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Diademas da Escuridão

Diademas da Escuridão

diademas


Capítulo 1

"Para os meus pequenos guerreiros: Sempre
seja a melhor versão de si mesmo."
Era primavera e finalmente os flocos de neve
haviam cessado, fazendo com que o frio cortante fosse substituído pelo calor quase escaldante dos raios de sol,que incidiam nas enormes janelas de vidro do Palácio.
Os pássaros cantavam melodias enquanto voavam e planavam entre as diversas composições de flores que ali se encontravam.
Uma brisa quente e desejável beijava o fino e
inexpressivo rosto de Astrid, uma jovem mulher de
cabelos e pele negra, com olhos gélidos e obscuros.
Nenhum tipo de brilho compunha àquele mar de escuridão e sombras enquanto esta encarava cada pedaço do Reino
Florestal, um Reino cercado por todos os tipos e espécies de árvores, plantas, folhas e flores já imagináveis e existentes.
Astrid permanecia atenta a qualquer barulho
incomum enquanto cavalgava lentamente em Dama, uma égua preta com pelos sedosos e com uma crina prateada e macia, fazendo com que algumas cores instaladas no céu refletiss  sobre a égua, logo, dourando levemente a sua pelagem. Astrid sentia os cheiros perfumados das flores
enquanto se emaranhava no jardim bem cuidado e limpo.
Abelhas zumbiam em seu ouvido, mas Astrid não
lhes dava atenção, não quando ela estava tão absorta em
seus pensamentos e em qualquer ruído, ou elevação de voz
que fossem captados. Tudo parecia calmo, por pouco
tempo, ela imaginava.
O alvorecer acabou de chegar, tão quente quanto
uma fogueira em brasa, apesar do céu ainda possuir um
entremeado leve com pigmentos alaranjados e cianos.
Contudo, Astrid gostava daquilo, da sensação do suor que escorria por sua espinha sob o vestido fino e longo que esta usava, após uma série de corridas e exercícios simples. Tão simples que ela bebeu apenas metade da garrafa de água que mantinha presa sob o cinto de couro
que circundava a sua cintura fina.
Ela estava faminta, precisava de alimento
urgentemente. Astrid nunca acordara tão cedo para treinar, mas ela não podia voltar para o Palácio no momento, não enquanto ainda não possuísse a confirmação das palavras
do seu pai. Não até que escutasse apenas os sons elevados das machadadas realizadas pelos escravos sobre as diversas madeiras .
Astrid esperava não ouvir mais do que aquilo, ela
possuía a esperança de não ouvir gritos ensurdecedores, não queria ouvir súplicas, ou barulhos de chicotes nas peles suadas e já desgastadas dos escravos.
O seu pai prometeu.
No entanto, ele já havia prometido tanto, e nunca
cumprira nenhum dos seus juramentos. Por isso era difícil para Astrid confiar tanto no homem arrogante e cruel que era o seu pai, o Rei do Reino Florestal, o Rei temido por
tudo e por todos. Um dos Soberanos mais poderosos que já existiu depois de tantos séculos.
Esta afirmação sendo idealizada e confirmada por
ele mesmo.
Flechas de pinho pendiam sobre as costas de Astrid. A jovem inclinou o corpo levemente para frente, a fim de suportar um pouco mais daquele peso.
Ela estava se acostumando, aos poucos, mas estava. Nenhum arco a vista, já que Astrid utilizava apenas as suas mãos pequenas
para acertar um alvo qualquer em algum tronco de árvore, o qual ela mesma desenhava com algumas tintas azuis e vermelhas.
Dama bufou baixinho e a princesa suspirou. Ela não estava cansada, no entanto, a sua égua com certeza precisava de uma excelente refeição após realizar caminhadas tão longas naquela manhã ensolarada.
Astrid encarou mais uma vez por cima do ombro,
enxergando as mais belas fontes d'água que refletiam as mais bonitas cores do amanhecer. Beltranos já andavam de um lado para o outro trabalhando exaustivamente, sempre
com as mesmas rotinas e com as mesmas
