tornozelo, e sim, em toda a extensão que abrangia pele, carne e osso da sua panturrilha. Ela conseguia ouvir o próprio coração em seus ouvidos, o som tão alto e tão desesperador, como se ele quisesse se libertar daquele pesadelo, como se já não aguentasse mais. Aquela angústia infernal. Ele precisava se libertar daquele corpo, a contração dele batendo e forçando fortemente em seu peito. Mais. Ele precisava de mais força para que fosse arrancado dali. A dor precisava ser interrompida, ela deveria ser curada. Astrid não aguentava mais aquela tortura, ela precisava acordar, ela precisava de ar, ela precisava curar. O lobo agora tão perto, o animal atravessara o rio. Ele estava ao seu lado, imenso, forte e intimidante, nada mudou. Exceto, pelas lágrimas que este possuía em seus olhos, os olhos distantes, os olhos agora escuros devido ao sombreamento que se instalou ali. Onde eles estavam? Ela não fazia ideia, a sua vista não funcionava mais, apenas manchas coloridas eram identificáveis, uma mais borrada do que a outra e, ainda assim, ela observou as lágrimas do lobo, o animal chorava com ela, chorava por sua dor, chorava por seu desespero, ela podia sentir, mesmo com o coração quase disparando do seu peito, ela sentia. Ele curvou-se diante da sua perna em uma reverência desequilibrada e nada sutil. Sangue jorrava ao lado do seu abdômen. Astrid apontou, como se o lobo não tivesse reparado em seu próprio ferimento, como se ele não ligasse e não desse atenção para a própria dor que, certamente, irradiava por seu corpo, aquele corpo de pelos desgrenhados. Ele continuou chorando, as lágrimas se camuflando em sua pelagem cinza, indo em direção à perna de Astrid, o líquido tão quente e tão delicioso de sentir. A textura caía e se dissolvia ao redor do seu sangue, rápida e inevitavelmente, como se aquilo fosse o correto a se fazer. A dor amenizou, porém a respiração de Astrid permanecia descompassada e falha, esta se misturando com a do lobo e com o silêncio que reinava naquele local. O animal apenas a encarou, o olhar ainda triste, ele parecia sofrer. O corpo agora tão pequeno e, ainda assim, a sua boca se curvou em um sorriso leve e doloroso. Antes que este inclinasse lentamente a sua mandíbula, como se palavras fossem ser pronunciadas através da sua garganta, uma voz ecoou na mente de Astrid. — Alteza. — Um som agudo e distante rompeu entre os tímpanos de Astrid, ela sentou-se e procurou o dono da voz. — Alteza. Astrid encarou o lobo novamente, mas ele já não estava mais naquele lugar, o qual ela nunca avistara. Um pequeno impulso percorreu por seu corpo e os seus olhos abriram repentinamente, antes que fossem fechados novamente pela claridade que adentrava em seu quarto, não em um local desconhecido, apenas em seu quarto. Um sonho. É claro que fora um sonho, e Astrid sabia disso. Mas, a dor havia sido tão real... Uma mulher baixa e magra estava ao seu lado, os dedos das mãos grudados em seu pulso, os olhos negros e vazios a encarou suavemente. A mulher forçou um sorriso, o que, certamente, falhara, pois mais parecia uma careta. Ela lhe concedeu uma reverência, tão desproporcional quanto a do lobo em seu sonho e lhe desejou um bom dia em forma de sussurro. Antes que Astrid pudesse retribuir o cumprimento, a Beltrana a guiou lentamente em direção ao banheiro. A banheira já preparada com água quente e com sais de banho, os produtos de higiene sobre a parte lateral desta. A princesa inalou o aroma de plantas silvestres e jasmim antes de adentrar no aparelho marmorizado. Astrid sabia que, caso pedisse para a mulher esfriar, ou esquentar ainda mais aquela água, ela faria instantaneamente com a sua magia. Mas, ali, encostada sobre a cabeceira da banheira, Astrid apenas tentou relaxar. Mesmo que os pensamentos do seu pesadelo sempre retornassem para a sua mente. Ela mergulhou, afundou e voltou à superfície, os cabelos agora molhados e devidamente limpos, mesmo que ela ainda fosse precisar esfregá-los um pouco mais para que não se tornassem tão bagunçados quando