O sol tava tentando dar as caras por trás daquelas nuvens cinzas e pesadas, mas em Winter a parada é outra, né? O frio não pede licença, ele chega chutando a porta. Depois daquela cena na biblioteca, onde a Aurora soltou o verbo e admitiu que o sumiço do Jacob tava deixando ela agoniada, o clima no castelo ficou... esquisito. Não um esquisito ruim, mas tipo quando você sabe que o bagulho mudou e não tem mais volta. Aurora acordou com aquela sensação de "vixe, falei demais". Ela se revirou nos lençóis de pele, olhando pro teto de pedra do quarto, enquanto a neve batia na janela fazendo um barulho suave. — Caraca, eu sou muito tonta mesmo. — resmungou Aurora, afundando a cara no travesseiro. — Falou o quê, maninha? — a voz da Luna brotou do nada, já que a pequena tinha o costume de invadir o quarto da irmã antes mesmo dos guardas trocarem o turno. Aurora deu um pulo na cama, com o coração saindo pela boca. — Pô, Luna! Quer me matar do coração, guria? Que mania de entrar no quarto dos outros parecendo um fantasma, tá maluca? A menina de seis anos deu um sorriso banguela e subiu na cama com tudo, toda cheia de energia pra quem tinha acabado de acordar. — Você tava falando sozinha de novo. O papai disse que quem fala sozinho tá conversando com os gnomos da parede. É verdade? — É mentira do papai, Luna. Agora desce daí e vai ver se a Dona Benta já fez aquele pão com mel que você gosta. Eu preciso me arrumar. — Tá bom, mas o Jacob já tá lá embaixo treinando com o tio Rowan! Ele fez uma bola de luz que estourou e soltou um cheiro de canela! — a pequena saiu correndo, batendo a porta com força. Aurora suspirou. Não tinha jeito, o guri da magia tava em todo lugar. Ela se vestiu com as roupas de lã mais grossas que achou, colocou uma capa branca que fazia ela parecer uma nuvem e desceu as escadas. No salão principal, o Rei Louis IX tava sentado na ponta da mesa, reclamando com um dos criados porque a coroa dele tava gelada demais. — Escuta aqui, ô meu chapa, eu sou o Rei, não um boneco de neve! Vê se coloca essa coroa perto da lareira por cinco minutos antes de me entregar. Minha cabeça não é freezer não, tá ligado? — o Rei falava com aquele tom de quem se acha o último biscoito do pacote, mas com um brilho de deboche no olho. — Bom dia, majestade. — disse Aurora, chegando na mesa e pegando uma maçã. — Bom dia, minha joia! Olha só que beleza de filha eu tenho. Branca igual essa neve lá fora, mas com esse gênio que só Deus sabe de onde veio. — Louis deu uma risada alta e apontou pro lado de fora. — O seu "miguinho" mágico já tá lá no pátio, viu? O pai dele tá dando um ralo nele que tá dando até pena de ver. O garoto tá mais suado que tampa de chaleira no frio. — Ele não é meu amiguinho, pai. Ele é só... o filho do Rowan. — Aurora tentou fazer a linha desinteressada, mas a bochecha rosada não ajudava muito. — Aham, sei. E eu sou um plebeu que mora numa caverna. — o Rei piscou pra ela. — Vai lá ver o treino deles, aproveita e avisa que eu quero o Rowan aqui daqui a pouco. Preciso discutir uns bagulhos do mercado de inverno que tá vindo aí. Aurora nem esperou o pai terminar de falar e já foi saindo. O pátio tava forrado de neve, e o ar tava tão gelado que cada respiração parecia um spray de gelo saindo da boca. No meio do pátio, Jacob tava com as mãos estendidas, tentando manter uma pequena chama azul flutuando no meio do vento. O Rowan tava do lado dele, com uma cara de quem não tava achando graça nenhuma. — Concentra, Jacob! Se o vento apaga sua chama, o inimigo apaga sua vida, rapaz! Para de olhar pras nuvens e foca no bagulho! — gritava Rowan. Jacob tava com a testa franzida, o cabelo todo bagunçado e os dedos tremendo um pouco. Quando ele viu a Aurora chegando de canto de olho, a chama deu um estalo e sumiu. — Ah, qual é, pai! Não dá pra focar com você gritando no meu ouvido igual um sargento! — reclamou Jacob, limpando o suor da testa com a manga da túnica. Rowan viu a princesa e deu um sorrisinho de lado, já sacando a jogada. — Tá bom, tá bom. Vou lá falar com o Rei, que ele já deve estar querendo me pedir alguma futilidade nova. Treina aí o controle, Jacob. E vê se não coloca fogo no castelo enquanto eu não volto. O mago mais