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Chapter 4 Visita à Toca do Lobo (ou do Vampiro?)

A Selena tava quase tendo um piriri nervoso no quarto dela, olhando pro celular como se o aparelho fosse explodir a qualquer segundo enquanto o relógio marcava nove e meia da noite. Ela pensou mil vezes em falar pro pai dela, mas imagina a cena: "Ei pai, o cara que o senhor mandou eu ficar longe pegou meu colar e quer que eu vá na casa dele agora no meio do breu, beleza?". O Endrick ia ter um treco e provavelmente prender ela no porão até ela fazer trinta anos, então a única opção era a clássica "operação de guerra" pra sair escondida.
— Selena? Tá acordada ainda, filha? — o Endrick deu dois toquinhos na porta e ela deu um pulo que quase caiu da cama.
— Tô sim, pai! Só terminando um... um trabalho de História aqui, coisa chata — ela respondeu com a voz meio afinada de nervoso.
— Tá bom, não dorme muito tarde, amanhã tenho que ir cedo pra prefeitura resolver uns pepinos sobre o zoneamento daquela área da colina e não quero te ver parecendo um zumbi no café.
— Pode deixar, pai, boa noite!
Ela esperou ouvir os passos dele sumindo no corredor e o som da porta do quarto dele fechando pra começar a agir. Ela colocou uma calça cargo preta, um coturno e um casaco com capuz, porque se fosse pra ser pega, que pelo menos estivesse estilosa e pronta pra correr. Ela abriu a janela devagar, agradecendo mentalmente por aquela árvore de carvalho enorme que ficava bem ali do lado e que já tinha servido de escada pra muitas fugas em festas da Adeline. Ela desceu com a agilidade de um gato (mentira, ela quase ralou o joelho e soltou um "putz" baixinho), e correu pro seu jipe que tava estacionado um pouco mais longe pra não fazer barulho na saída.
Dirigir até a Alameda dos Sussurros à noite era uma experiência que ela não recomendava pra ninguém, as árvores pareciam mãos tentando agarrar o carro e a névoa tava tão grossa que ela mal via dois metros na frente. Quando ela chegou no portão de ferro gigante do número 666, o portão simplesmente abriu sozinho com um rangido de filme de terror que fez os pelos do braço dela subirem.
— Tá de brincadeira comigo, né? — ela resmungou pra si mesma, apertando o volante — se eu morrer, eu vou voltar pra assombrar aquele loiro oxigenado por toda a eternidade.
Ela subiu a rampa de pedra e parou o carro na frente da mansão, que parecia ainda maior e mais sombria de perto, com janelas altas que pareciam olhos observando cada passo dela. Ela nem precisou bater na porta, porque o Ethan já tava lá fora, encostado numa coluna de mármore, com uma garrafa de água na mão e aquele olhar de quem já sabia que ela vinha.
— Olha só, ela tem coragem — o Ethan falou, dando um gole na água e se aproximando do carro — achei que você ia amarelar e mandar o seu pai aqui pra me prender por roubo de joias.
— Primeiro: você não roubou, eu perdi e você pegou, o que tecnicamente é apropriação indébita, tá? — ela disse, saindo do carro e batendo a porta com força — e segundo: devolve logo meu pingente, Ethan, eu não tô pra brincadeira.
— Nossa, que estressadinha, não quer nem entrar pra conhecer a casa? — ele deu um sorriso de lado, aquele que deixava a Selena com as pernas meio bambas, por mais que ela odiasse admitir — o Caleb tá lá dentro tentando bater o recorde de videogame e o Tyler tá... bom, o Tyler tá sendo o Tyler.
— Eu não vim fazer um tour, eu vim buscar o que é meu — ela estendeu a mão, mas ele não entregou.
— Tá aqui — ele tirou o colar do bolso da calça, mas segurou ele no alto — mas antes, você vai me explicar por que esse pingente tem um cheiro tão forte de... algo que eu não consigo identificar.
— Cheiro? É uma pedra, Ethan, pedras não têm cheiro, você tá ficando maluco ou o quê? — ela tentou pegar, mas ele foi mais rápido e desviou.
Nisso, a porta da mansão escancarou e o Caleb saiu de lá tropeçando, rindo alto com um fone de ouvido no pescoço.
— E aí, Seleninha! Veio pra festa? — o Caleb gritou, chegando perto deles com uma energia que não batia com o clima sinistro do lugar — o Ethan tá te perturbando? Não liga pra ele não, ele é meio esquisito assim porque não dorme faz tipo... nunca.
— Oi, Caleb — Selena deu um sorrisinho amarelo
