A quinta-feira amanheceu com a empresa em polvorosa. Não era um dia qualquer: à noite rolaria o coquetel de gala para os grandes investidores da "TechStyle", a nova marca que unia os desenhos da Camila com a tecnologia do Mateus. O evento ia ser num rooftop luxuoso nos Jardins, com direito a vista de 360 graus da selva de pedra. Camila estava uma pilha. Ela tinha passado o dia inteiro ajustando o modelo principal que ela mesma ia desfilar: um vestido longo feito com o tecido "Aurora", que mudava de um prata discreto para um azul profundo conforme as luzes do ambiente batiam nele. — Amiga, você vai parar o trânsito da Paulista com esse look! — Lívia disse, entrando no camarim improvisado com dois copos de espumante. — O Mateus vai ter um treco quando te vir. — O Mateus só se importa se o tecido não der curto-circuito na frente dos alemães, Lívia. — Camila tentava disfarçar o nervosismo, mas o coração estava a mil. — Depois de ontem, no chão da sala dele... eu não sei mais o que esperar. — O "contra-ataque" dele foi limpar sua bochecha, né? Abre o olho, Camila! O "CEO gênio" tá caidinho e não sabe como lidar. O evento começou por volta das nove da noite. O lugar estava finíssimo: jazz ao vivo, garçons servindo canapés que pareciam obras de arte e o Mateus... bem, o Mateus estava um escândalo. Ele usava um terno de corte italiano que moldava perfeitamente os ombros largos, e o cabelo estava milimetricamente bagunçado. Ele era o puro "coolguy" de negócios. Quando a Camila apareceu no topo da escada, o burburinho na festa diminuiu. O vestido brilhava como uma constelação urbana. Mateus, que estava conversando com um banqueiro, travou no meio da frase. Ele ficou encarando ela como se estivesse vendo uma visão. — Tá vendo, truta? É disso que eu tô falando. — Camila sussurrou para si mesma enquanto descia, mantendo a pose de "mulher de negócios". Ela se aproximou dele, sentindo os olhares de todo mundo. — E aí, senhor Vergueiro? A tecnologia tá funcionando ou eu vou levar um choque no meio do salão? — Ela provocou, com aquele sorrisinho de lado. Mateus demorou dois segundos pra responder. Ele deu um gole longo no seu uísque. — Você está... aceitável, Camila. — Ele mentiu descaradamente, mas os olhos dele diziam que ela estava a coisa mais linda que ele já tinha visto. — O sensor de luminosidade está reagindo bem ao ambiente. Parabéns. — "Aceitável"? Você não ganha uma, né? — Ela riu, pegando uma taça de champanhe. Mas a vibe de "doce amor" foi cortada como uma tesoura afiada. Uma voz feminina, aguda e carregada de uma falsa simpatia, surgiu atrás deles. — Mateus, querido! Eu não sabia que você tinha começado a contratar modelos de passarela para serem suas... assistentes. Camila virou e deu de cara com uma mulher alta, loira, vestindo um vestido de grife que provavelmente custava mais que o seu primeiro carro. Ela tinha cara de quem tomava suco de limão puro no café da manhã e achava todo mundo inferior. — Beatriz. — O tom de voz do Mateus mudou na hora. Ficou frio, seco, como se o "homem de gelo" tivesse voltado com tudo. — O que você está fazendo aqui? Este é um evento privado. — Ah, sabe como é... meu pai ainda é um dos maiores acionistas dessa holding. — Ela olhou para a Camila com um desdém que fez o sangue da designer ferver. — Então, essa é a menina do interior que você está tentando transformar em designer? O tecido é interessante, mas o corte... um pouco amador, não acha? O salão pareceu ficar em silêncio por um segundo. Camila sentiu aquela vontade de soltar uma gíria bem pesada e mandar a "Barbie dos Jardins" catar coquinho, mas lembrou que era o futuro da sua carreira que estava em jogo. — O corte foi pensado para o movimento, Beatriz. — Camila deu um passo à frente, mantendo a elegância. — Algo que quem só entende de etiquetas talvez não consiga captar. Mas não se preocupa, a gente pode te mandar um catálogo de iniciantes depois. Beatriz arregalou os olhos, chocada com o "contra-ataque". Mateus