Astrid voltasse a se aventurar pelo Reino Florestal com Dama. Apesar de que, a princesa não faria isso tão cedo, lembrou ela, após retornar à sua conversa com a curandeira, que ocorrera no dia anterior. O banho foi tranquilo, quando comparado ao seu sono da noite anterior. Ela precisava relaxar. Astrid ainda sentia os seus ombros tensos, o corpo mais cansado do que nunca. As suas mãos tremiam levemente quando esta aceitou a toalha que a Beltrana lhe ofereceu. Seu corpo, pelo menos, estava mais limpo e cheiroso do que antes. A princesa escolheu um de seus vestidos enquanto a mulher penteava e cuidava dos seus cachos. Astrid não podia usar calças, ou vestimentas mais confortáveis para um treinamento de espadas, ou para uma série de exercícios. Esta ordem dada por seu pai, é claro, já que, de acordo com ele, uma princesa, ou uma mulher de verdade, não deveria se portar de tal forma. Não deveria andar por aí parecendo um Beltrano, ou um escravo e usar calças estava diretamente relacionado com estes motivos. O que para Astrid era uma grande estupidez do rei. Ela gostaria de argumentar contra o seu pensamento, mas contrariá-lo não possuía um bom significado, mesmo para ela que era a sua filha e herdeira. Após a finalização da mulher em seus cabelos e em sua face, Astrid a dispensou educadamente para que pudesse vestir o seu vestido, após perguntar o seu nome. A Beltrana apenas corou e respondeu com os olhos desolados: Tina. A princesa a agradeceu pelo seu trabalho. O vestido era de um verde esmeralda longo, com mangas curtas, a saia um pouco justa e um tecido fino e suave, o que era ótimo para ser utilizado naquela primavera. Ela não poderia retornar os seus exercícios hoje, a princesa respeitaria a indicação de Léia. No entanto, Astrid adoraria ter que fugir de Apolo, apenas para desobedecê-lo, já que ele, certamente, estaria a vigiando para que ela se mantivesse em seus próprios limites. Astrid suspirou com o pensamento repentino. Era uma sensação terrível ser controlada por alguém, mesmo que fosse para o seu próprio bem. Ela não via como aquilo podia ser considerado algo positivo em sua vida, a princesa só conseguia observar as desvantagens, mas por mais imprudente e impulsiva que ela fosse, Astrid tentaria manter o seu próprio controle, só não sabia por quanto tempo mais. Ela seguiu em direção à sua penteadeira e tocou na pomada de hortelã que a curandeira havia lhe dado, para que Astrid a usasse em seu tornozelo machucado. A jovem não mancou nenhuma vez esta manhã, ela não percebeu isso, já que mesmo com a magia de Léia impregnada em seu corpo, um incômodo ainda se mantinha ali, na parte traseira da sua panturrilha. Astrid abaixou-se para examinar o pé. Nada, nenhuma cicatriz permanecia ali, nenhum tipo de arranhão, ou algum pequeno machucado que continuara no dia anterior. Nada. Não era possível que ela tivesse se curado tão rápido, a pomada só foi usada ontem e se Léia lhe concedeu, é porque esta deveria ser utilizada mais vezes. Sabem-se as Rainhas quantas. Os olhos se contraíram e a sua mente disparou para o sonho que tivera. Cura. Sonho de que ela estava sendo curada pelo lobo. Aquele lobo. Contudo, nada disso era possível, nada fazia sentido, ele não estaria ao seu lado, ele nunca entraria ali. Havia sido apenas um sonho e uma grande coincidência. Talvez o machucado fosse mais superficial do que ela e Léia pensaram, mas mesmo assim, Astrid partiu para o corredor e seguiu em direção à saída do Palácio para encontrar a curandeira. Astrid percorria e caminhava lentamente pelos corredores do Palácio. Nenhuma dor habitava em seu corpo, muito pelo contrário, ela andava perfeitamente bem, como se nada tivesse acontecido, como se a dor em seu tornozelo, a cena do lobo mordendo a perna daquele homem, o seu grito logo em seguida, não passassem de um sonho. Além daquela voz feminina suave e bela. No entanto, a jovem estava enganada, não fora apenas a sua imaginação brincando com ela, aquilo realmente aconteceu. Astrid ainda podia ver os olhos assustados e