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บทที่ 3 Entre Fios de Nylon e Faíscas de Ódio

A sala do Mateus era o puro suco da modernidade: tudo branco, cinza e vidro, com um cheiro de limpeza que chegava a arder o nariz. Camila se sentia um peixe fora d'água com seu lenço de seda colorido e seus brincos de argola, mas não arredou o pé. Ela sentou na cadeira de couro legítimo e encarou o "chefinho" com aquela cara de quem não deve nada pra ninguém.
— Então, "gênio", por onde a gente começa a estragar meus desenhos com a sua tecnologia? — Camila soltou, sem filtro nenhum.
Mateus parou de digitar e olhou por cima dos óculos. Ele deu aquela respirada funda, como se tivesse contando até dez pra não perder a linha.
— Primeiro: você não fala assim comigo aqui dentro. — Ele disse, com a voz baixa e perigosa. — Segundo: eu não vou estragar nada. Eu vou transformar sua arte em algo que sobreviva a um dia de chuva na Praça da Sé sem desmanchar.
— Minhas roupas sobrevivem muito bem, obrigada! O que elas não precisam é de um sensor de movimento que avisa quando a pessoa tá respirando.
— É aí que você se engana, Camila. A gente tá falando de wearables. Moda que interage. Imagina uma jaqueta que regula a temperatura conforme o corpo da pessoa ou que muda de cor de acordo com a luminosidade. Isso é o futuro, e você tá presa no século passado com esse seu papo de "sentimento".
— O futuro parece bem chato se não tiver um pingo de humanidade, né? — Ela rebateu, pegando um dos seus croquis da mesa. — Você olha pra isso e vê o quê? Um pedaço de pano? Eu vejo a confiança de uma mulher indo pra primeira entrevista de emprego.
Mateus se inclinou pra frente, apoiando os cotovelos na mesa de vidro. Ele ficou tão perto que a Camila conseguiu ver um pequeno corte de barba mal feita no queixo dele.
— Eu vejo um produto que pode custar cinco mil reais se tiver a tecnologia certa, ou cinquenta reais se for só mais uma blusinha de shopping. Qual você prefere ser? A designer que mudou a indústria ou a que faz "blusinha"?
Aquilo doeu. Foi um golpe baixo na alma de artista dela. Camila sentiu os olhos arderem, mas engoliu o choro e transformou em raiva pura.
— Eu prefiro ser a designer que não vendeu a alma pro lucro fácil. Mas já que você comprou a empresa e agora manda até no meu horário de almoço, vamos lá. O que você quer que eu faça?
Mateus pareceu surpreso com a rendição amarga dela. Ele relaxou os ombros e empurrou um tablet pra ela.
— Quero que você estude esses novos polímeros. Eles são maleáveis, leves e conduzem eletricidade sem aquecer. Quero que você desenhe três peças que usem esse material sem parecer que a pessoa saiu de um filme de ficção científica barato dos anos 80. Consegue fazer isso ou é muito "técnico" pra você?
— Eu faço até dormindo. Só não garanto que eu vá sorrir enquanto faço.
— O sorriso eu dispenso. Quero o projeto na minha mesa amanhã cedo. Agora, rala. Tenho uma reunião com investidores alemães e não posso ter uma "artista" choramingando na minha frente.
Camila levantou num susto, a cadeira quase virando.
— Eu não estou choramingando! E fica esperto, Mateus, porque esse seu jeito de "homem de gelo" ainda vai te fazer bater de frente com um muro bem alto. E eu vou estar lá pra ver.
— Vou anotar no meu caderninho de preocupações. — Ele ironizou, voltando a olhar pro tablet. — Fecha a porta quando sair.
Ela saiu batendo o pé, bufando tanto que a Lívia, que estava na máquina de café, quase se engasgou.
— E aí? Sobreviveu ao primeiro round com o "Doutor Destino"? — Lívia perguntou, rindo da cara de brava da amiga.
— Ele é um insuportável, Lívia! Um ogro tecnológico! Ele acha que tudo se resume a dinheiro e fibra ótica. Ele chamou meu trabalho de "blusinha"! Dá pra acreditar?
— Amiga, relaxa. O cara é um gênio, ele provoca pra ver até onde você aguenta. É o jeito dele de testar a equipe. Ele fez a mesma coisa no escritório de arquitetura dele e hoje os caras são os melhores do país.
— Pois ele que vá testar a paciência de outro! Eu vou fazer esse projeto tão bom, mas tão bom, que ele vai ter que engolir cada palavra ácida que disse.
Camila passou o resto do dia enfiada no laboratório de tecidos. O lugar era incrível, cheio de máquinas que ela nunca tinha visto na faculdade. Tinha impressoras 3D de tecido, lasers de corte e fios que pareciam teia de aranha de tão finos. Ela começou a mexer nos polímeros que o Mateus indicou.
No começo, ela odiou. O material era rígido demais, sem caimento. Mas conforme ela ia manipulando, testando tensões e misturando com fibras naturais, a mágica começou a acontecer. Ela percebeu que, se misturasse o polímero com seda, conseguia um brilho furta-cor que mudava conforme o movimento. Era... lindo.
