O silêncio no ferro-velho era pesado, daqueles que faziam o ouvido da gente apitar. O cheiro ali era uma mistura de ferro oxidado, borracha queimada e aquele cheiro de chuva que nunca cai, só fica no mormaço. Washington tirou a mão da boca da Ayumi devagarinho, mas não se afastou muito. Ele tava em modo alerta, as orelhas em pé igual cachorro de guarda. — Eles desceram do carro. Ouvi três batidas de porta. — Washington sussurrou, a voz tão baixa que quase sumia no vento que batia nas chapas de metal. — Três? A gente só tem um porrete e o meu mau humor. A conta não fecha, Washington. — Ayumi respondeu no mesmo tom, tentando ajeitar o cabelo que já parecia um ninho de mafagafos. — Relaxa, o "Argumento" aqui nunca me deixou na mão. Além do mais, no escuro todo gato é pardo e todo bandido é medroso. Eles saíram do jipe com movimentos de ninja — ou o mais próximo disso que o joelho estalando do Washington permitia. O chão era forrado de brita e cacos de vidro, então cada passo era um parto. Ayumi segurava na barra da jaqueta dele, não por medo (claro que não, ela diria depois), mas pra não se perder naquele mar de carcaças de fuscas e opalas empilhados. Lá na entrada do pátio, uma lanterna forte começou a varrer o lugar. O feixe de luz passava por cima das pilhas de ferro, criando sombras gigantescas que pareciam monstros querendo pegar eles. — Eles estão vindo pelo corredor principal. — Ayumi notou, os olhos puxados semicerrados pra enxergar melhor. — Se a gente continuar aqui, eles cercam o jipe e a gente fica sem saída. — Tem razão, japa. Inteligência é com você mesmo. Vamos subir naquele ônibus ali. — Ele apontou para uma carcaça de um circular antigo, capotado de lado, que servia de ponte para uma pilha maior de sucatas. Eles se arrastaram, agachados, até a lateral do ônibus. O metal tava gelado. Washington deu um impulso pra Ayumi subir e depois subiu com uma agilidade que surpreendeu a garota. Lá de cima, eles tinham uma visão privilegiada, mas também tavam mais expostos se a luz batesse. — Ei, Caveira! Eu sei que tu tá por aí, seu lambe-botas! — A voz de um dos caras ecoou, vinda de algum lugar perto da entrada. — Aparece e entrega a garota que o Doutor talvez deixe você manter as pernas inteiras! Washington deu um sorrisinho no escuro. — "O Doutor". Esse cara tem um complexo de superioridade que me dá sono. — Washington resmungou, mexendo no bolso da jaqueta. — O que você tá fazendo? — Ayumi perguntou, vendo ele tirar um isqueiro e um maço de notas de cem reais falsas que ele usava pra fazer graça em bar. — Vou dar um "show de luzes" pra eles. Ayumi, você consegue acessar o sistema de som daquele rádio ali no canto? — Ele apontou pra um guichê de segurança velho, a uns dez metros dali, que parecia ainda ter eletricidade por causa de uma lâmpada de emergência acesa. — Washington, aquilo é um ferro-velho, não uma Smart City. Mas espera... Ayumi puxou o celular, ligou o Bluetooth e começou a escanear. — Tem um receiver antigo ligado lá dentro. Deve ser do vigia que fugiu quando você entrou quebrando tudo. Se eu conseguir parear... — Consegue fazer ele tocar alguma coisa bem alta? Tipo um funk proibidão ou um rock pesado? — Consigo fazer ele soltar um ruído de interferência que vai deixar eles surdos por dois segundos. Por quê? — Porque eu vou tacar fogo num pneu ali do outro lado e, quando eles olharem, você solta o som. A gente corre pro portão dos fundos enquanto eles ficam confusos. — É uma ideia idiota. Tem tudo pra dar errado. — Ayumi disse, já preparando os comandos no