deu um sorrisinho quase imperceptível. — A Camila é a mente criativa por trás de tudo isso, Beatriz. Sem ela, o projeto "Aurora" seria só um monte de fios sem alma. Agora, se nos der licença, temos investidores de verdade para atender. — Ele pegou no braço da Camila e a conduziu para longe, deixando a ex-namorada (sim, a Camila já tinha sacado que era ex) falando sozinha. Quando eles chegaram na varanda do rooftop, longe da multidão, Camila soltou o ar que estava prendendo. — Caraca, Mateus! Que mulherzinha mais uó! "Amador"? Ela quase me fez perder a linha. Mateus soltou uma risada, mas era uma risada amarga. — A Beatriz é parte do mundo que eu tentei construir pra me sentir aceito. Ela é o resumo de tudo o que eu odiava, mas achava que precisava ter pra ser alguém. — E agora? — Camila perguntou, olhando para as luzes da cidade lá embaixo. — Agora eu percebo que eu prefiro a "menina do interior" que me desafia a cada cinco minutos do que alguém que só concorda comigo pra manter as aparências. — Ele se virou pra ela, o clima ficando denso de novo. — Você tá sendo legal comigo de novo, Mateus. Isso é perigoso. — Ela brincou, mas sentia o frio na barriga. — Eu sei. — Ele deu um passo na direção dela, encurtando o espaço. O perfume dele, uma mistura de madeira e sândalo, deixou ela tonta. — Camila, desde aquele dia no bar, quando você me chamou de trator... eu não consigo parar de pensar que você é a única pessoa nessa cidade que não tem medo de mim. — E por que eu teria medo? Você é só um cara ranzinza com uma conta bancária gorda e um gosto duvidoso pra cerveja. — Ela sussurrou, sentindo a respiração dele perto do seu rosto. — É... talvez seja isso. O barulho da festa lá dentro parecia ter sumido. O vento soprava leve, bagunçando o cabelo da Camila. Mateus levou a mão ao rosto dela, mas dessa vez não foi pra limpar graxa. Ele acariciou a pele dela com o polegar, olhando no fundo dos olhos dela. — Eu devia te demitir por me deixar tão confuso. — Ele disse, a voz bem baixinha. — Tenta a sorte, "boss". — Ela desafiou. E então, sem mais avisos, ele a beijou. Não foi um beijo de filme, daqueles calmos. Foi um beijo com fome, com urgência, como se toda a briga e a tensão dos últimos dias tivesse explodido num toque só. Camila passou as mãos pela nuca dele, puxando-o para mais perto, enquanto o vestido "Aurora" brilhava intensamente, reagindo à aceleração do coração dela. Era o "HatersToLovers" atingindo o ponto de ebulição. Ali, no topo de São Paulo, o "casal de força" tinha acabado de declarar guerra ao bom senso. Mas, como nem tudo são flores, quando eles se separaram, sem fôlego, o celular do Mateus vibrou no bolso. Ele olhou a tela e a expressão dele mudou instantaneamente. — O que foi? — Camila perguntou, ainda meio aérea. — Problemas. — Ele disse, a voz voltando a ser de gelo. — A Beatriz não estava brincando. O pai dela acaba de entrar com um pedido de liminar para suspender a produção do tecido. Eles estão alegando que a patente pertence a uma das subsidiárias deles. Camila sentiu o chão sumir. — O quê? Mas eu criei aquilo do zero! — Eu sei. Mas no mundo deles, não importa quem cria, importa quem tem os melhores advogados. — Ele olhou pra ela, e por um momento, a fragilidade voltou. — Eles querem me destruir, Camila. E agora, eles vão usar você pra isso. O capítulo termina com os dois ali, na varanda de luxo, enquanto o sonho de sucesso parecia estar prestes a virar um pesadelo jurídico. A aventura estava só começando, e o contra-ataque agora teria que ser em conjunto. O clima de romance deu lugar a uma descarga de adrenalina pura. No topo daquele prédio chique, a ficha caiu: a Beatriz não era só uma ex-namorada mal resolvida, ela era o tubarão que queria engolir a pequena designer do interior e o império do Mateus.
que livro mais incrível...
6d
0Livro maravilhoso!
11d
0muito cheio de linguagem que só quem mora no estado sabe. acaba ficando chato
13d
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