O carro deslizava pelas ruas de São Paulo como um predador silencioso. Eu olhava para o perfil de Apollo, tentando decifrar o que se passava por trás daquela máscara de frieza. Ele disse que íamos conhecer a "concorrência", e pelo tom de voz dele, não era para um happy hour amigável com troca de cartões de visita. — Quem são eles? — perguntei, quebrando o silêncio que já estava me dando agonia. — E por "eles", quero dizer as pessoas que não têm o seu senso de moda impecável, mas têm armas. Apollo não tirou os olhos da janela. — O grupo se chama "A Matriz". Eles são novos, agressivos e não têm o menor respeito pela hierarquia estabelecida. O líder é um homem chamado Marcus Vane. Ele acha que o mundo é um tabuleiro de xadrez, mas esquece que eu sou o dono do tabuleiro. — Marcus Vane. Nome de vilão de filme adolescente — debochei, embora minhas mãos estivessem suando. — E o que o meu irmão tem a ver com esse cara? — O Leonardo tentou "diversificar os investimentos". Ele pegou dinheiro comigo, mas também tentou negociar com o Vane. Ele jogou nos dois lados, Maia. E no nosso mundo, quem joga nos dois lados acaba sendo esmagado no meio. Engoli em seco. O Leo não era apenas um "cabeça de vento", ele era um suicida com um otimismo patológico. O carro parou em frente a um prédio comercial antigo no centro, daqueles que têm fachadas de vidro fumê descascando e uma aura de decadência industrial. Não era o luxo minimalista do Apollo. Era sujo, barulhento e cheirava a fumaça de cigarro barato e asfalto molhado. — Fique perto de mim. Não se afaste nem um centímetro — Apollo ordenou, sua voz agora um comando absoluto. — E custe o que custar, não deixe transparecer que você está com medo. O medo é o que eles usam para medir o quão fundo podem enfiar a faca. — Medo? Eu sobrevivi a três anos de faculdade de Design com professores que reprovavam por causa de um milímetro de margem errada. Eu sou feita de café e trauma, Apollo. Estou pronta. Ele me olhou, e por um breve segundo, vi um brilho de algo que parecia admiração — ou talvez fosse apenas pena da minha loucura. Subimos por um elevador de carga que rangia a cada andar. Quando as portas se abriram, o cenário mudou completamente. Era um loft imenso, decorado com luzes de neon roxas e verdes que feriam meus olhos treinados para a harmonia cromática. O som de um techno industrial batia contra as paredes, e o lugar estava cheio de gente que parecia ter saído de um videoclipe distópico. No fundo do loft, sentado em uma poltrona de couro sintético descascada, estava Marcus Vane. Ele era o oposto de Apollo: usava uma jaqueta de couro cheia de zíperes, tinha o cabelo platinado e um sorriso que me lembrou um tubarão em um aquário pequeno demais. — Apollo! — Vane gritou, levantando-se. — Que surpresa ver o "Monstro" saindo da sua toca de ouro para visitar a plebe. E trouxe uma acompanhante... Que escolha interessante! Ela não parece o seu tipo usual de "modelo de passarela morta por dentro". Apollo não sorriu. Ele parou no meio da sala, e seus seguranças se posicionaram como estátuas de granito atrás de nós. A mão dele pousou levemente na minha cintura, um gesto que parecia protetor, mas também marcava território. — Vamos pular as formalidades, Vane — disse Apollo. — Você sabe por que estou aqui. O Leonardo. Vane deu uma risada alta, aguda. — Ah! o gênio das finanças! Ele me deve uma pequena fortuna, sabia? E o mais engraçado é que ele me disse que a irmã dele seria a solução para todos os meus problemas. Senti meu sangue congelar. Meus olhos se arregalaram e eu olhei para Apollo, que apertou levemente minha cintura, pedindo calma. — O Leonardo não tem autoridade para negociar nada — Apollo disse, a voz subindo um tom, tornando-se perigosamente profunda. — A garota está sob minha custódia. Ela é minha garantia. Se você tocar em um fio de cabelo dela, ou se tentar usá-la como moeda de troca, eu vou transformar esse seu playground em um estacionamento. Vane se aproximou, ignorando o aviso. Ele me olhou de cima a baixo, e o cheiro de bebida e energético que emanava dele me fez querer dar um passo atrás. — Ela é bonitinha — Vane comentou, esticando a mão para tocar no meu rosto. Antes que ele pudesse encostar na minha pele, o movimento foi tão rápido que eu mal consegui processar. Apollo segurou o pulso de Vane com uma força que fez os ossos do outro homem estalarem. O som do techno pareceu sumir, substituído pelo