esbugalhados de Dama, como Apolo parecia desesperado para encontrá-la, como ele atravessaria aquelas árvores apenas para procurá-la. Além de que ela conhecera Léia, uma mulher simpática e doce, era o que esta aparentava ser. Competente também parecia ser uma ótima palavra para descrevê-la. Astrid suspirou profundamente ao passar pelo escritório do seu pai, a porta revestida por madeira de carvalho estava entreaberta. Murmúrios e xingamentos saíam de dentro da sala, ecoando pelo corredor. O vento que adentrava pelas janelas levando as palavras inapropriadas para longe daquele Reino e além dele. — Apolo? — o rei, seu pai, chamou. A voz grave e rouca, como se este tivesse passado a noite inteira gritando e resmungando reclamações para pessoas aleatórias, ou quem sabe, para si mesmo. A princesa caminhou para o interior da sala, empurrando a porta levemente e posicionando a cabeça sobre a sua lateral enquanto os seus dedos finos seguravam a maçaneta redonda, logo, sentindo o frio da magia habitar ali. — Sou eu, pai — ela disse, a voz arrastada, como se Astrid não quisesse estar ali. Ela não queria mesmo, mas precisava conversar com ele, lembrou-se. Mesmo que tivesse que escutar as suas ignorâncias. — Oh! — Não havia surpresa ali, os seus olhos ainda estavam frios, quase congelados, negros iguais à mais pura escuridão. Não havia brilho neles — Faz um tempo que não a vejo, querida. Entre, temos que conversar. Astrid podia jurar que iria virar a mesa que se encontrava na sala. É claro que ela ainda gostaria de tirar satisfações com o seu pai sobre alguns assuntos. Contudo, ele também queria deixar algumas coisas claras, ou lhe emburrar com as suas ordens ridículas, mas ela não estava a fim de contrariá-lo, não nesse momento. Essa hora podia chegar daqui a pouco, com o desenrolar da conversa. A jovem entrou no cômodo. As paredes antigas e escuras com mármores criados para parecerem madeiras, os pisos tão escuros quanto os blocos verticais. A escrivaninha ocupava quase todo o espaço da sala, com papéis jogados nesta, uma carta aberta, o papel amarelado e límpido. O tapete felpudo negro permanecia sob a base da mesa e poltronas estofadas claras se encontravam à sua frente. Uma luz amarela iluminava aquele espaço, iluminando as prateleiras e as estantes que se encontravam ao redor da sala, alguns livros tão desgastados, que Astrid não fazia ideia do que o seu pai fazia com eles, ou se estes já estavam velhos o suficiente para estarem descascando. Um mapa grande e extenso se encontrava na parede oeste, descrevendo os Reinos de Brighid e onde cada um poderia ser encontrado. Nenhum mapa interno do Reino Florestal se encontrava ali, não a vista, pelo menos. Astrid sentou-se defronte para o pai, os seus olhos se desviando para aquele rosto sombrio e repugnante. Os olhos pretos concentrados nela, em cada movimento que esta fazia, em cada encarada e em cada suspiro que a jovem realizava. O cabelo castanho, penteado para trás, fazia um contraste assustador com a sua pele negra, as rugas tão visíveis em sua face, que Astrid se perguntava se alguma vez em sua vida ele não tivesse sido tão estressado. O nariz grosso e pontudo se inclinou para os lados, após o Rei sorrir abertamente, um sorriso odioso e manipulador, mas Astrid não encolheu os ombros. Ela já estava acostumada com aquela expressão terrível. — E então? — o seu pai sibilou, as pontas dos seus dedos compridos e finos batucando na escrivaninha e criando uma melodia desproporcional. — Então o quê? — ela questionou, os braços soltos pela poltrona e as pernas esticadas até o centro do tapete preto. — Não há nada para dizer? Como por exemplo, o seu ferimento e como você voltou de onde gritos soaram pelo Reino. A sua calma e quietude nas palavras o fazia mais odioso do que o normal, Astrid sabia, mas ela não iria demonstrar, ou expressar qualquer reação diante daquela pergunta. Não era preocupação que percorria pelos seus olhos e não eram palavras aflitas que saltavam da sua boca. Astrid apenas deu de ombros, um gesto