Capítulo 1: O destino tem um senso de humor bem estranho
Olha, se tem uma coisa q eu aprendi trabalhando na "Lanches do Gordo" desde os dezesseis é que o ser humano é bizarro... mas nada supera o destino quando ele decide brincar de cupido. Eu tava exausta, meu pé latejava dentro daquele tênis velho da Vans que já viu dias melhores e tudo q eu queria era minha cama. Mas lá estava eu, parada numa fila quilométrica do Centro Cultural, segurando a bolsa da minha mãe enquanto ela retocava o batom pela décima vez... Minha mãe a Luiza, é tipo a pessoa mais doce do universo. Ela é professora de literatura entao você já imagina o nivel da empolgação dela com esse evento de autógrafos. Ela tem 38 anos, mas juro, com aquele cabelo castanho ondulado e o jeito animado parece q tem a minha idade. Ela ama ler obvio, e coleciona canecas de cerâmica q ela compra em todo lugar q vai. Desde q meu pai se foi por causa daquela doença maldita eu me tornei o porto seguro dela e ela o meu. Somos carne e unha real. — Lia meu amor, meu cabelo tá muito bagunçado? — ela perguntou olhando pro reflexo num vidro de um quadro. — Tá linda mae. Relaxa. O autor nem vai reparar no seu cabelo com essa fila toda querendo atenção — eu disse dando um sorriso de lado pra confortar ela. — Ai vc é tão prática filha. Queria ter essa sua frieza. — Não é frieza, é cansaço acumulado de oito horas montando X-Salada — brinquei mas no fundo eu tava feliz de ver ela ali toda radiante. Eu sou a Lia. Tenho 17 anos e bom, me consideram "forte". Eu não tenho muita paciência pra frescura e prefiro resolver as coisas logo. Gosto de desenhar no meu tempo livre — quando tenho algum — e sou viciada em ouvir podcasts de crime real enquanto lavo a louça kkkk. Mas apesar dessa casca de garota independente q trabalha e ajuda em casa, eu ainda sou meio boba com romances, só não conto pra ninguém. A fila andou um pouco e a gente entrou no salão principal. O lugar tava cheirando a livro novo e café caro. Tinha um cara alto falando com um grupo de pessoas perto da mesa de autógrafos. Ele parecia ser bem mais velho talvez uns 40 e poucos, com uma barba rala meio grisalha e uma jaqueta de couro marrom que parecia custar meu salário de três meses kkkk rindo de nervoso. — Nossa aquele ali é o Henrique? — minha mãe sussurrou ficando vermelha do nada. — Quem? O de jaqueta? — perguntei já sentindo q o clima ia mudar. — Não Lia! Henrique Brandão, o historiador q eu sigo no Instagram... ele q organizou o debate de hoje. E foi aí q o caos começou. A gente tava passando perto dele pra ir pro fundo da sala quando minha mãe na maior lerdeza do mundo tropeçou no próprio pé e a bolsa dela voou longe. O conteúdo — batom, chave, lixa de unha e um livro — espalhou todinho no chão bem no pé do tal Henrique. Pensa num mico!!!! — Ai meu Deus q mico... — ela resmungou agachando rápido. Eu ia ajudar mas o cara foi mais rápido. Ele se abaixou pegou o livro e deu um sorriso que olha... até eu que sou difícil achei charmoso. — "O Tempo e o Vento"? Excelente escolha de leitura — ele disse com uma voz grossa e calma. — É... eu sou professora amo esse clássico — minha mãe respondeu toda gaguejante. Que dó gente kkkk. — Prazer eu sou o Henrique. Você parece ter sofrido um pequeno acidente geográfico aqui no carpete. — Sou Luiza. E essa é minha filha Lia. Eu só dei um tchauzinho com a mão sentindo q eu ia segurar muita vela naquela noite. Henrique era gente fina dava pra ver. Ele era inteligente falava sobre história como se tivesse vivido nela e tinha um hobby de restaurar relógios antigos — ele contou isso em dois minutos de conversa descontraída. Ele era