Helena nunca precisou olhar o relógio para saber quando era meia-noite. O corpo dela já era treinado, parecia que tinha um despertador biológico todo regulado pro lado sombrio da força. O peito ficava apertado, a respiração ficava curta e o silêncio daquela casa começou a crescer de um jeito sufocante, como se as paredes estivessem dando um passo pra frente só pra ver ela surtar. Era sempre a mesma fita: quando o dia acabava de verdade e a cidade se calava, alguma coisa dentro dela começava a pesar uma tonelada. — Tá de brincadeira que esse aperto voltou... — Helena resmungou sozinha, encarando o teto do quarto. — Parece que tem um elefante sentado no meu peito, namoral. Por isso ela ia ao mar. Não era aquela parada bonitinha de filme, toda planejada e cheia de poesia. Na real, era mais uma fuga desesperada mesmo. Quando ficar dentro de casa ficava insuportável, Helena pegava a bolsa, enfiava o caderno pequeno que ela carregava há anos e saía de fininho. Sem avisar ninguém, sem postar foto, sem pensar muito. Ela sabia que, se parasse pra raciocinar por dois segundos, a coragem ia pro ralo e ela acabava se encolhendo debaixo do edredom. A praia de Ponta da Areia ficava perto o suficiente para ir andando, e ela curtia isso. Gostava de sentir a areia fria entrando entre os dedos dos pés, o vento batendo no rosto e bagunçando o cabelo castanho que ela nunca tinha paciência de arrumar direito. Àquela hora, a orla era um deserto. E isso era essencial. Helena não queria ser vista por nenhum conhecido, não queria as perguntas de sempre tipo "tá tudo bem?" e, principalmente, não queria ninguém tentando entender a doideira dela. Sentava sempre no mesmo lugar, uma pedra meio isolada, mesmo sem saber explicar o motivo técnico da coisa. Talvez fosse o ângulo da lua refletindo no mar, ou talvez fosse só hábito de gente teimosa. Ou, quem sabe, porque aquele ponto da praia já tivesse visto tanta coisa que não ia julgar uma guria escrevendo pro nada. Ela abria o caderno e escrevia. Não escrevia bonito, não. Zero preocupação com começo, meio ou fim, ou com o que a professora de redação acharia daquilo. À vezes eram páginas inteiras, escritas no modo turbo, com a letra ficando toda torta conforme a mão cansava. À vezes era só uma frase solta, quase um nada. Helena escrevia do jeito que dava, soltando o que vinha na telha. Escrevia sobre o que doía de verdade. Sobre o que ela fingia que não doía só pra não ter que dar explicação. Sobre aquelas lembranças que insistiam em dar um "oi" indesejado bem quando ela achava que já tinha superado o trauma. Escrevia coisas que nunca diria em voz alta nem sob tortura, porque sabia que ninguém saberia lidar com aquela carga toda. Era o seu desabafo místico, a sua terapia de papel e caneta. Depois, ela dobrava a folha com um cuidado quase exagerado. Era bizarro, parecia que aquele papel era a coisa mais importante do mundo. Colocava entre duas pedras, num ponto estratégico onde o vento não levava fácil pro oceano, e ia embora sem olhar pra trás. Sempre foi assim. Uma rotina de descarrego. Mas naquela noite, o clima tava diferente. O ar parecia mais pesado, carregado de eletricidade. Helena escreveu muito mais do que o normal. As palavras saíram rápidas, quase desesperadas, como se estivessem presas na garganta dela fazendo um nó há séculos. Quando terminou, ela sentiu um cansaço que não era de sono, era aquela exaustão da alma, como se tivesse arrancado uma âncora de dentro do peito. Limpou as mãos na calça jeans, deu um suspiro fundo e meteu o pé. Dormiu mal pra caramba. Sonhou com vozes sem rosto, com barulho de construção e com o som do mar sempre muito perto, como se o oceano tivesse se mudado pro corredor do apartamento dela. No dia seguinte, ela tentou agir como uma pessoa funcional. Foi trabalhar, respondeu os e-mails chatos, fingiu que tava prestando atenção nas fofocas do escritório. Riu quando os outros riam, mas o sentimento era de que ela tava interpretando um papel num teatro ruim. Tinha algo