casual e um tanto desrespeitoso, visto que esta se encontrava diante de um Rei. — Não foi nada demais, apenas escorreguei e me machuquei em uma pedra. — Ele inclinou os lábios para falar, mas Astrid o interrompeu — E quanto aos gritos... — ela se lembrou do dia anterior, contudo, evitou expressar aquilo, aquelas memórias em seus olhos — Apenas os escutei, não sei de onde vieram, se era isto o que queria saber. Ele grunhiu, o rosto se contorcendo em uma careta enojada e furiosa. Os seus lábios formaram uma linha fina e uma espécie de murmúrio soou entre os ouvidos de Astrid, seguidos por uma palavra: — Mentirosa — Sim, ela era. No entanto, isso não parecia pesar em sua consciência. Astrid não queria conversar sobre o lobo com ninguém, muito menos com o seu pai. Não quando ela ficou parada ali, próxima ao rio Clypeus, sem fazer absolutamente nada. Já foi humilhante o suficiente pensar naquilo sozinha, imagina compartilhar com alguém. — Não tem porque não acreditar. Pode ter vindo de qualquer lado. Eu apenas escutei, já disse. — Seus braços se cruzaram e ela tentou manter o rosto o mais neutro possível. — Me respeite. Eu sou o seu pai e, principalmente, o Rei deste Reino. — É claro que o poder da Soberania seria mais importante para ele do que um simples e estúpido parentesco. Astrid engoliu em seco, porém, ainda o encarava — Já falei para parar com essas caminhadas que a levam para longe do Reino. Não é um pedido, é uma ordem e se você não me obedecer... — Se não o quê? — Desafiou Astrid, as pupilas se dilatando, o coração bombeando rapidamente sob as suas costelas. — É o máximo que consigo ir, já que não posso sair daqui. Ficar presa dentro desta prisão não está nos meus planos. — Pois eu recomendo que você a acrescente em seus planos, porque eu não irei mudar a minha opinião. Não me desafie, Astrid, ou eu acabo com a sua liberdade o mais rápido que eu puder, em um piscar de olhos, se você estiver duvidando. — Ele a ameaçou, os olhos revestidos com fúria e ódio, os dedos ainda tamborilando sobre a mesa. — Isso não é liberdade e não pode ser comparada com tal. — A sua voz aumentou, a garganta se fechando cada vez mais, os punhos já cerrados e um frio irradiando em seu intestino. — Você fala como se estivesse preocupado comigo. Ele não falou, não a contrariou. Astrid sabia que preocupação era a última coisa que ele sentiria na vida, mas ainda assim, ela esperava que ele mentisse e dissesse que se importava com ela, da mesma maneira que ele se importava com o seu cargo e poder. No entanto, isso não aconteceu. E como doía. O seu pai apenas inclinou a cabeça para o lado, os cabelos se movendo, a face ainda fria e ausente de boas expressões. Ele tocou em sua testa, o frio se estabelecendo naquele cômodo, o poder da sua magia invadindo aquele espaço. A única planta do vaso que permanecia em sua escrivaninha morrendo. O vaso se partindo em mil pedaços com apenas um movimento. Astrid não conseguiu esconder o salto que esta deu ainda em sua cadeira enquanto o seu pai se levantava lentamente e se inclinava para perto dela, enquanto este encarava os seus olhos profundamente, como se fosse os queimar e os transformar em cinzas naquele momento. Contudo, a jovem não desviou o olhar, ela não sentia medo e mesmo que sentisse, ela iria enfrentá-lo. — Não quero você me desobedecendo, não ouse me contrariar de forma alguma. — Ele respirou, o ar saindo do seu nariz — Você não sabe do que eu sou capaz, não venha se fazer de corajosa. Você, Astrid... — o seu nome saindo da sua boca, o som tão terrível — É a minha herdeira, mas eu não sentiria pena, ou remorso se eu fizesse algo contra você, porque cá entre nós, você está merecendo. Aquilo doeu. Se tudo aquilo fosse para aparentar ser uma ameaça, ele falhara. “Eu não sentiria pena, ou remorso se eu fizesse algo contra você.” Ele não se importava, ele não faria nada por ela, nunca. Como se ela não fosse nada, como se ela não fosse interessante, útil, como se Astrid não passasse de uma humana estúpida e nojenta, que não valia