— eu só vim buscar meu colar mesmo.
— Ah, a pedra mística! — Caleb piscou pra ela — o Ethan ficou olhando pra esse negócio por uma hora lá na sala, parecia que tava tentando hipnotizar o objeto.
— Cala a boca, Caleb — Ethan disse, mas sem raiva, só naquele tom de "você fala demais".
— Vou calar, vou calar! — Caleb levantou as mãos em sinal de rendição — vou ver se o Tyler não quebrou a TV ainda, se precisar de ajuda pra fugir desse chato é só gritar, Selena!
O Caleb entrou de volta e o silêncio caiu de novo entre os dois, mas era um silêncio diferente, dava pra ouvir a respiração dele, que era calma demais, lenta demais.
— Toma — ele finalmente entregou o colar, deixando os dedos encostarem na palma da mão dela por um segundo a mais do que o necessário — sua mãe que te deu?
— Foi — ela disse, sentindo o calor da mão dele, o que era estranho porque na cachoeira ele tava gelado — como você sabe?
— Intuição. E porque você segura ele como se fosse um escudo.
— Talvez seja — ela guardou o colar no bolso do casaco — agora eu vou embora antes que meu pai acorde e perceba que eu não tô no meu quarto fazendo trabalho de História.
— Você não sabe mentir, Selena Moreau — ele deu um passo pra frente, ficando bem no espaço pessoal dela — sua pulsação te entrega, eu consigo ouvir ela daqui, tá disparada.
— É o café, eu tomei muito café hoje — ela tentou desviar o olhar, mas os olhos dele tavam prendendo ela ali.
— Sei... o café — ele sussurrou, e por um momento ele inclinou o rosto como se fosse cheirar o pescoço dela, mas parou no meio do caminho — melhor você ir mesmo, a floresta não tá muito amigável hoje e eu não quero ter que te salvar de nada.
— Eu me salvo sozinha, obrigada — ela disse, girando nos calcanhares e indo pro jipe.
Ela entrou no carro, deu partida e deu um tchauzinho irônico pra ele, que continuou parado lá como uma estátua. Quando ela tava descendo a Alameda dos Sussurros, ela viu um par de olhos brilhando no meio do mato, olhos grandes e dourados que não eram de nenhum bicho que ela conhecia, mas ela não parou, ela pisou fundo no acelerador até chegar no asfalto da cidade.
Chegando em casa, ela subiu pela árvore de novo (quase caindo de novo, claro), entrou no quarto e trancou a janela.
Ela pegou o pingente e ficou olhando pra ele sob a luz do abajur. A pedra, que antes era só um quartzo meio fosco, parecia ter um brilho lá dentro, uma luzinha vermelha bem fraquinha que pulsava.
— Que merda tá acontecendo comigo? — ela resmungou, jogando o casaco na cadeira.
Ela pegou o celular pra ver se as meninas tinham mandado algo e viu que tinha uma mensagem de um grupo novo que o Caleb tinha criado.
Grupo: "Blackwood e Cia (e as gatas de Raven)"
Caleb: Gente, a Selena veio aqui e sobreviveu ao Ethan! Temos que comemorar, festa na piscina aqui em casa na sexta?
Maya: Tô dentro! Vou levar minha playlist nova.
Adeline: POOL PARTY? Já tô escolhendo meu biquíni! Sel, você tá bem? O Ethan te mordeu? kkkkk
Chloe: Gente, vcs são muito rápidos, eu ainda tô tentando processar o cervo seco de hoje de tarde.
Selena digitou e apagou várias vezes, o coração ainda meio estranho.
Selena: Tô bem, Addy. O Ethan só é um idiota misterioso mesmo. E Caleb, não sei se meu pai deixa, mas eu dou um jeito.
Ela bloqueou o celular e deitou na cama, mas antes de fechar os olhos, ela sentiu um cheiro de floresta e tempestade no quarto dela, como se o Ethan estivesse ali mesmo ela estando sozinha. Ela cheirou o próprio pulso e lá estava: o perfume dele tinha grudado nela só naquele toque de mão.
— Idiota — ela sussurrou pro escuro, mas com um sorrisinho que ela não conseguiu segurar — gatíssimo, mas um idiota completo.
Ela finalmente dormiu, mas os sonhos foram povoados por Mustang pretos voando sobre árvores e uma voz rouca chamando o nome dela no meio da neblina da Alameda dos Sussurros, e pela primeira vez, ela não teve medo das sombras, ela queria entender o que tinha nelas.
Continua...

Book Comment (53)

  • avatar
    AsisStefany

    muito bom

    1h

      0
  • avatar
    Leonardobruna

    ameiiii

    3d

      0
  • avatar
    Emilly Miranda

    maravilhosa

    10d

      0
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