A tarde virou noite. O escritório foi esvaziando, as luzes foram diminuindo, e Camila nem percebeu. Ela estava no chão, rodeada de retalhos, com o cabelo preso num coque desengonçado e uma caneta atrás da orelha.
— Ainda aqui? Pensei que as "artistas" dormissem cedo pra sonhar com unicórnios.
Ela deu um pulo. Mateus estava na porta do laboratório, sem o paletó, com as mangas da camisa dobradas e o cabelo mais bagunçado que o normal. Ele parecia cansado, com olheiras profundas.
— O que você tá fazendo aqui? — Ela perguntou, tentando esconder o entusiasmo com o tecido novo.
— Eu sou o dono, esqueceu? Eu moro aqui praticamente. — Ele entrou e sentou num banco alto. — O que é isso aí no chão?
— É o que você pediu. Mas melhorado. — Ela estendeu um pedaço do tecido misto. — Olha o que acontece quando eu estico.
Ela puxou a fibra e o tecido passou de um cinza fosco pra um azul elétrico vibrante. Mateus ficou em silêncio por um longo tempo. Ele pegou o tecido da mão dela, sentindo a textura.
— Como você fez isso? Eu tentei misturar esses componentes no mês passado e eles quebraram.
— Você tentou usar lógica. Eu usei intuição. — Ela disse, com um sorrisinho vitorioso. — Eu dei um banho de vapor orgânico antes de tecer. Isso deu elasticidade pro polímero se adaptar à seda.
Mateus olhou pra ela de um jeito diferente. Não era mais aquele olhar de deboche ou de superioridade. Era reconhecimento. Um gênio reconhecendo outro.
— É... nada mal, Camila. Nada mal mesmo.
— "Nada mal"? Isso aqui é revolucionário, Mateus! Assume logo que eu sou boa no que faço.
Ele deu um risinho curto, quase humano.
— Você é irritante, teimosa e barulhenta. Mas você é boa. Talvez a gente consiga fazer alguma coisa que preste juntos.
— "Talvez"? Eu já estou fazendo! Agora, se me der licença, eu vou pra casa porque minhas costas estão me matando e eu ainda tenho que aguentar o metrô lotado.
Mateus olhou pro relógio. Já passava das onze da noite.
— Deixa de ser teimosa. Eu te levo. O metrô essa hora é perigoso e você tá carregando essa bolsa que vale um caminhão de lixo de tanto peso.
— Não precisa, eu me viro.
— Camila, entra no carro. É uma ordem do seu chefe. Ou um convite do cara que derrubou sua cerveja. Você escolhe.
Ela olhou pra ele, pensou na caminhada até a estação e no cansaço acumulado.
— Tá bom. Mas não pense que isso muda as coisas. Você ainda é um chato.
— E você ainda é uma dondoca de interior. — Ele piscou.
Eles caminharam até o estacionamento em silêncio. O carro dele era um esportivo elétrico que nem fazia barulho. Enquanto cruzavam as ruas desertas de São Paulo, Camila olhava pela janela, vendo as luzes da cidade passando rápido.
— Por que você é assim, Mateus? — Ela perguntou, de repente. — Por que essa armadura de gelo o tempo todo?
Ele demorou pra responder. Manteve os olhos na estrada, as mãos firmes no volante.
— Quando você cresce sem nada, Camila, em um orfanato onde cada brinquedo é uma disputa, você aprende que a única coisa que ninguém pode tirar de você é o que você constrói com a sua cabeça. O resto... o resto é passageiro. Sentimentos são variáveis que eu não posso controlar. E eu odeio perder o controle.
Camila sentiu um aperto no peito. O "coolguy" tinha uma cicatriz que ela nem imaginava.
— Às vezes, perder o controle é a única forma de ganhar alguma coisa de verdade. — Ela sussurrou.
Ele não respondeu, mas diminuiu a velocidade. O silêncio no carro não era mais desconfortável. Era como se, no meio daquela selva de pedra, dois corações solitários tivessem finalmente encontrado um sinal de rádio comum.
Quando ele parou na frente do prédio dela, o clima mudou.
— Entregue, estilista. Amanhã às oito na minha sala. Não se atrase.
— Pode deixar, arquiteto. — Ela abriu a porta, mas parou e olhou pra ele. — Valeu pela carona. E pela... conversa.
— Boa noite, Camila.
Ela subiu pro apartamento com a cabeça a mil. O ódio ainda estava lá, mas tinha outra coisa começando a brotar. Algo perigoso, intenso e completamente fora do script dela. O "doce amor" estava começando a se misturar com o "romance de escritório", e o contra-ataque da Camila agora era contra o seu próprio coração.

หนังสือแสดงความคิดเห็น (94)

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    SousaLuana

    que livro mais incrível...

    7d

      0
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    Vitoriamaria

    Livro maravilhoso!

    12d

      0
  • avatar
    CarneiroGabriele

    muito cheio de linguagem que só quem mora no estado sabe. acaba ficando chato

    15d

      0
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