Helena passou o dia seguinte como se estivesse andando em cima de uma corda bamba. Sabe aquela sensação de que você esqueceu o ferro ligado ou a porta aberta? Pois é. Só que o "ferro ligado" dela era uma parte da sua alma que agora estava guardada no bolso de algum estranho. No trabalho, ela mal conseguia focar nas planilhas. O café parecia água suja e cada vez que o celular vibrava, ela dava um pulo, mesmo sabendo que a resposta não viria por um app. — Ô Helena! Terra chamando! — gritou a Bia, estalando os dedos na frente do rosto dela. Helena piscou, voltando do transe. — Que foi, guria? Que susto! — Susto digo eu, né? Tu tá aí encarando esse computador faz dez minutos com cara de quem viu um fantasma. Bora almoçar que o estômago não vive de brisa, não. — Não sei se tô com fome, Bia. Acho que baixou a pressão. — Ah, para de drama! É fome de verdade ou é aquela tua mania de ficar pensando na morte da bezerra? Vamo logo, o quilo hoje tem lasanha. As duas desceram e Helena tentou agir como uma pessoa normal, mas a cabeça estava lá naquelas pedras, naquela letra inclinada. Ela se sentia exposta, como se tivesse saído na rua pelada e só percebido agora. — Tu tá muito estranha hoje, namoral — comentou Bia, enchendo o garfo. — Tá pegando alguém e não quer contar? Se for boy lixo, já sabe que eu vou dar sermão. Helena soltou uma risada nervosa, mexendo na salada. — Quem me dera se fosse só boy lixo, Bia. É só... cansaço. Coisa da cabeça. — Aham, sei. Essa tua cara de "coisa da cabeça" tem nome, sobrenome e provavelmente um perfume bom. Relaxa esse ombro, mulher! Quando a noite caiu, o frio na barriga de Helena virou uma tempestade. Ela disse a si mesma umas mil vezes que não ia. "É perigoso", "É loucura", "O cara pode ser um maluco". Mas o silêncio do quarto estava barulhento demais. Ela precisava saber. Chegou na praia por volta de uma da manhã. O vento estava mais forte, bagunçando o cabelo e jogando areia no rosto. Ela caminhou até o ponto de sempre, o coração parecendo uma bateria de escola de samba. Não tinha ninguém. Só o barulho das ondas quebrando, aquele tshhh infinito. Ela se aproximou das pedras. A carta dela não estava mais lá. No lugar, havia um pequeno envelope pardo, preso com um elástico para o vento não carregar. Helena pegou o papel com a mão gelada e se sentou, tentando se proteger do vento. Dessa vez, ela resolveu que não ia só ler. Ela ia responder. Mas antes, precisava ver o que o "fantasma" tinha escrito. "Eu sabia que você vinha. Noite passada eu te vi de longe, saindo com pressa. Parecia que tava fugindo de um incêndio. Fica fria, eu não sou nenhum psicopata de filme de terror. Só sou alguém que também gosta do silêncio daqui." Helena soltou um suspiro pesado, meio rindo, meio querendo chorar. — Ah, pronto. Agora além de ler minhas coisas, o cara ainda fica me vigiando — resmungou ela sozinha, sentindo o rosto esquentar. — Que situação, Helena... tu se mete em cada uma que olha... Ela pegou o caderno e a caneta. A mão tremia um pouco, mas a raiva de ter sido "vigiada" deu um empurrãozinho na coragem. Ela não ia ser formal. Se o cara queria papo, ia ter o papo do jeito dela. — Escuta aqui, ô "testemunha de dores"... — começou a escrever, mas riscou. — Muito folgado você, né? Ela recomeçou: — Tu tem muita coragem de mexer nas coisas dos outros, hein? Minha mãe dizia que ler carta alheia dá azar, mas pelo visto tu não liga pra isso. E que história é essa de me vigiar? Eu não tava fugindo de incêndio nenhum, tava só querendo manter minha sanidade, que por sinal tá indo pro ralo agora que eu tô respondendo um papel deixado numa pedra. Ela parou, olhou pro mar e pensou no que ele disse sobre "não desaparecer". Aquilo tinha batido fundo. — Tu falou umas paradas que me deixaram encanada. Como tu sabe que eu tô tentando não desaparecer? Nem eu sabia que era isso que eu tava fazendo até tu escrever. Mas ó, não vai achando que a gente é brother não. Eu nem sei quem tu é. Ela hesitou. Queria perguntar o nome. Queria perguntar por que ele estava ali. Mas a graça da coisa era justamente o mistério, não era? — Se tu for um tiozinho de 60 anos querendo dar conselho, já avisa logo. Se for um moleque zoando com a minha cara, avisa também que eu paro de gastar minha tinta. Mas se for verdade o que tu disse... sobre as palavras não se perderem no mar... então tá. A gente conversa. Mas nada de ficar me seguindo, beleza? Deixa o papel e vaza. Ela dobrou a folha com uma força desnecessária. Estava nervosa, mas tinha um brilho diferente no olho. Aquela vida morna, feita de responder mensagem automática e rir de piada sem graça, tinha ganhado um tempero perigoso. — Bom, agora já era — falou alto, soltando o ar. — Se eu for sequestrada, a culpa é toda dessa minha mania de escrever. Ela colocou a carta debaixo da pedra mais pesada, deu um tapinha no mineral como se selasse um trato e se levantou. Antes de sair, ela olhou em volta, tentando enxergar algum vulto, alguma sombra entre os coqueiros ou perto das dunas. — Aparece aí, ô engraçadinho! — gritou pro nada, rindo de si mesma logo em seguida. — Credo, eu tô ficando é maluca de vez. Ela voltou pra casa com o passo mais leve, mas a mente a mil por hora. O travesseiro não ia ser seu amigo naquela noite. No dia seguinte, a rotina foi um porre. No escritório, o ar-condicionado parecia mais frio que o normal e o chefe estava de mau humor, reclamando até da cor do clipe de papel. — Helena, esse relatório tá meio capenga, não acha? — perguntou o Sr. Jorge, jogando a pasta na mesa. — Capenga quanto, Sr. Jorge? — ela respondeu, sem filtro nenhum. — Se for pouco, eu dou um jeito. Se for muito, a gente faz outro do zero, ué. Sem estresse. O homem arregalou os olhos. Helena era sempre a "moça do sim", a que nunca retrucava. — Tá com o ovo virado hoje, é? Só conserta isso aí até o final da tarde. Quando ele saiu, Bia deslizou a cadeira com rodinhas até a mesa de Helena, com o olho brilhando de fofoca. — Eita! Que que foi isso? Tomou o quê no café da manhã? Coragem em pó? — Sei lá, Bia. Acho que cansei de ser tão certinha. O mundo não vai acabar porque eu respondi o Jorge. — Gostei de ver! É assim que se faz. Mas me diz... tu tá com uma cara de quem aprontou. Tu foi na praia ontem de novo, não foi? Helena sentiu um gelo na nuca. — Fui. O que que tem? — Nada, ué. Mas tu volta sempre com esse cheiro de maresia e essa cara de mistério. Tá escrevendo aquelas tuas cartas pro além ainda? — Mais ou menos isso... — murmurou Helena, voltando a olhar pro computador, mas com um sorriso de canto que ela não conseguiu esconder. Ela já estava contando as horas para a meia-noite chegar. Precisava saber se o "testemunha" ia responder à altura ou se ia fugir depois do esporro que ela deixou por escrito.
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Vieirawxxz
MANO que livro perfeito eu amei muito recomendo parabéns
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3h
0bom
5h
0perfeita interpretação ...vale a pena ver
4d
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