responsabilidades. Astrid nunca observou aquele Reino diferente, nunca avistou ou presenciou alguma felicidade, ou outro tipo de emoção, nada além dos olhos vagos e longínquos no rosto amadurecido do povo.
Dama e Astrid avançaram lentamente em direção
aos estábulos. Esta última ainda tentava se concentrar na própria audição, no entanto, os escravos já deveriam estar acordados até aquele momento e, felizmente, nenhum tipo
de barulho ecoou pela floresta. O seu corpo relaxou aliviado e ela se posicionou sobre Dama para que pudesse desmontar da sela, logo, acariciando levemente o seu focinho e a guiando para o estábulo, já preenchido com
diversos cereais, enquanto um cavalariço erguia uma maçã vermelha e madura em direção à égua.
Suas pernas ainda estavam bambas, já que correra mais do que o suficiente naquela manhã.Astrid cumprimentou o trabalhador com um aceno modesto e educado. Um homem de meia idade, mas com extensas rugas em seus olhos, cabelos grisalhos e um corpo esguio e esquelético. Este lhe concedeu uma
reverência longa e majestosa, mesmo que, percebeu Astrid, já que ele havia contraído a boca para o lado com uma expressão de dor, as suas costas estivessem tão
doloridas, graças ao trabalho cansativo, o qual ele
realizava.
— Vossa Alteza. — Uma voz rouca e grave soou
através dos estábulos. Astrid encarou a pessoa, cuja voz pertencia.
— Apolo. — ela disse baixinho, mas não sorriu.
Seus olhos permaneciam inexpressivos e frios.
— Lhe procurei por todo o Reino, onde estava? —
As suas mãos brancas e grandes entrelaçaram entre si e Apolo dera mais um passo à frente.
— Então não procurou direito, estive aqui o tempo
todo. E não seja estúpido... — ela respondeu em um tom de voz tão frio que poderia congelar todos os Reinos já existentes
— Sabe que não posso sair deste lugar.
O seu estômago revirou tão intensamente que Astrid sabia que Apolo conseguiu perceber o ódio que veio acompanhado com aquelas palavras. Palavras tão verdadeiras, mas tão repugnantes.
Ela não podia sair do Reino, não podia atravessar o rio, não podia conhecer nada além das árvores e dos arbustos verdes e saudáveis, não podia sequer pisar em falso, não que Astrid tivesse muitas opções, já que sempre houve um escudo protetor que a impedia de ultrapassar os
limites impostos por seu pai.
— Que pena, não? — provocou Apolo com um
sorriso gentil e malicioso no rosto. Uma farsa, aquilo era uma farsa. Ele não estava sendo gentil, Apolo estava caçoando da prisão de Astrid e ela não iria aguentar aquilo por muito tempo.
Um suspiro contido saltou de sua garganta.
O rosto agora queimava.
Não por causa do calor que permanecia do lado de fora, e sim, por causa dos comentários estúpidos de Apolo contra ela.
A princesa virou o corpo com força, fazendo com
que os cabelos soltos e negros oscilassem em seus ombros magros e em sua cintura. Astrid não queria manter a Os ruídos dos machados soaram entre o Reino.
Felizmente, nenhum grito viera acompanhado. Contudo, Astrid ainda permanecia com os ombros tensos, graças aos passos apressados e pesados de Apolo sobre a grama
iluminada pela luz natural.
— Não quer saber por que eu estava lhe procurando? — ele questionou e Astrid o encarou. Os olhos castanhos claros do jovem possuíam brilhos de diversão e os cabelos loiros, que modulavam o seu rosto fino e adorável, caíam
sobre a sua testa suada. Ele não estava ofegante, mesmo que tivesse que correr um pouco para acompanhar os passos rápidos e
práticos de Astrid, por mais que ela fosse menor do que ele. Apolo era um dos guardas do seu pai, logo, trabalhava no Palácio como o seu segurança pessoal.
Mesmo novo, ele era muito bom no que fazia e a
princesa tinha plena consciência daquilo, mas é claro que ela jamais seria capaz de expressar estes pensamentos para o homem que permanecia à sua frente.