errado. Uma sensação estranha de ter esquecido o fogão ligado ou a chave na porta. À noite, ela tentou resistir. Ficou sentada no sofá encarando a TV desligada. — Tu não vai praquela praia hoje, Helena. — ela disse pra si mesma, em voz alta. — Já deu dessa pira. É bizarro, é estranho e tu precisa dormir direito pra variar. Mas, quando percebeu, já estava calçando o tênis e caminhando em direção à areia outra vez. O corpo dela parecia ter GPS próprio pro lugar. O coração começou a acelerar antes mesmo de ela chegar perto da pedra. A carta ainda estava lá. Helena soltou o ar que nem percebeu que tava segurando. Por um milésimo de segundo, ela relaxou. Achou que tava tudo no seu devido lugar. Até que ela notou um detalhe que fez o sangue gelar na hora. O papel tava dobrado de um jeito diferente. Não era muito, mas era o suficiente pra ela, que tinha TOC com aquelas dobras, sacar que alguém tinha mexido ali. O frio subiu pela espinha na mesma hora. Ela olhou em volta, o pescoço estalando, mas a praia continuava vazia, só com o som constante das ondas batendo nas pedras. Mesmo assim, ela agachou devagar e pegou a folha. Tinha algo escrito no verso. E a letra definitivamente não era a dela. Era uma letra firme, elegante, meio de arquiteto. — Não é possível... — ela sussurrou, sentindo a mão tremer. No verso, estava escrito: "Você escreve como quem tenta não desaparecer." Helena sentiu o coração disparar, parecia que ia sair pela boca. Leu de novo. E de novo. Aquilo não parecia uma zoeira de algum adolescente desocupado. Aquilo parecia... profundo demais. Pessoal demais. Ela abriu a carta com os dedos tremendo como vara verde. Lá dentro, abaixo do que ela tinha escrito, tinha mais: "Li o que você deixou aqui ontem. Sei que não era pra mim. Mas algumas dores parecem pedir companhia. Prometo não tocar no que você não quiser dividir." Ela sentou na areia sem nem perceber, as pernas ficaram bambas na mesma hora. Quem diabos estaria ali no meio da madrugada lendo as angústias dela? E mais: quem responderia daquele jeito, com tanta calma? No final da página, tinha uma frase menor, que parecia um desafio: "Se quiser que eu pare, é só não voltar a escrever aqui." Helena levantou o olhar para a lua, sentindo-se a pessoa mais perdida do planeta. A lógica dizia pra ela rasgar aquilo, bloquear a praia mentalmente e nunca mais botar os pés ali. Mas tinha algo naquele papel, uma energia, um calor que ela não sentia há muito tempo. Era como se o silêncio dela tivesse finalmente encontrado um eco. — Que doideira é essa, meu Deus? — ela perguntou pro vento, mas o vento só soprou o cabelo dela pro rosto. Ela sabia que devia parar. Qualquer pessoa sã pararia. Mas Helena também sabia outra coisa, bem lá no fundo, onde a gente não consegue mentir nem pra gente mesma: ela ia voltar. Ela precisava saber quem era o dono daquela letra que parecia conhecer o que ela sentia sem nem saber o seu nome. Guardou o papel no bolso, sentindo o peso daquela nova conexão. A história dela, que até então era só um monólogo triste pro mar, tinha acabado de virar um diálogo. E ela mal podia imaginar que aquela resposta era o primeiro fio de uma rede que ia trazer de volta alguém que o mar tinha tentado esconder para sempre. Levantou-se, limpou a areia da calça e caminhou de volta pra casa. Mas dessa vez, ela não se sentia sozinha. Sentia que tinha deixado um pedaço de si lá, e que alguém — ou alguma coisa — estava cuidando desse pedaço. — Amanhã... — ela pensou. — Amanhã eu trago uma caneta nova. O mistério estava lançado, e em algum lugar entre as ondas, um brilho azulado sutil apareceu por um segundo antes de sumir na escuridão do oceano.
Thank you
Support the author to bring you wonderful stories
Cost 32 diamonds
Balance: 0 Diamond ∣ 0 Points
Book Comment (221)
Emilly Miranda
eu amei ler esse livro!!🥰
3h
0
Vieirawxxz
MANO que livro perfeito eu amei muito recomendo parabéns
eu amei ler esse livro!!🥰
3h
0MANO que livro perfeito eu amei muito recomendo parabéns
7h
0bom
9h
0View All