“E das cinzas... o amor deles erguerá um destino que nem os deuses ousariam escrever.” Na vigésima primeira noite após receber o anel, Celine acordou sobressaltada. Um estalo seco, como madeira se partindo, rasgou o silêncio da madrugada. Ela se ergueu na cama, o coração disparado. A torre estava mergulhada na escuridão. Nem a luz da lua atravessava as janelas, escondida atrás das nuvens pesadas. Foi quando ouviu passos. Rápidos, leves, furtivos. E então... o som metálico de algo raspando contra pedra. Seus olhos se arregalaram. A porta, que deveria estar trancada por fora, rangeu lentamente. Alguém a havia destrancado. — Quem está aí? — Sua voz saiu num sussurro trêmulo, enquanto recuava em direção à cama, tateando às cegas por qualquer coisa que pudesse usar como arma. Uma sombra deslizou pela abertura da porta. Alta. Esguia. Envolta num manto negro. Por um segundo, o brilho frio de uma adaga reluziu na mão do intruso. O pavor tomou conta do corpo de Celine. Ela gritou. Um grito agudo, cortante, que rasgou o silêncio como uma lâmina. A sombra avançou. Num movimento desesperado, Celine agarrou a bacia de água ao lado da cama e, com toda a força que possuía, lançou contra o agressor. O objeto atingiu-o na têmpora, fazendo-o cambalear para trás com um grunhido surdo. Ela não pensou duas vezes. Correu até a tapeçaria antiga que cobria a parede oposta. Seus dedos trêmulos puxaram o tecido, revelando, para sua surpresa, uma fresta na pedra, uma passagem estreita, escondida. Foi nesse momento que ouviu um segundo estalo. Um som vindo de trás da tapeçaria. Sem hesitar, mergulhou na escuridão da passagem. O invasor se recuperou e a seguiu. A escada em caracol parecia descer infinitamente, mergulhada na penumbra úmida. As paredes eram de pedra antiga, cobertas de limo. O cheiro de terra molhada e mofo se misturava ao som das próprias respirações, ofegantes, e ao eco dos passos. Ao fim da escada, um corredor estreito e sinuoso se abriu. Pequenas tochas apagadas estavam presas às paredes, como se aquele lugar tivesse sido usado... não há tanto tempo assim. Celine correu, tropeçando em pedras soltas, desviando de vigas caídas e pedaços de madeira apodrecida, até alcançar uma câmara circular. No centro, havia um altar de pedra, desgastado pelo tempo, coberto por inscrições ancestrais. Pilares quebrados e pedaços de teto desabados compunham o cenário. Ela se aproximou, ofegante, os dedos deslizando pelas marcas esculpidas. E então, congelou. — Eu já vi isso... — murmurou, estarrecida. — Nos arquivos do Instituto… O altar parecia vibrar sob seus dedos. A pedra sob sua mão pulsava, quente, viva. O som dos passos apressados do invasor ecoou pela entrada da câmara. Ele avançou, segurando a adaga. Mas, assim que pisou dentro do círculo esculpido no chão... uma rajada de vento invisível explodiu da base do altar, arremessando-o contra a parede. Seu corpo colidiu com força e caiu desacordado. Celine recuou, ofegante, olhando ao redor, o peito subindo e descendo num ritmo frenético. Foi quando um dos símbolos na parede começou a brilhar. Um círculo flamejante, com asas abertas. Ao lado, uma inscrição em uma língua que ela não conhecia, e, ao mesmo tempo, conhecia. Como se algo muito antigo tivesse sido despertado dentro dela. “Onde houver o eco do fogo eterno... a alma renasce.” Ela recuou um passo, sentindo a marca em suas costas arder violentamente. Estava, sem sombra de dúvida, dentro de um Templo da Fênix. Escondido sob aquela passagem secreta da corte. E, de alguma forma, aquele lugar... estava ligado a ela. *** Enquanto isso, no salão principal do palácio, o caos se instalava. Kaelan entrou como uma tempestade viva. O som de suas botas ecoava furioso sobre o mármore, e seu manto negro esvoaçava como as asas de um corvo. — Onde ela está? — sua voz reverberou, carregada de fúria. — Falem! Os guardas se entreolharam, hesitantes, pálidos. — D-disseram que... que a torre estava vigiada... — gaguejou um deles. — Estava. — A voz de Linhuá soou, tão afiada quanto uma lâmina. Ela surgiu entre os soldados, os olhos semicerrados, vibrando de preocupação. — Mas a tranca foi violada. E... — Ela respirou fundo — a concubina Meilin foi vista perto dos corredores da ala leste. E... com ela, um homem de manto escuro. O maxilar de Kaelan se contraiu. Sem perder um segundo, girou nos calcanhares. — Preparem os cães! Acendam todas as chamas dos muros. Quero cada maldita sombra deste palácio revistada! Vasculhem cada pedra, cada túnel, cada respiração! Um dos guardas, tremendo, ousou perguntar: — E... se... se ela estiver... morta? O príncipe se virou lentamente, os olhos mais negros que a própria noite, faiscando como brasas prestes a incendiar o mundo. — Se ela morrer... — sua voz desceu, grave, mortal — vocês verão o verdadeiro fogo da fênix queimar este reino. E começará... por vocês. O silêncio que se seguiu foi tão denso que até o