Os braços musculosos de Apolo se cruzaram,
fazendo com o que o peito do Combatente se estufasse lentamente em direção à Astrid. Ela encarou a veia que
saltava em seu pescoço e desviou o olhar para aqueles olhos castanhos novamente conversa com Apolo, mas, mesmo assim, ele a seguiu
entre o jardim e além dele.Fale logo, estou com pressa
— A sua voz era carregada de frieza e tédio. Apolo recuou um passo e revirou os olhos ao mesmo tempo em que os sons dos machadoaumentaram, sobressaindo o canto dos pássaros.
— Não demorará muito. Vim apenas lhe dizer que
Dimas... — O seu rosto se contraiu em uma careta
silenciosa— A espera esta tarde para os treinamentos.
— Ótimo. Já estava na hora.
Apolo ergueu uma de suas sobrancelhas grossas e fechou a cara. Ele parecia um príncipe com aquela expressão e com o uniforme tão bem passado e tão limpo quanto permanecia naquele instante.
Astrid sabia que o seu pai odiaria ler os seus
pensamentos se pudesse, mas era verdade. Ele aparentava
constituir a primeira classe social na hierarquia, contudo, Apolo permanecia na segunda classe. De qualquer forma, ele parecia bem com aquilo. Não que Astrid se importasse
muito em saber sobre os sentimentos do Combatente.
— Por que treinar? — Uma pergunta suave, mas
confusa. Ele suspirou e continuou ao ver a testa franzida
de Astrid
— Você não precisa disso, é uma princesa.
Os olhos de Astrid se tornaram gélidos. O seu rosto esfriou e o coração agora batia freneticamente, como se um exército habitasse em seu peito e estivesse marchando ,em direção ao estômago já revirado. Ela odiava aquele termo, ela não era uma princesa, ou pelo menos não a versão de uma bondosa e obediente, como a sociedade achava que deveria ser. Não tinha nada
para que a considerasse tal coisa. Não era doce, não usava roupas refinadas, não sabia permanecer quieta quando necessário e detestava manter um comportamento educado
e falso.
— Nem ouse. — A voz falha e odiosa percorreu a
garganta de Astrid. Os seus dedos se fecharam em um
punho e estalaram conforme ela os apertava sobre si.
— Vamos lá, não é tão ruim — Apolo falou com
aborrecimento e ergueu os ombros largos —, você possui o pai mais poderoso que alguém poderia ter, magia corre entre as veias do rei, assim como ela também corre pelas minhas veias e pelas de outros Combatentes, e até mesmo
dos Meio Mágicos e Beltranos — Astrid sentiu o seu corpo estremecer.
“O que eu quero dizer — acrescentou Apolo, antes
que ela o interrompesse — é que você não precisa disso tudo, já que você nos tem para defendê-la e fazer com que viva o mais plenamente possível.” Astrid não acreditava no que estava escutando, não até que os zumbidos dos insetos soassem, a trazendo para o mundo real novamente.
— Não preciso das suas proteções inúteis. — Astrid sibilou e ergueu a cabeça para trás, olhando de cima abaixo para Apolo — Sei o que estou fazendo, não quero que se intrometa na minha vida. Posso... — sua voz vacilou — posso não possuir poderes, ou magias como
vocês, mas sou útil o suficiente para me manter viva e independente.
Os olhos de Apolo se dilataram e as suas mãos
caíram ao lado do corpo musculoso. Ele a encarou, cauteloso, escolhendo bem as palavras seguintes.
Por mais que Astrid não se saísse bem em uma luta contra o jovem, ela viu e sentiu o seu cuidado para formar uma nova frase e o pensamento do Combatente de como Astrid iria se portar diante delas. Por fim, ele negou com a cabeça, o vento soprando contra os seus cabelos loiros, e
disse:
— Claro que é, não tenho dúvidas quanto a isto. No entanto, se acha que teria chances de vencer uma batalha contra os Esplendores apenas usando uma espada e... — Apolo olhou de relance para as costas suadas de Astrid — estacas de madeira...