o esforço. E talvez ela fosse. Astrid sentiu a garganta congelar antes que o seu pai pudesse sorrir largamente e recuar para longe dela. Os seus braços e pernas fixos no mesmo lugar, como se o seu corpo não soubesse como responder àquele insulto. Palavras tão horrendas, palavras horríveis, péssimas, mas todas sinceras. Isto era pior do que qualquer sentimento que ela sentira. Astrid preferia a dor em seu tornozelo, do que escutar aquela frase novamente. Os seus olhos percorriam a escrivaninha, os papéis todos rabiscados e espalhados sobre esta, alguns com destinatários, outros apenas com garranchos, outros ainda limpos e brancos. Ela suspirou e desviou a sua atenção para o papel amarelado, uma letra uniforme e elegante se encontrava escrita ali, as palavras minúsculas, tão pequenas que Astrid mal conseguiu discernir o que estava sendo descrito no texto, exceto por uma sigla e por algumas palavras que a acompanhava. R22. PRETO. GRANDE E DISTINTO. O SEU LOCAL NUNCA MUDA. Astrid não fazia ideia do que aquilo podia significar e se significava algo. Antes que ela pudesse tentar ler o restante da folha, o seu pai puxou o papel com força, quase o rasgando, logo o trancando na gaveta que possuía em sua mesa. — Não lhe dei permissão para ficar bisbilhotando os meus assuntos, não lhe interessa o que há aqui — ele falou, a respiração cortante, os olhos arregalados e as mãos postas sobre a escrivaninha. Astrid encolheu os dedos sob as suas mãos e se levantou rapidamente. Ela ignorou a arrogância do seu pai, rei, o que ele fosse naquele momento e nos outros. Como ele gostaria de ser convocado. Ela não se importava. A jovem ia tentar de tudo para evitar se importar. — Antes que eu me retire — a sua voz estava firme. Bom. —, quero que, por favor... — ela lutou contra aquela educação forçada, o seu cérebro evitando que a palavra saltasse da sua boca — Eu gostaria que os animais fossem atendidos por algumas curandeiras que tenham a competência de ajudá-los. O Rei bufou uma risada. Astrid podia jurar que até os pássaros pararam de cantar lá fora. — E por que exatamente eu perderia o meu tempo com essas bobagens? — Porque a quantidade de cavalos está diminuindo, um potro faleceu recentemente... — ela disse, no entanto, o seu pai a interrompeu instantaneamente, evitando que Astrid continuasse. — Você anda conversando com o povo? — A sua raiva aumentou. Astrid imaginou quanto tempo demoraria para ele lançar aquela escrivaninha sobre a sua cabeça — Eu lhe disse e repito pela última vez. Não fale com eles, não converse, não mantenha contato. São pobres, imundos. — Ele cuspiu — Não vale a nossa atenção, nem mesmo a sua. — Astrid tentou não se importar com essa última frase — Se os cavalos estão morrendo, então eles não estão fazendo um bom trabalho e eu mesmo irei dar um jeito nisso. — Não! — Ela exclamou, a voz ainda firme, mas pouco controlada — São cavalariços, não curandeiros. Os animais precisam de auxílios vindos de pessoas que realmente entendam do assunto. Os cavalariços não têm nada a ver com tudo isso. Astrid preferiu ignorar as outras palavras do seu pai. Aquilo era o suficiente, ela não podia aguentar mais do que isso, ela era impulsiva demais, podia fazer algo, o qual se arrependeria mais tarde, principalmente com a frase anterior dita por ele: “Eu não sentiria pena, ou remorso se eu fizesse algo contra você.” Ela saiu da sala antes que o Rei pudesse comentar algo. Apolo caminhava em sua direção no lado oposto do corredor, mas ela passou por ele e não o encarou. Astrid não queria conversar com ninguém no momento, principalmente com ele, não ali, não com toda aquela raiva que percorria por seu corpo, em suas entranhas. Astrid percorreu até a torre da restauração sem sentir nenhuma dor. Apenas fúria e desgostoso se instalavam ali, além da sensação de frio. Um frio imenso, como se este pudesse se libertar do seu corpo a qualquer momento. Ela também gostaria de se libertar daquele corpo, caso fosse possível.
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