vento pareceu fugir. Os soldados se espalharam em todas as direções, como formigas chutadas de um formigueiro. A busca começava. Mas Celine... já não estava no palácio. *** No corredor secreto, seus olhos encontraram uma segunda passagem, uma fenda na parede atrás do altar, quase imperceptível, selada por correntes antigas e uma tranca enferrujada. Ela tateou ao redor, desesperada, até que seus dedos encontraram uma pequena alavanca disfarçada entre os entalhes do pedestal. Então a puxou. As correntes se soltaram com um estalo seco. A porta de pedra rangeu, revelando um túnel apertado, úmido, mergulhado na escuridão. Sem pensar, esgueirou-se por ele, apertando o manto contra o corpo. Do outro lado... encontrava-se na encosta externa da muralha. Árvores retorcidas, cobertas de neve, emolduravam a saída. O vento cortante a atingiu como facas de gelo, fazendo seus dentes baterem e sua pele arder. O manto que Kaelan lhe deu estava agora encharcado de umidade, poeira e medo. Mas ela estava viva. Sozinha. Assustada. O anel em seu dedo ainda brilhava, pulsando uma luz âmbar que parecia guiá-la, mesmo na escuridão. A marca em suas costas queimava como brasas prestes a se transformar em fogo. E, dentro dela, uma voz. Um nome que não a deixava. — Althera… Era como se a própria terra chamasse por ela. Celine seguiu em frente. Passou por entre galhos cobertos de geada, desviando de raízes e pedras ocultas sob a neve. O frio parecia mordê-la, rasgando sua pele. Seus pés doíam, as pernas tremiam. Cada respiração formava nuvens brancas no ar gélido. Até que não aguentou mais. As pernas cederam, e ela tombou de joelhos junto a uma árvore de tronco grosso, envolto em musgo branco como neve velha. Estava ofegante. Exausta. E então... ouviu passos. Não eram passos pesados, como de soldados. Nem furtivos, como os do agressor. Eram firmes, seguros. De quem conhecia aquela floresta como a palma da mão. Um vulto surgiu entre os troncos. Alto. Ombros largos. Cabelos escuros presos por uma tira de couro, e olhos âmbar, dourados como fogo líquido. Nas mãos, um bastão talhado com símbolos antigos. Ele parou, cruzando os braços, e a olhou de cima a baixo com uma expressão serena, quase divertida. — Acordou o altar. — disse, como se estivesse comentando sobre o clima. Celine ergueu o rosto, ainda arfando. — Q-quem... quem é você? Ele se abaixou, ficando na altura dela. Um sorriso tranquilo curvou seus lábios. — Meu nome é Eryas. Sou guardião da Ordem da Lenda. E você... — seus olhos faiscaram, intensos, misteriosos — ...é a escolhida que o tempo cuspiu de volta. *** Enquanto isso, no castelo, Kaelan caminhava como uma tempestade viva pelos corredores do palácio. No salão do conselho, todos os senhores de clãs estavam reunidos, inclusive Aric, sentado à esquerda da mesa, observando tudo com o olhar predatório de uma águia. E, à direita, Meilin, belamente vestida, o rosto lívido, disfarçando a inquietação por trás de um sorriso educado. O silêncio era tão tenso que podia ser cortado com uma lâmina. — Príncipe Kaelan, — começou o Conselheiro Ju Shen, com a voz pesada, porém neutra — esta reunião foi convocada por ordem de Sua Majestade ausente. Precisamos de esclarecimentos urgentes sobre o ocorrido esta noite. Kaelan parou no centro do salão. Seu olhar frio varreu a mesa. — A torre foi violada. — Sua voz carregava mais gelo do que as nevascas de Aldrion. — A hóspede oficial da corte quase foi morta sob este teto. Meilin ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços. — Hóspede oficial? — sua voz soou como veneno destilado. — Ou ameaça? O olhar de Kaelan fulminou-a instantaneamente. Ele avançou um passo, e o peso da sua presença fez até os mais veteranos guerreiros do conselho se encolherem em suas cadeiras. — Se eu descobrir que esteve envolvida nisso... — a ameaça estava explícita, nua, afiada. Meilin, com a elegância própria das víboras, não recuou. — O que insinua, alteza? — ergueu o queixo, falsa inocência nos lábios. — Que uma concubina tem acesso à ala dos guardas? Que poderia, sozinha, violar uma torre trancada, passar pelos sentinelas, entrar e sair com armas? Ridículo. Uma acusação desesperada. Kaelan avançou mais um passo. Os punhos cerrados. A respiração curta, pesada. — Não me teste, Meilin. Não hoje. — Sua voz era um trovão abafado, prestes a explodir. O silêncio que se seguiu foi sufocante. No canto da sala, como sempre, Aric sorria. Um sorriso sutil, frio, como se observasse uma peça no tabuleiro se movendo exatamente como planejou. Ele cruzou os dedos sobre a mesa, olhando de um para outro, saboreando cada centelha de tensão. E pensou, com satisfação: “Tudo está saindo como eu imaginei.”
eu ADOREI ,cada vez mais detalhado,bem explicito e alguns suspense , parabéns.
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0amei o capítulo 1 o resto ainda n li
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