O trajeto de volta pro escritório foi o oposto daquela carona suave de dias atrás. O silêncio no carro agora era pesado, cortante. O Mateus dirigia com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante, enquanto a Camila olhava pro celular, vendo a notícia da suspensão da patente já começando a pipocar nos blogs de tecnologia de São Paulo. — Aquela cobra... ela planejou tudo, né? — Camila soltou, a voz tremendo de ódio. — Ela foi na festa só pra ver a gente cair. — O pai dela é um dos dinossauros do setor, Camila. — Mateus respondeu, sem tirar os olhos da estrada. — Eles não aceitam que alguém de fora, como eu, ou alguém "sem pedigree", como você, mude as regras do jogo. A liminar é só o começo. Eles querem a fórmula do polímero. — Eles não vão ter! — Ela bateu a mão no painel. — É meu trabalho, minha vida! Eles chegaram na empresa à meia-noite. O prédio, que deveria estar vazio, estava com o andar da diretoria todo aceso. O jurídico já estava lá, uma tropa de advogados de terno cinza que pareciam não sorrir desde 1998. — Mateus, a situação é feia. — O advogado principal, um cara com cara de poucos amigos chamado Dr. Haroldo, jogou uma pasta na mesa. — Eles apresentaram um registro de patente de uma fibra similar de três anos atrás. É uma cópia descarada, mas os termos técnicos são vagos o suficiente pra travar a gente por meses na justiça. — Meses? — Camila interveio, entrando na sala de reuniões. — Os alemães não vão esperar meses! O contrato diz que a produção começa em duas semanas. Dr. Haroldo olhou pra ela por cima dos óculos, com aquele desdém típico de quem acha que designer só serve pra escolher cor de cortina. — Exatamente, mocinha. Se a produção não começar, o Mateus paga uma multa que quebra a Vergueiro Inovação. Mateus caminhou até a janela, olhando as luzes da cidade. Ele parecia estar calculando mil jogadas ao mesmo tempo. O "gênio" estava no modo processamento máximo. — Haroldo, sai. Quero falar com a Camila. — Ele ordenou, sem se virar. — Mas Mateus, precisamos decidir a estratégia de... — SAI! — O grito dele ecoou pela sala, fazendo todo mundo dar um pulo. Quando a porta fechou, o silêncio voltou a reinar. Camila se aproximou dele, devagar. — Mateus... a gente vai dar um jeito. Eu posso refazer a estrutura molecular. Se eu mudar o componente de ligação, a patente deles cai por terra. Ele se virou, e o que ela viu nos olhos dele não era raiva, era medo. Um medo profundo de perder tudo o que ele construiu pra provar pro mundo que ele era alguém. — Não dá tempo, Camila. Refazer isso levaria meses de laboratório. Eles ganharam. — Ele sentou na mesa, derrotado. — Eu devia ter te mantido longe disso. A Beatriz me avisou que ia te destruir se eu não voltasse pra ela. Camila travou. O "HatersToLovers" deu um solavanco. — Espera aí... ela te chantageou? E você não me disse nada? — Eu achei que podia controlar! Eu sempre controlo tudo! — Ele levantou, começando a andar de um lado pro outro. — Mas com você... as variáveis não batem. Eu me distraí. Aquele beijo na varanda... foi a minha ruína. Aquilo foi como um tapa na cara da Camila. Então, pra ele, o que eles tinham era uma "distração"? Uma "ruína"? — Ah, entendi. — Ela deu um passo atrás, sentindo o orgulho ferido. — Então a culpa é minha? A culpa é da "menina do interior" que te fez esquecer de ser o CEO frio e calculista? — Não foi o que eu quis dizer! — Foi exatamente o que você disse! — O "contra-ataque" dela veio com tudo. — Quer saber, Mateus? Fica aí com a sua empresa e seu medo de perder o controle. Eu vou pro laboratório. E eu não vou sair de lá até que aquele tecido seja tão diferente da patente deles que até um juiz cego consiga ver. — Camila, é impossível! — "Impossível" é uma palavra que eu não trouxe na mala quando vim pra São Paulo! — Ela pegou a bolsa e saiu da