velho passou pela Aurora, fez uma reverência de brincadeira e sumiu lá pra dentro. Jacob ficou ali, parado no meio da neve, olhando pra Aurora com aquela cara de quem não sabia se pedia desculpa por ontem ou se fingia demência. — E aí, Aurora. Sobreviveu ao frio da biblioteca? — ele perguntou, tentando soar descontraído, mas a voz saiu meio falha. — Eu que te pergunto. Tu sumiu o dia todo e depois apareceu com aquela cara de quem tinha sido atropelado por uma carruagem. — ela se aproximou, parando a um metro dele. Jacob deu um sorriso torto, aquele que fazia o coração da Aurora dar uma sambada. — É que as vozes tavam chatas ontem, sabe? Muita informação na cabeça. Mas ó, valeu pelo que tu disse. De verdade. Ninguém nunca tinha me falado que eu não precisava fingir nada. — É que tu é muito otário às vezes, Jacob. Fica tentando carregar o mundo nas costas e esquece que tem gente aqui. — ela deu de ombros, olhando pro chão. — É, eu sei. Sou meio devagar com essas paradas. — ele deu uns passos na direção dela. — Mas e aí, o que tu vai fazer hoje? O mercado de inverno tá começando a montar as barracas lá embaixo na vila. Tá a maior zona, mas tem uns doces lá que são brabos. — Meu pai quer que eu fique aqui pra organizar as flores do salão, mas... — ela olhou pro castelo e depois pra ele. — Se a gente for rápido, ele nem percebe. — Ih, a princesa tá querendo fugir do castelo? Que feio, Aurora! O que o povo vai falar? — ele deu uma risada gostosa, provocando. — Cala a boca, Jacob! — ela riu também, dando um tapinha no braço dele. — Vamos logo antes que eu mude de ideia e te deixe aqui treinando com seu pai gritando no seu ouvido. Os dois saíram de fininho pelo portão lateral, onde os guardas já nem ligavam mais, porque sabiam que a princesa era teimosa e o filho do mago era o único que aguentava o pique dela. Eles foram descendo a colina em direção à vila de Winter. O caminho tava todo branquinho, e as árvores pareciam esculturas de cristal. — Sabe, Aurora... — Jacob começou a falar enquanto tentava não escorregar numa placa de gelo. — Às vezes eu fico pensando se esse frio todo aqui é pra esconder as coisas da gente. Tudo fica igual debaixo da neve, né? — Tu tá muito filosófico hoje, hein? Deve ser falta de açúcar. — ela brincou, mas no fundo entendeu o que ele quis dizer. — É sério, pô! Se eu enterrar um tesouro aqui, daqui a cinco minutos ninguém mais acha. A neve cobre tudo. As dores, os segredos... tudo. — Mas a neve derrete, Jacob. — ela parou e olhou pra ele, séria por um instante. — E quando derrete, o que tava escondido aparece mais forte. Não adianta tentar tapar o sol com a peneira, ou a terra com gelo. Jacob ficou olhando pra ela, meio hipnotizado. Aquela garota de pele de porcelana tinha umas saídas que deixavam ele sem rumo. — É, tu tem razão. Como sempre. — ele coçou a nuca, meio sem jeito. — Óbvio que eu tenho! Agora bora, que eu tô sentindo cheiro de canela e maçã assada daqui. Se a gente não chegar logo, o povo da vila vai comer tudo. — Caraca, tu só pensa em comida, Aurora! Tá parecendo o seu pai quando vê um pernil na mesa! — Respeita meu apetite, garoto! Em Winter, quem não come morre de frio, tá ligado? Eles continuaram o caminho rindo e trocando empurrões bobos, parecendo duas crianças que não tinham uma coroa ou um cajado mágico pra se preocupar. Mas lá no fundo, cada vez que as mãos deles se esbarravam "sem querer", uma descarga elétrica passava por ali. Jacob sentia que o poder dele ficava mais estável perto dela. Aurora sentia que o mundo não era tão cinza quando ele tava por perto. Era o começo de algo que ia dar o que falar naquele reino gelado. — Tomara que o Rei não me mande pra guilhotina se descobrir que eu te sequestrei pra comer doce. — resmungou Jacob, rindo. — Relaxa, místico. Se ele tentar, eu digo que você usou um feitiço de confusão mental em mim. Ele acredita em qualquer coisa que venha do Rowan. — Valeu pela confiança, hein! — ele ironizou, mas tava com um sorriso de orelha a orelha. Winter podia ser escura e fria, mas ali, naquele rolê aleatório, o clima tava começando a esquentar de um jeito que feitiço nenhum conseguia explicar.
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