— Flechas — a princesa interrompeu com a voz
grave.
— Ah, você chama isso de flechas? — Um riso
debochado rompeu da boca de Apolo — Ótimo, de
qualquer forma, não conseguirá enfrentar nem mesmo o mais fraco de nós.
— Não quero enfrentar ninguém. Não
propositalmente. — Astrid fervilhava de ódio. Sangue percorria por suas veias. Ela conseguia sentir as pulsações sobre as mangas finas do vestido — Sou capaz sim, e não, não irei me privar dos treinos. Se não entende, ou acha que
não sou capaz de nada, então cuide da sua vida e continue sendo o cachorrinho do meu pai, já que não pedi a sua opinião em momento algum.
Um silêncio súbito e intenso surgiu entre a princesa e o Combatente. Ele parecia que havia engolido a pior coisa já imaginada. Os seus olhos já não brilhavam mais e o rosto
estava repleto de enojamento. Contudo, um sorriso fraco e malicioso cresceu no rosto de Apolo, fazendo com que a sua expressão parecesse uma mistura de conforto e de
tédio, mas Astrid sabia que aquilo era tudo encenação e que, no fundo, Apolo sentia tanto ódio quanto ela.Ela estava contando os segundos para ver por quanto
tempo ele guardaria os poderes para si.
— Não sabia que podia ser tão arrogante a este
ponto. Você me surpreende, Alteza. — Astrid tentou não estremecer o corpo, tentou manter a expressão neutra e suave. — Pelo menos agora descobri o seu charme.
— Cale a boca e saia. — Astrid ordenou com a voz
baixa e tranquila. O seu pé batia impacientemente na grama e os olhos negros não desviaram em nenhum momento dos olhos do guarda.
Apolo curvou-se diante de Astrid e ela bufou para
ele, que saiu sem dizer nenhuma palavra e sem olhar para trás.
Tudo em Astrid ainda congelava e ela tentou não
pensar muito nas palavras de Apolo. Todo aquele
treinamento não iria adiantar, não se tivesse que se defender, já que poucos seres não mágicos, como ela, existiam.
Eles eram raros.
A sua espécie era rara em Brighid.
A princesa fechou os olhos por um segundo e
contraiu o maxilar.
Por um momento Astrid odiou os próprios
pensamentos. No entanto, Apolo tinha razão, Astrid nãoteria chances contra os Esplendores, não que ela fosse lutar contra eles, já que nenhum nunca a perturbou, não como Apolo e o seu pai a perturbavam diariamente.
Contudo, além deles, o restante dos povos mágicos era bondoso. Pelo menos os que compunham o Reino Florestal. Astrid não tinha muitas notícias dos seres mágicos
que faziam parte dos outros Reinos, mas ela já ouvira histórias contadas por seu pai de como eles podiam ser terríveis e cruéis ao ponto de matar qualquer um com apenas um estalar de dedos e, no fim, não possuírem nenhum remorso.
Aquilo. A princesa não conseguiria vencer aquilo.
Talvez não conseguisse nem desembainhar a espada para que morresse com honra e coragem, talvez não tivesse esse tempo. No entanto, ela não treinava para isso, e sim, para passar o tempo, para não ficar parada e trancada dentro do Palácio enquanto enlouquecia aos poucos.
De maneira alguma.
Ela continuou andando, dessa vez em direção ao
paço, àquela prisão que, sabia ela, nunca a libertaria.
Aquele lugar nunca seria um lar, não para ela, não com quem o reinava.Nenhum grito, nenhuma súplica, nenhuma cabeça negra no topo da pilastra, nenhum sangue, nenhuma
magia, nenhum poder. Apolo tinha razão, pensou Astrid novamente. Ela nunca seria útil para salvar alguém, ou para derrotar um inimigo, caso fosse necessário. Não enquanto fosse totalmente humana e, sabia Astrid...
Ela sempre seria.

Book Comment (2863)

  • avatar
    FlorLaravilla

    ótimo

    8d

      0
  • avatar
    BiancaCarla

    muito bom

    16d

      0
  • avatar
    RitaMayara

    muito bom

    19/04

      0
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