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บทที่ 5 De volta à mansão

O silêncio na mansão de Apollo não era o tipo de silêncio que traz paz; era uma ausência de som cirúrgica, quase artificial, como se as paredes de concreto aparente e vidro blindado tivessem sido projetadas para absorver qualquer vestígio de humanidade. Acordei com a luz cinzenta de uma São Paulo nublada invadindo o quarto. A umidade da capital parecia subir pelas encostas do Morumbi, abraçando a estrutura modernista onde eu estava confinada.
Passei as primeiras horas da manhã sentada na beira da cama, encarando o sketchbook que Apollo deixara para mim. O papel de alta gramatura tinha um toque acetinado sob a ponta dos meus dedos, um contraste gritante com a aspereza da noite anterior. No loft de Marcus Vane, o ar era denso, saturado de fumaça e de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos meus braços se arrepiarem. Aqui, o ar era filtrado, estéril, mas não menos perigoso.
Peguei uma das canetas técnicas, uma 0,1 de precisão milimétrica. Como designer, eu sempre busquei a ordem no caos. Linhas, grades, hierarquias visuais. Mas como organizar o fato de que meu próprio irmão, o Leo — o mesmo que eu ajudei a esconder dos nossos pais quando ele chegava bêbado em casa — tinha me oferecido como uma moeda de troca para um psicopata de jaqueta de couro?
A porta do quarto, que antes eu ouvia ser trancada com um clique definitivo todas as noites, agora estava apenas encostada. Era uma liberdade vigiada, uma ilusão de autonomia que Apollo me concedera após o confronto no centro. Ele sabia que eu não tinha para onde ir. Fora daquelas paredes, eu era uma mercadoria com um preço alto demais.
Ouvi passos firmes no corredor de mármore. Eu conhecia aquela cadência. Era pesada, mas silenciosa, como a de um predador que não precisa se apressar porque sabe que a presa já está cercada. Apollo parou à porta, mas não entrou imediatamente. Ele esperou que eu levantasse os olhos do caderno.
— Você não tocou no café da manhã — ele observou, sua voz profunda cortando o silêncio como uma lâmina bem afiada.
— Perdi o apetite quando descobri que meu valor de mercado é equivalente a uma dívida de jogo e investimentos furados — respondi, tentando manter o tom de voz o mais seco possível, embora meu coração estivesse martelando contra as costelas.
Apollo entrou no quarto. Ele estava sem o paletó, com as mangas da camisa de linho branco dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e a borda de uma cicatriz que desaparecia sob o punho do relógio de luxo. Ele caminhou até a varanda, observando a neblina que engolia os prédios ao longe.
— O mundo não se importa com o que você sente sobre o seu valor, Maia. O mundo só se importa com o que você pode oferecer para manter a engrenagem girando. Vane viu em você um troféu. Eu vejo uma variável que ainda não aprendi a calcular.
Ele se virou para me encarar. Os olhos dele eram de um castanho tão escuro que pareciam absorver a pouca luz do ambiente.
— Por que me deu isso? — perguntei, levantando o sketchbook. — "Desenhe algo que não seja um alerta". O que isso significa?
— Significa que eu quero ver como o seu cérebro processa o mundo — ele deu um passo em minha direção, diminuindo o espaço entre nós. — Você disse que é feita de café e trauma. Eu quero ver o que acontece quando você canaliza esse trauma em algo que não seja medo.
— É difícil ser criativa com uma arma apontada para a nuca, mesmo que a arma esteja guardada no seu coldre — debochei, fechando o caderno com um estalo seco.
Apollo soltou um suspiro curto, algo que quase lembrava uma risada desprovida de humor.
— Vane enviou uma mensagem hoje cedo. Ele não ficou satisfeito com a nossa pequena demonstração de "etiqueta" ontem à noite. Ele está movimentando homens perto das Docas de Santos. Ele acredita que o Leonardo está tentando negociar uma saída por mar.
Senti um soco no estômago. O Leo sempre teve essa mania de achar que o oceano lavaria seus pecados.
— E o que você vai fazer? — perguntei, a voz falhando por um segundo. — Vai matá-lo na frente de todo mundo?
— Se ele estiver lá, ele será interceptado. Mas o porto é um labirinto de metal e sombras. Vane tem olhos lá, e eu também tenho. O problema é que o seu irmão não é apenas um amador; ele é um amador desesperado. E pessoas desesperadas deixam rastros que pessoas comuns não conseguem ler.
Ele caminhou até a pequena mesa de cabeceira e pegou um tablet de última geração, estendendo-o para mim.
— O grupo de Vane, "A Matriz", utiliza uma rede de comunicação que eles consideram impenetrável. Eles se escondem atrás de uma estética de vanguarda. Eles têm uma galeria de arte digital no Itaim Bibi que serve como fachada para lavagem de dinheiro e troca de informações. Tudo o que eles postam, cada convite, cada peça de design, contém dados.
Peguei o tablet, as mãos levemente trêmulas. Na tela, o portfólio da galeria era uma explosão de cores saturadas, glitch art e tipografia brutalista. Era visualmente agressivo, exatamente como o dono.
