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Capítulo 2: Onde tem fumaça, tem... jantar em família?

Eu mal consegui pregar o olho naquela noite. Sabe quando vc fecha os olhos e parece q a cena do café fica reprisando na sua cabeça tipo um Reels infinito? Pois é. Eu ficava lembrando do jeito q o Lucas me olhou e cara... que ódio de mim mesma por estar dando bola pra um garoto q eu conheci faz duas horas. Mas tinha algo nele sabe? Uma vibe meio intensa, meio "tô nem aí pra nada" mas que te prende real.
Na manhã seguinte a minha casa tava com um cheiro maravilhoso de café passado e rabanada. Minha mãe Luiza, tava cantarolando na cozinha. Ela tava radiante juro, parecia q tinha ganhado na loteria e não apenas conhecido um coroa inteligente num evento literário.
— Bom dia flor do dia! — ela disse toda animada quando me viu entrando na cozinha com a cara toda amassada e o cabelo parecendo um ninho de mafagafos kkkk.
— Bom dia dona Luiza. Que animação é essa? O historiador já mandou bom dia no Zap? — brinquei pegando uma caneca e me servindo.
— Na verdade... sim! — ela deu um pulinho parecendo uma adolescente de 15 anos. — O Henrique é um cavalheiro Lia. Ele me convidou pra jantar na casa dele amanhã. E ele fez questão que você fosse disse que o Lucas também vai estar lá.
Eu quase engasguei com o café. Jantar na casa deles? Já? Calma aí o destino tá correndo demais não acha não?
— Mãe sério? A gente acabou de conhecer os caras. E se eles forem serial killers q usam livros pra atrair vítimas? — eu disse fazendo uma voz de suspense lembrando dos meus podcasts de crime kkkk.
— Para de ser boba! Ele é uma figura pública Lia. E o filho dele é uma gracinha você não achou?
— É... ele é legalzinho — menti na cara dura. "Legalzinho" era o eufemismo do século. O garoto era um pecado.
Passei o dia no trabalho na lanchonete pensando nisso. A "Lanches do Gordo" tava bombando pq era sexta-feira. Eu tava lá anotando pedidos, limpando mesa e aguentando o Seu Jorge, o dono reclamando do preço do tomate. Minha melhor amiga a Tati, encostou no balcão pra trocar uma ideia. A Tati é o oposto de mim: ela é toda "soft girl" ama maquiagem colorida e sabe da vida de todo mundo no bairro.
— Amiga vc tá no mundo da lua hoje né? Já errou o pedido da mesa 4 duas vezes — a Tati disse rindo e ajeitando o piercing no nariz.
— Ai Tati minha mãe cismou com um cara aí. E agora a gente vai jantar na casa dele. O filho dele é um gato mas sei lá... o clima tá estranho.
— Gato nível o quê? Nível "curtiria uma foto no Insta" ou nível "faria um edit no TikTok"? — ela perguntou curiosa pra caramba.
— Nível... ele parece ser bem mais velho q eu sei lá. Ele tem uma cara de quem já viveu muita coisa. Mas é bonito tipo, muito.
— Ih se tem cara de mais velho e é bonito corre que é cilada ou é o amor da sua vida kkkkk. Me conta tudo depois desse jantar hein!
O dia passou arrastado e quando chegou o sábado à noite eu tava num dilema real sobre o q vestir. Eu não queria parecer q tava tentando impressionar mas também não queria ir de qualquer jeito. Acabei optando por uma calça wide leg preta um cropped branco básico e minha jaqueta de sarja verde militar. Nos pés o bom e velho All Star plataforma. Deixei meu cabelo solto bem natural mesmo.
Minha mãe tava impecável num vestido azul marinho. A gente pegou um Uber pro endereço que o Henrique passou. Era num condomínio bem bacana, casas grandes, jardim impecável... bem diferente do nosso apê simples na Zona Norte onde o vizinho de cima decide arrastar móveis às duas da manhã kkkk rindo de nervoso.
Quando a gente chegou o Henrique abriu a porta com um sorrisão. A casa era linda cheia de estantes de livros (óbvio) e uns quadros de arte moderna.
— Entrem entrem! A casa é de vocês — ele disse dando um beijo no rosto da minha mãe que claro, ficou vermelha na hora.
— Oi Henrique. Obrigada pelo convite — eu disse tentando ser educada e feminina como minha mãe sempre pede mas mantendo minha postura firme.
— Imagina Lia. O Lucas tá lá na varanda ele tá tentando consertar uma câmera antiga dele. Pode ir lá se quiser a gente vai terminar de preparar o risoto.
Fui andando até a varanda q tinha uma vista incrível pro jardim dos fundos. O Lucas tava sentado num banco de madeira cercado por peças de metal minúsculas e uma câmera analógica aberta. Ele tava concentrado com a língua levemente entre os dentes.
— Isso aí vai explodir ou tem conserto? — perguntei chegando perto.
Ele levou um susto de leve e olhou pra cima. Dessa vez ele tava sem o moletom só com uma camiseta de banda branca q deixava ver umas tatuagens no braço. Uma delas era uma bússola bem detalhada. Caramba q braço kkkk.