divorciado e parecia bem resolvido. — Vocês querem tomar um café depois que a fila acabar? — Henrique perguntou olhando fixo pra minha mãe. — Meu filho tá vindo pra cá me buscar podíamos todos conversar mais. Minha mãe me olhou com aquele pedido de socorro nos olhos mas eu sabia q ela queria ir. — Por mim suave. Tô morrendo de fome mesmo — eu disse dando o empurrãozinho q ela precisava. A gente esperou um pouco e fomos pra uma cafeteria ali do lado a "Grão Urbano". O lugar era bem rústico com lâmpadas de filamento e cheiro de canela. Henrique tava sendo super legal com a minha mãe e eu tava lá no meu celular tentando não parecer uma intrusa. Foi quando a porta da cafeteria abriu e um garoto entrou. Ele era alto tinha o cabelo meio bagunçado pra frente e usava um moletom preto largo da Thrasher. Tinha um fone de ouvido pendurado no pescoço e uma cara de quem preferia estar em qualquer lugar menos ali. — Lucas finalmente! — Henrique chamou. — Vem cá conhecer a Luiza e a Lia. O garoto se aproximou e caramba... ele tinha uns olhos que pareciam q liam a sua alma. Ele devia ter a minha idade 17 ou 18. Descobri depois q o hobby dele era fotografia e skate e que ele era o tipo de garoto que fala pouco mas observa tudo. Meio misterioso sabe? Meio "bad boy" mas com cara de que chora vendo filme da Pixar kkkk. — E aí — ele disse com uma voz preguiçosa sentando na cadeira do meu lado. — Oi — respondi tentando não parecer afetada pelo fato dele ser absurdamente bonito de perto. — Seu pai também te obrigou a vir? — ele perguntou dando um sorrisinho de canto de boca enquanto pegava o cardápio. — Na verdade eu vim por livre e espontânea pressão da minha mae. Ela é fã do seu pai pelo visto — apontei discretamente pros dois que já tavam num papo animado sobre a Revolução Francesa ou algo assim. — Pois é. O meu velho quando começa a falar de história não para mais. Prepare os ouvidos Lia. — Já tô acostumada. Minha mãe recita poemas enquanto faz o jantar. A gente começou a conversar e por incrível que pareça o papo fluiu. Lucas era sarcástico do jeito que eu gosto. Ele me contou que odiava matemática e que amava bandas indie q ninguém nunca ouviu falar. Eu contei q fazia o melhor milkshake de morango da Zona Norte e ele duvidou o que já me deu vontade de provar que eu sou a melhor mesmo. Enquanto a Luiza e o Henrique pareciam estar vivendo um primeiro encontro de cinema eu e o Lucas estávamos ali num clima estranho de "será q a gente vai ser irmão ou algo assim?". Mas tinha uma faísca ali uma coisa q eu não sabia explicar. A gente saiu de lá quase meia-noite. O ar tava frio e a rua tava vazia. — A gente se vê por aí Lia? — Lucas perguntou antes de entrar no carro do pai. — Talvez. Se minha mãe não resolver virar historiadora de vez — brinquei. — Eu acho q eles vão se ver de novo. E a gente também. Ele entrou no carro e eu fiquei ali parada olhando o sinal vermelho lá no fundo da rua. Minha mãe tava com um brilho nos olhos que eu não via faz anos. E eu? Eu tava sentindo q minha vida tranquila na Zona Norte tinha acabado de ganhar um capítulo bem complicado...
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Book Comment (60)
RibeiroYasmin
100
9h
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Mayra Eloise
Amei , muito legal !
6d
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Gabrieli Lopes
O livro é uma mistura de sentimentos e desejos com um toque de dúvidas e medo
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9h
0Amei , muito legal !
6d
0O livro é uma mistura de sentimentos e desejos com um toque de dúvidas e medo
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