— Você quer que eu analise o design deles? — perguntei, confusa.
— Quero que você procure o que está fora do lugar — ele explicou, inclinando-se sobre mim para deslizar o dedo pela tela, apontando para um cartaz de uma exposição futura. — Meus especialistas em TI, dizem que não há malware, não há código oculto nos servidores. Mas eu sei como o Vane pensa. Ele é um esteta pretensioso. Ele gosta de esconder coisas à vista de todos.
Aproximei o tablet do rosto. Meus olhos de designer começaram a escanear a imagem. Analisei o kerning da tipografia, as camadas de sobreposição de cores. E então, eu vi.
— Aqui — apontei para uma série de padrões de interferência no fundo, roxo neon. — Isso não é um erro de renderização. É esteganografia. Eles estão escondendo informações nos canais de cores. Se você separar o canal ciano do magenta nessas coordenadas exatas, vai encontrar um padrão de pixels que forma um código ou um mapa.
Apollo ficou em silêncio por um longo momento. A proximidade dele era sufocante; eu conseguia sentir o calor que emanava do seu corpo e o cheiro sutil de sândalo e tabaco. Ele não se afastou.
— Eu sabia que o seu olho veria o que as máquinas ignoram — ele sussurrou, sua voz vibrando perto do meu ouvido. — Você entende a estrutura. Você vê as rachaduras na perfeição visual dele.
— O que você quer, Apollo? — perguntei, virando o rosto para encará-lo. Nossos lábios estavam a poucos centímetros de distância. — Quer que eu seja sua estrategista visual? Quer que eu ajude você a caçar o meu próprio irmão?
— Quero que você sobreviva — ele disse, a expressão endurecendo novamente. — Se você encontrar o Leo primeiro através desses códigos, eu te dou a chance de falar com ele antes que os meus homens o peguem. Se você se recusar, e o Vane o encontrar antes... você sabe o que acontece. Ele não vai levá-lo para um quarto com lençóis de mil fios, Maia. Ele vai usá-lo para chegar até você e depois vai descartar os dois.
Eu engoli em seco, sentindo o peso daquela escolha. Eu estava sendo convidada a entrar no jogo de vez. Não mais como uma refém passiva, mas como uma engrenagem ativa na máquina de guerra de Apollo.
— Quais são as condições? — perguntei, minha voz agora fria e profissional, o modo "designer sob pressão" assumindo o controle.
— Você trabalha aqui, sob minha supervisão — ele disse, afastando-se finalmente e cruzando os braços. — Você terá acesso aos servidores da galeria através de uma conexão segura. Se você encontrar algo que indique a localização do Leonardo, você me informa imediatamente. Em troca, eu garanto que ele saia vivo do porto.
— E como eu sei que você não está mentindo? Você é o "Monstro" de São Paulo, lembra?
Apollo deu um meio sorriso, algo que não chegou aos seus olhos.
— Monstros não precisam mentir, Maia. A verdade geralmente é assustadora o suficiente.
Ele caminhou até a porta, parando antes de sair.
— O café vai ser servido em dez minutos na biblioteca. Trarei o restante do equipamento. Não me faça arrepender de ter te dado uma caneta em vez de algemas.
Quando ele saiu, eu me deixei cair de volta na cama, o tablet ainda aceso em minhas mãos. O rosto de Marcus Vane na tela parecia zombar de mim. Eu olhei para o sketchbook e para o desenho que eu tinha começado sem perceber. Não eram formas geométricas. Era o esboço da mandíbula de Apollo, uma linha dura e implacável que eu tinha traçado com uma precisão assustadora.
Eu estava começando a entender a gramática visual daquele mundo. Sangue, neon, traição e uma lealdade distorcida que eu não conseguia explicar.
Levantei-me e caminhei até o espelho. A garota de classe média, formada em Design pela FAU, ainda estava lá, mas seus olhos pareciam diferentes. Mais afiados. Mais escuros.
— Tudo bem, Apollo — murmurei para o reflexo. — Vamos ver quem tem a melhor composição.
Fui para a biblioteca. O capítulo da minha vida como designer de logotipos e paletas de cores pastéis tinha acabado. Eu agora estava desenhando o mapa de uma guerra, e a cor principal era o vermelho — o vermelho do neon de Vane e o vermelho que Apollo estava disposto a derramar para manter o tabuleiro sob seu controle.
Ao entrar na biblioteca, encontrei Apollo sentado à cabeceira de uma mesa de carvalho maciço, cercado por monitores que exibiam o feed de segurança do porto de Santos. Ele me olhou e empurrou uma xícara de café preto em minha direção.
— O briefing mudou, Maia — ele disse, apontando para uma das telas onde um caminhão suspeito entrava em um armazém. — Agora, você é os meus olhos.
Peguei a xícara, o calor do líquido aquecendo minhas mãos frias.
— Vamos ao trabalho, então.
O jogo tinha começado de verdade, e eu temia que, ao final dele, não sobrasse nenhuma cor em mim que não fosse cinza.

หนังสือแสดงความคิดเห็น (91)

  • avatar
    MaffieMaria

    Achei linda a história de amor dos dois

    1d

      0
  • avatar
    Ninja

    isso é maravilhoso!

    1d

      0
  • avatar
    Maria Eduarda

    muito bom msm

    4d

      0
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