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Chapter 3 O sangue na grama e o mistério da cachoeira

O domingo em Raven’s Hollow conseguiu ser ainda mais parado que o sábado, o que era um recorde negativo, mas pra Selena o clima tava bem longe de ser tedioso porque a cabeça dela tava parecendo um liquidificador ligado no modo turbo depois de tudo o que rolou na cafeteria e as mensagens malucas da Maya no grupo. Ela passou a manhã tentando desenhar, mas em vez das paisagens de sempre, ela se viu esboçando o contorno de um maxilar marcado e uns olhos que pareciam que iam saltar do papel e ler a alma dela, então ela fechou o caderno com força, irritada com o próprio cérebro que não colaborava.
— Selena, desce logo que o café tá na mesa e se você demorar mais cinco minutos eu vou comer seu pedaço de bolo de cenoura — o Endrick gritou da cozinha, com aquela voz de pai que não aceita "só mais um pouquinho" como resposta.
— Já vou, pai, credo, nem parece que a gente mora numa casa, parece um quartel general — ela resmungou, descendo as escadas com um moletom três vezes maior que ela e o cabelo preso num coque que mais parecia um ninho de passarinho.
Na cozinha, o cheiro de café passado tava bom demais, mas o Endrick tava com aquela cara de quem ia começar um interrogatório de novo.
— Dormiu bem? Ou ficou até tarde naquele celular de novo? — ele perguntou, entregando uma caneca pra ela.
— Dormi, ué, por que não dormiria? — ela mentiu descaradamente, já que passou a noite sonhando com Mustang preto e névoa.
— Sei lá, você tá com umas olheiras que parecem que foi pro Alasca e voltou a pé — ele sentou na mesa, dando um gole no café dele — e vê se não inventa de ir pro lado daquela floresta hoje, o pessoal da prefeitura disse que viram uns bichos estranhos por lá, tipo lobos, mas maiores.
— Lobos, pai? Sério? O senhor tá assistindo muito Discovery Channel, deve ser só algum cachorro de rua grande que se perdeu — ela deu de ombros, pegando uma fatia de bolo.
— Não abusa, Selena, eu tô falando sério, o mundo não é esse parquinho de diversões que você acha — o tom dele ficou meio sério, mas logo ele relaxou — enfim, a Adeline ligou pro fixo porque disse que você não tava atendendo o celular.
— O fixo? Quem ainda usa fixo em 2026? Essa garota é muito surtada — Selena riu, pegando o celular que tava jogado no sofá e vendo umas dez chamadas perdidas.
Ela ligou de volta e não deu nem dois toques pra Adeline atender já gritando do outro lado da linha, com uma música eletrônica de fundo que parecia que ela tava numa rave às onze da manhã.
— MULHER, VOCÊ TÁ VIVA? — Adeline berrou.
— Tô, Addy, para de gritar que eu ainda tô digerindo meu café, o que foi agora? — Selena encostou na pia, observando o pai sair pra garagem.
— A gente vai na cachoeira, agora! O sol saiu um pouquinho e a Maya disse que o Caleb falou pra ela que eles iam estar lá pra "conhecer o terreno", se é que você me entende.
— O Caleb falou pra ela? Como assim eles tão se falando? — Selena sentiu um nó na barriga.
— Parece que ele mandou um direct pra ela ontem à noite perguntando onde era o melhor lugar pra ver o pôr do sol, papinho furado, né? Mas a gente vai aproveitar a deixa — Adeline tava animadíssima — passa aqui em dez minutos, ou eu vou aí e te arrasto pelo cabelo.
— Tá, tá, eu vou, mas se a gente for atacada por um "lobo gigante" a culpa é sua.
Dez minutos depois, Selena tava no seu jipe velho, que ela carinhosamente chamava de "Lata Velha", buzinando na frente da casa da Adeline. A Chloe e a Maya já tavam no banco de trás, a Maya tava com uma roupa de ginástica toda estilosa e a Chloe tava com um tablet no colo, provavelmente hackeando o Wi-Fi de alguém no caminho.
— E aí, partiu ver os colírios da cidade? — Maya disse, fazendo uma pose.
— Eu só tô indo porque não aguento mais ficar em casa ouvindo meu pai falar de segurança pública
— Selena deu ré, saindo com tudo.
— Ah, para, Sel, você tá doida pra ver o Ethan de novo que eu sei, sua cara te entrega muito, você fica toda trabalhada no "eu odeio ele mas quero o @ dele" — Chloe comentou, sem tirar os olhos da tela.
— Nada a ver, Chloe, ele é só... intrigante, é uma palavra melhor — Selena revirou os olhos enquanto dirigia em direção à trilha da cachoeira que ficava nos limites da cidade, bem perto da tal Alameda dos Sussurros.
Chegando lá, o lugar tava lindo, mas tinha um silêncio que incomodava um pouco, sabe? Não tinha barulho de passarinho, nada, só o som da água caindo de longe. Elas deixaram o carro e começaram a caminhar pela trilha de terra batida.
— Gente, vocês não acham que tá meio parado demais aqui hoje? — Selena perguntou, olhando em volta.
— É o clima gótico da cidade, amiga, se acostuma — Adeline disse, mas ela também tava olhando pros lados meio desconfiada.
De repente, elas chegaram na clareira da cachoeira e o Mustang preto tava lá, brilhando sob a luz fraca do sol, estacionado de qualquer jeito em cima da grama. Perto da água, o Ethan tava sentado numa pedra, sem camisa (e meu Deus, a Selena quase bateu a cara numa árvore quando viu o abdômen do cara), enquanto o Caleb e o Tyler tavam apostando corrida de quem chegava primeiro na margem oposta pulando pelas pedras.