som de armas sendo destravadas de ambos os lados. — Eu fui claro? — Apollo perguntou, quase num sussurro. — Ela. É. Minha. — Tudo bem, tudo bem! — Vane disse, puxando o braço de volta quando Apollo o soltou. Ele massageou o pulso, o sorriso de tubarão agora transformado em um esgar de ódio. — Mas a dívida não desaparece, Apollo. Se o Leonardo não aparecer, eu vou querer a minha parte. E eu não aceito "garantias" que ficam sentadas tomando café no seu terraço. — Você terá o que é seu quando eu decidir. Até lá, mantenha seus cães longe do meu território. Apollo deu meia-volta, me puxando com ele. Saímos dali sob o olhar de dezenas de homens armados. O ar no elevador parecia mais leve, mas meu coração ainda estava tentando sair pela boca. Quando chegamos ao carro, o silêncio durou apenas até a porta fechar. — O que foi aquilo?! — eu explodi, a adrenalina finalmente saindo em forma de gritos. — "Ela é minha"? "Sob minha custódia"? Eu não sou um pacote de entrega, Apollo! E o que o Vane quis dizer com o Leo ter dito que eu era a solução? Apollo suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele parecia subitamente exausto, o que era mais assustador do que sua versão "Monstro". — O seu irmão é mais perigoso do que eu pensava, Maia. Não porque ele é forte, mas, porque ele é desesperado. Ele tentou te vender para o Vane como uma forma de quitar a dívida antes mesmo de eu te buscar. Senti um soco no estômago. O Leo... meu irmão, o cara que eu ajudei a pagar o aluguel tantas vezes... ele tinha me usado como bucha de canhão. — Eu te busquei primeiro para te proteger — continuou Apollo, voltando a me olhar. — Se você estivesse com o Vane agora, você não estaria em um quarto de hóspedes com lençóis de mil fios. Você estaria em algum porão sendo usada para mandar vídeos de resgate para os seus pais. Eu me encolhi no banco. A realidade da situação caiu sobre mim como uma tonelada de tijolos. Eu não era apenas uma "sombra". Eu era uma sobrevivente em meio a uma guerra de egos e dinheiro. — Por que você se importa? — perguntei, a voz baixa. — Você podia ter me deixado lá. Podia ter deixado o Vane me levar e focado em caçar o Leo. Apollo se inclinou para perto, o espaço confinado do carro tornando a tensão quase insuportável. Ele estendeu a mão e, dessa vez, eu não recuei. Ele afastou uma mecha de cabelo do meu rosto com uma delicadeza que não combinava com as mãos que quase quebraram o pulso de Vane minutos atrás. — Porque você é a única coisa colorida em um mundo que eu só vejo em cinza e sangue, Maia. E eu não gosto que mexam nas minhas coisas. Principalmente naquelas que eu ainda não terminei de entender. Ficamos ali, nos encarando, enquanto o carro nos levava de volta para a fortaleza dele. Eu sabia que deveria odiá-lo. Ele era um criminoso, um sequestrador, um homem que resolvia tudo com violência. Mas, naquele momento, em meio ao caos que o meu próprio irmão criou, Apollo parecia o único porto seguro. E foi aí que eu percebi o perigo real. Não era o Vane, não era a máfia, não era a dívida. Era o fato de que o meu "Monstro" estava começando a parecer o herói da minha história distorcida. — Apollo? — chamei, quando estávamos quase chegando. — Sim? — Se o Leo aparecer... o que você vai fazer com ele? Ele não respondeu imediatamente. Ele colocou os óculos escuros novamente, escondendo seus pensamentos de mim. — Reze para ele não aparecer agora, Maia. Reze para ele ficar escondido por muito tempo. Chegamos à mansão. Quando entrei no meu quarto, a porta foi trancada como de costume. Mas desta vez, eu não bati na madeira. Eu apenas me sentei na cama e chorei. Chorei pelo Leo, chorei pela minha vida de designer que parecia ter ficado em outra dimensão, e chorei porque, pela primeira vez na vida, eu não tinha a menor ideia de como terminar esse layout. No meio do choro, notei algo em cima da mesinha de cabeceira. Era um pequeno sketchbook de papel de alta gramatura e um conjunto de canetas técnicas profissionais. Havia um bilhete pequeno, com uma caligrafia firme e elegante: "Desenhe algo que não seja um alerta. Eu quero ver as outras cores." Limpei as lágrimas e peguei a caneta. O Monstro tinha um lado curador de arte.
Achei linda a história de amor dos dois
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0isso é maravilhoso!
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0muito bom msm
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