sala batendo a porta com tanta força que um dos quadros caros da parede ficou torto. Ela desceu pro laboratório. O lugar estava escuro, silencioso. Ela ligou as luzes e encarou as máquinas. Ela estava exausta, o vestido de gala ainda estava no corpo, mas ela não ligava. Pegou uma tesoura, cortou a barra do vestido pra conseguir se movimentar melhor e prendeu o cabelo com um pedaço de fio elétrico. — Vamos lá, Aurora. Mostra pra esses engravidados quem é que manda aqui. As horas passaram. Uma da manhã, duas, três... Camila estava cercada de béqueres, microscópios e amostras de fibra. Ela estava tentando uma síntese cruzada que tinha lido num artigo japonês obscuro. Se desse certo, o tecido não só mudaria de cor, mas se tornaria impermeável e resistente a rasgos, algo que a patente da Beatriz nem sonhava. Lá pelas quatro da manhã, a porta do laboratório abriu devagar. Era o Mateus. Ele tinha tirado o terno, estava só de camisa branca com os botões abertos e trazia dois copos de café de máquina. — Eu trouxe reforços. — Ele disse, a voz baixa, humilde. Camila nem olhou pra cima. — Veio me dizer que eu tô perdendo meu tempo? Ele caminhou até ela e colocou o café na bancada. — Vim te dizer que eu sou um idiota. — Ele suspirou. — Você não é a minha ruína, Camila. Você é a única coisa real que me aconteceu em anos. Eu fiquei com medo de te perder pra esse jogo sujo e acabei sendo o cara que eu mais odeio. Ela parou o que estava fazendo e olhou pra ele. Ele estava acabado, mas tinha uma verdade nos olhos dele que ela não podia ignorar. — O café tá horrível? — Ela perguntou, com um meio sorriso. — Pior que o pão na chapa. — Ele sorriu de volta. — Me deixa ajudar? Eu sou bom em cálculo térmico. Talvez a gente consiga estabilizar essa reação se mudarmos a frequência da corrente. — Senta aí, "gênio". Mas ó, se você falar de lucro ou de controle nos próximos dez minutos, eu te jogo no tanque de polímero. Eles trabalharam juntos o resto da madrugada. O "casal de força" estava operando em modo de sobrevivência. Mateus nos cálculos, Camila na intuição têxtil. Era uma dança perfeita de mentes que se completavam. Quando os primeiros raios de sol começaram a bater nos prédios da Vila Olímpia, a máquina de testes deu um sinal sonoro. BIP! — Estabilizou! — Camila gritou, pulando no pescoço do Mateus sem pensar. Ele a segurou pela cintura, girando-a no ar. A alegria era tanta que eles esqueceram as brigas, a Beatriz e a liminar. — A gente conseguiu, Camila! Esse material é superior em 40% a qualquer coisa que exista no mercado. A patente deles agora é lixo tecnológico! Ele a colocou no chão, mas não a soltou. O rosto dele estava a milímetros do dela. O cheiro de café e laboratório era o melhor perfume do mundo naquele momento. — Camila... eu não quero ser o cara que controla tudo. Eu quero ser o cara que constrói as coisas com você. — Então começa por não me esconder mais nada, Mateus. Nem chantage de ex, nem medo de fracasso. Em São Paulo, ou a gente joga junto, ou a gente é atropelado. — Juntos. — Ele prometeu, antes de selar o acordo com um beijo que tinha gosto de vitória e de um novo começo. Mas, enquanto eles se abraçavam no laboratório, o Dr. Haroldo entrou correndo, com o rosto pálido. — Mateus! Camila! Vocês precisam ver isso! A Beatriz... ela não foi só na justiça. Ela vazou os croquis da Camila pra uma marca de fast-fashion. As cópias baratas do seu vestido "Aurora" já estão sendo vendidas no Brás por cinquenta reais! O contra-ataque da vilã tinha sido mais sujo do que eles imaginavam. O "doce amor" ia ter que enfrentar a realidade brutal da pirataria e da lama corporativa.
que livro mais incrível...
5d
0Livro maravilhoso!
10d
0muito cheio de linguagem que só quem mora no estado sabe. acaba ficando chato
12d
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