celular. — Por isso mesmo que vai funcionar. Ninguém espera que alguém seja tão burro. Washington desceu do ônibus igual um vulto e se esgueirou até uma pilha de pneus velhos. Ele molhou um pano com um pouco de combustível que sobrava num galão jogado e riscou o isqueiro. Em segundos, uma labareda alaranjada começou a lamber o céu, soltando uma fumaça preta e fedorenta. — Ô LÁ! ELES TÃO ALI! — gritou um dos capangas, apontando pra direção do fogo. — Agora, Ayumi! — Washington berrou, correndo de volta. Ayumi deu o "enter" no celular. Do nada, as caixas de som do guichê, que eram velhas mas potentes, soltaram um guincho de microfonia tão agudo que até os vira-latas da rua de trás uivaram. Os bandidos levaram as mãos aos ouvidos, xingando tudo que é nome. — VAMOS, VAMOS! — Washington pegou a mão da Ayumi e saiu disparado. Eles não correram pela estrada principal. Washington conhecia aquele lugar melhor do que admitia. Ele foi cortando por dentro de carcaças de caminhões, pulando eixos e desviando de poças de óleo. Ayumi sentia o pulmão queimar, mas não parava. — Falta pouco! O portãozinho de pedestre é logo ali! — Washington apontou para uma portinha de ferro camuflada por trepadeiras. Eles chegaram na porta, mas Washington travou. — Tá trancada com corrente, Washington! Cadê o "Argumento"? Quebra essa droga! — Ayumi tava ofegante, olhando pra trás e vendo as lanternas se aproximarem de novo. — Calma, japa! Se eu bater agora, eles ouvem a gente! Deixa eu tentar uma coisa... Ele tirou um grampo de cabelo que tinha pego da bolsa da Ayumi enquanto eles comiam o lanche (sim, ele era um batedor de carteira de mão cheia quando queria). Ele começou a cutucar o cadeado com uma calma que irritava. — Washington... eles estão chegando... — Ayumi sussurrou, o suor descendo pela testa. — Quase... só mais um... FOI! O cadeado abriu com um estalo seco. Eles passaram pela porta e saíram numa viela estreita, bem longe de onde o jipe e o sedã estavam. Washington fechou a porta devagar e encostou a corrente de novo pra parecer que ainda tava trancada. — E agora? A gente tá a pé no meio do nada, sem carro e com um bando de maluco atrás da gente. — Ayumi disse, limpando as mãos na calça. — A pé? Que isso, Ayumi. Ofensa ao meu profissionalismo. A gente tá a duas quadras da garagem do "Zeca Urubu". — E quem é Zeca Urubu, pelo amor de Deus? — Um cara que me deve um favor desde 2014. Ele tem umas motos que não fazem perguntas. Washington começou a andar pela viela com um gingado de quem tinha acabado de ganhar na loteria, enquanto Ayumi o seguia, ainda tentando processar como a vida dela tinha virado um filme de ação de baixo orçamento em menos de seis horas. — Sabe, Washington... Você é o cara mais irresponsável que eu já conheci. — Mas eu sou o único que te trouxe um X-Tudo no meio de um sequestro, não sou? Admite, eu sou um charme. — Você é um desastre ambulante. Agora anda logo, antes que eu resolva voltar e me entregar só pra não ter que ouvir mais as suas piadas. Eles sumiram na escuridão da viela, deixando o fogo no ferro-velho brilhar ao fundo. O jogo estava apenas começando, e o "Doutor" certamente não ficaria feliz em saber que seus homens foram enganados por um rádio velho e um pneu queimado. *Eles chegam à garagem do Zeca Urubu, mas o Zeca não está muito a fim de ajudar de graça. Ayumi vai ter que mostrar que não é só boa de teclado, mas também de lábia (ou de ameaça), enquanto Washington tenta descolar uma fuga motorizada em duas rodas.*
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