— Depende do meu humor. Mas acho que essa Leica aqui ainda tem salvação — ele disse limpando as mãos num pano sujo de graxa. — E aí Lia. Veio ver o mico dos nossos pais de perto?
— Vim garantir que minha mãe não saia daqui com um noivado marcado — brinquei sentando num degrau perto dele. — Ela tá bem empolgada.
— Meu pai também. Faz tempo que não vejo ele assim falando pelos cotovelos. Ele geralmente é bem mais na dele.
A gente ficou num silêncio mas não era aquele silêncio chato sabe? Era confortável. Eu fiquei observando ele mexer naquelas peças pequenas. O Lucas tinha mãos grandes mas era muito delicado mexendo na câmera.
— Você gosta mesmo disso né? De coisas antigas — eu comentei pegando uma lente q tava em cima da mesa. Cuidado pra não riscar Lia pelo amor de Deus.
— Gosto. As coisas hoje em dia são muito descartáveis. Uma foto digital você tira mil e apaga novecentas. Na analógica você tem que pensar antes de clicar. Cada clique vale — ele explicou me olhando de um jeito q me deixou meio bamba.
— Faz sentido. Eu desenho então entendo essa coisa de levar tempo pra criar algo.
— Você desenha? Quero ver depois.
— Quem sabe um dia — dei um sorriso desafiador.
A gente continuou conversando e eu descobri que ele não tava mais na escola faz tempo. Ele me contou q tava fazendo faculdade de Cinema mas tinha trancado pra focar em uns projetos de fotografia documental.
— Pera vc já tá na faculdade? Mas quantos anos vc tem Lucas? — perguntei tentando parecer casual mas por dentro eu tava tipo "meu Deus ele é um adulto?".
Ele deu uma risada curta achando graça da minha cara.
— Fiz vinte faz uns meses. Por quê? Pareço um velho caduco de trinta?
— Não! É que... eu achei q vc tivesse a minha idade. Dezessete.
— Ah entendi. Três anos de diferença não é tanto assim né? — ele disse dando um passo pro meu lado ficando bem perto. Dava pra sentir o cheiro do perfume dele algo q lembrava madeira e sândalo. — Ou você só sai com moleque de colégio?
— Eu não saio com ninguém pra sua informação — respondi tentando manter a pose de garota independente. — Sou focada no meu corre.
— Sei... o corre da lanchonete. O historiador me falou que você trabalha pra caramba. Acho isso maneiro.
O jantar foi servido e foi aquela coisa bem família. O risoto do Henrique tava muito bom (ele usou um arroz arbóreo de uma marca italiana que eu nem sabia pronunciar). Eles conversaram sobre viagens, sobre livros e sobre como a vida surpreende a gente. Eu e o Lucas ficamos trocando olhares o tempo todo. Era tipo um jogo silencioso.
Lá pelas tantas o assunto caiu em música e o Henrique pediu pro Lucas pegar o violão.
— Ah não pai hoje não — o Lucas reclamou mas dava pra ver q ele não tava com raiva de verdade.
— Vai filho toca aquela que você compôs — Henrique insistiu.
O Lucas acabou pegando um violão que tava num canto da sala. Ele começou a tocar uns acordes suaves nada de música de rádio era algo mais profundo meio melancólico. Eu fiquei ali olhando pra ele e percebi q a situação tava ficando perigosa. Eu não podia me apaixonar pelo filho do "namorado" da minha mãe. Isso ia ser uma confusão sem tamanho.
Mas o problema de ser forte e resiliente como todo mundo diz q eu sou é que às vezes a gente esquece de proteger o próprio coração. E o Lucas com aquele jeito de quem não quer nada tava entrando por todas as frestas q eu deixei abertas.
Quando a gente foi embora já era tarde. O Henrique deu um beijo na testa da minha mãe e ela quase derreteu no asfalto. O Lucas só me deu um tchau com a cabeça mas antes de eu entrar no carro ele se aproximou e sussurrou:
— Me passa seu Insta ddepois? Quero ver seus desenhos.
Eu só assenti com o coração parecendo uma escola de samba.
No caminho de volta no Uber minha mãe não parava de falar.
— Ai Lia ele é tão culto! E o Lucas é um amor de menino né? Tão educado...
— É mãe um amor — eu disse olhando pela janela as luzes da cidade passando rápido.
Eu mal sabia q aquele jantar era só o começo. Pq enquanto minha mãe tava construindo algo com o Henrique eu tava começando a me perder no labirinto q era o Lucas. E o pior eu nem tinha visto o q vinha pela frente. Tinha mais alguém que ia entrar nessa história mas na hora eu só conseguia pensar no sorriso de canto de boca do garoto de vinte anos que consertava câmeras antigas.

Book Comment (59)

  • avatar
    Mayra Eloise

    Amei , muito legal !

    4d

      0
  • avatar
    Gabrieli Lopes

    O livro é uma mistura de sentimentos e desejos com um toque de dúvidas e medo

    14d

      0
  • avatar
    De oliveiramurilo

    amém 🙌🏽🙏🏽

    20d

      0
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