— Olha só se não são as meninas do café — Caleb gritou, parando no meio de uma pedra com um equilíbrio que não parecia humano — vieram ver a gente dar um show?
— Viemos ver se vocês não iam se afogar, já que não conhecem o rio — Maya respondeu, indo na direção deles com um sorriso de lado.
O Ethan virou a cabeça devagar e fixou os olhos na Selena. Ele não sorriu, ele só ficou olhando, como se tivesse esperando ela dizer alguma coisa.
— Você me segue ou é só coincidência? — ele perguntou, a voz dele competindo com o som da água.
Selena caminhou até ele, tentando não focar no fato de que ele tava sem camisa e que a pele dele parecia mármore esculpido.
— Eu moro aqui, Blackwood, eu que deveria perguntar o que você tá fazendo na minha cachoeira favorita — ela disse, parando a um metro de distância dele.
— Sua cachoeira? Não vi seu nome em nenhuma dessas árvores — ele se levantou, e a diferença de altura fez ela ter que inclinar a cabeça pra trás — mas se você quiser, eu posso escrever pra você.
— Engraçadinho você, né? — Selena cruzou os braços, tentando disfarçar o arrepio que sentiu quando ele deu um passo pra mais perto — meu pai disse que tem bichos perigosos por aqui, se eu fosse vocês, não ficaria dando bobeira
— Bichos perigosos? Tipo o quê? Lobisomens? — Tyler, o irmão mais novo, apareceu do nada atrás do Ethan, rindo com uma cara de deboche total — a gente lida bem com cachorrinhos, não se preocupa não, gracinha.
— Cala a boca, Tyler — Ethan disse, mas não parecia irritado, parecia mais um aviso — e você, Selena, devia ouvir seu pai mais vezes, esse lugar não é seguro pra uma garota como você.
— "Uma garota como eu"? O que isso quer dizer? — ela arqueou a sobrancelha, se sentindo desafiada.
— Quer dizer que você é... frágil — ele sussurrou, e por um milésimo de segundo, a Selena viu algo passar nos olhos dele, uma cor amarelada que sumiu tão rápido que ela achou que foi reflexo do sol — e o mundo tá cheio de coisas que querem quebrar coisas frágeis.
— Eu não quebro fácil, Ethan, pode ter certeza disso — ela respondeu, sentindo uma coragem que não sabia que tinha.
Nesse momento, a Chloe deu um grito lá atrás.
— GENTE, QUE QUE É ISSO?
Elas correram pra onde a Chloe tava e tinha um cervo morto no chão, mas não parecia um ataque normal de animal, o bicho tava seco, como se tivessem drenado tudo dele, sem uma gota de sangue na grama.
— Credo, que nojo! — Adeline fez uma careta, tapando o nariz — o que faz um negócio desse?
Selena olhou pro Ethan, que tava com uma expressão totalmente neutra, quase fria demais pra situação.
— É a natureza — ele disse, com um tom de voz que não passava nenhuma emoção — às vezes a fome fala mais alto que a piedade
— Fome? Isso parece coisa de filme de terror, Ethan — Selena disse, sentindo um medo real começando a brotar no estômago — vamos embora, meninas, eu não tô gostando disso aqui não
— Já vai? Mal chegamos — Caleb disse, aparecendo do lado delas sem que ninguém ouvisse ele chegar, o que deu um susto coletivo no grupo.
— Já vamos sim, tchau pra vocês — Selena puxou a Adeline pelo braço e começou a andar rápido de volta pra trilha.
Ela sentia o olhar do Ethan queimando nas suas costas o caminho todo. Quando elas entraram no jipe e ela deu partida, ela olhou pelo retrovisor e viu ele parado no meio da estrada, imóvel, só observando o carro sumir na poeira.
— Ele é muito estranho, Sel — Chloe disse, abraçando o tablet — e o Caleb apareceu do meu lado do nada, eu juro que não ouvi nem a grama mexer.
— Eu falei que eles eram diferentes — Maya comentou, mas ela parecia mais animada do que assustada — imagina o segredo que esses caras escondem.
— Eu não quero saber de segredo nenhum, eu quero é distância — Selena mentiu pra si mesma, enquanto apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos tavam brancos.
Ela deixou as amigas em casa e, quando chegou na sua, viu o carro do pai estacionado. Ela entrou correndo, subiu pro quarto e fechou a porta, encostando as costas nela e tentando respirar. Ela pegou o caderno de desenhos e viu o esboço do Ethan que tinha feito mais cedo.
— O que você é? — ela murmurou de novo, mas dessa vez, uma parte dela tava com medo da resposta.
De repente, o celular dela vibrou. Era um número desconhecido.
Mensagem de Número Desconhecido:
Você esqueceu seu pingente na pedra. Eu guardei pra você. Se quiser de volta, me encontra na Alameda dos Sussurros às dez da noite. E vem sozinha, Selena. Não faz eu ter que ir buscar você.
Selena levou a mão ao pescoço e sentiu o vazio. O pingente da mãe dela. O coração dela errou uma batida. Como ele conseguiu o número dela? E como ele sabia que ela ia aceitar ir lá?
— Merda — ela sussurrou, sentindo que tava entrando num buraco negro que não tinha volta.
Continua...

Book Comment (53)

  • avatar
    AsisStefany

    muito bom

    8h

      0
  • avatar
    Leonardobruna

    ameiiii

    4d

      0
  • avatar
    Emilly Miranda

    maravilhosa

    11d

      0
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