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Capítulo 2 Como Perder um iPhone e um Rim na Mesma Noite

O "Trovão de Aço" sacolejava tanto que a Ayumi achou seriamente que ia perder um rim no caminho. Cada buraco que o Washington acertava naquelas ruas esburacadas da Zona Leste parecia um golpe de luta livre na coluna dela. O painel do carro vibrava num ritmo próprio, e o rádio, preso por um chiclete e esperança, tentava tocar um modão que falhava a cada curva.
— Washington, na moral, se esse carro desmontar e uma roda sair rolando, eu juro que eu te processo por danos morais e físicos! — Ayumi gritou, segurando no Puta-Que-Pariu acima da porta.
— Relaxa, japa! O Trovão é igual a mim: meio feio, barulhento, mas não te deixa na mão. Ele só tá... se expressando. — Washington respondeu, dando um tapa no volante como se estivesse fazendo carinho num cachorro.
— Se expressando? Ele tá pedindo eutanásia, isso sim! E abaixa esse rádio, ninguém merece ouvir sofrência depois de quase virar estatística de sequestro.
Washington soltou uma risada e deu um cavalinho de pau suave pra encostar na frente de um trailer iluminado por luzes de neon capengas. O letreiro dizia "Lanches do Baixinho", e o cheiro de gordura e chapa quente dominava o ar num raio de três quarteirões.
— Chegamos no paraíso, madame. O melhor X-Tudo da região. Se o colesterol não subir dez pontos só de olhar, o lanche é grátis.
Eles desceram do carro. Ayumi ainda estava com a roupa meio suja de poeira do galpão, mas a fome falava mais alto que a vaidade. Eles se sentaram em duas cadeiras de plástico vermelhas que tavam pedindo socorro.
— Ô Baixinho! Manda dois daquele lá que infarta o vivente! E duas coquinhas de vidro, daquelas bem geladas que trincam o dente! — gritou Washington, já se acomodando como se fosse o dono do lugar.
Ayumi cruzou os braços, olhando para os lados. O instinto de TI dela tava apitando. Ela não conseguia simplesmente desligar o modo alerta.
— Washington, papo sério agora. Quem eram aqueles caras? Aquele papo de "acessos da conta" não foi aleatório. Ninguém sequestra uma programadora de segurança só pra pedir o dinheiro do lanche.
O homem de jaqueta de couro suspirou, perdendo um pouco daquele brilho brincalhão nos olhos. Ele tamborilou os dedos na mesa de metal.
— Olha, Ayumi... O mundo é pequeno, mas o submundo é um ovo. Aqueles caras trabalham pro "Doutor". Já ouviu falar?
— O Doutor? Aquele cara que dizem que controla as redes de apostas clandestinas e lavagem de cripto? Pensei que ele fosse lenda urbana pra assustar hacker iniciante.
— Pois é, a lenda tem CPF e um mau gosto danado pra capangas. Parece que você mexeu num vespeiro quando bloqueou aquele fluxo de dados na semana passada, né?
Ayumi deu de ombros, fingindo desinteresse, mas por dentro ela tava ligando os pontos.
— Eu só fiz meu trabalho. Tinha um vazamento de dados bizarro na corretora que eu presto consultoria. Eu fechei a porta e joguei a chave fora. Se o dinheiro dele tava no meio, azar o dele.
— Azar o seu, guria! O cara não aceita "azar" como resposta. Ele quer a chave de volta.
O Baixinho chegou com os lanches. Eram monstros de pão, carne, ovo, presunto, queijo, milho, ervilha, batata palha e uma maionese verde que parecia radioativa. Por um segundo, a tensão sumiu diante daquela maravilha gastronômica.
— Meu Deus, isso é um crime contra a saúde pública... — Ayumi murmurou, já dando uma mordida gigante. — ... e tá maravilhoso.
— Viu só? Eu te disse. O Washington nunca erra o point.
Eles ficaram ali comendo em silêncio por alguns minutos, o tipo de silêncio de quem tá recuperando as energias pra próxima batalha. Mas, de repente, o clima mudou. Washington, que tava com a boca cheia de maionese, deu uma olhada rápida pelo canto do olho em direção à rua.
Um sedã preto, com os vidros tão escuros que não dava pra ver nem a alma de quem tava dentro, passou devagarzinho pela frente do trailer. O carro não parou, mas a velocidade era suspeita demais.
— Ayumi... não olha agora, mas a gente tem companhia. — Washington falou baixo, sem mudar a expressão, pegando o guardanapo pra limpar a boca.
— O sedã preto? Eu vi quando ele virou a esquina lá atrás. Achei que era só um Uber perdido.
— Uber com pneu de alta performance e motor mexido? Duvido muito. Termina isso aí rápido.
— O quê? Eu não vou deixar metade desse lanche pra trás nem morta! — Ayumi acelerou as mordidas, ignorando a etiqueta.
— Então engole esse resto e vamos pro carro. Agora.
Eles levantaram rápido. Washington jogou o dinheiro na mesa e eles caminharam pro jipe tentando parecer casuais, mas o coração da Ayumi já tava batendo no pescoço. Assim que entraram e o Washington bateu a porta, o sedã preto, que tinha feito o retorno na quadra de cima, acelerou na direção deles.
— Ih, caramba! Lá vêm os chatos de novo! — Washington girou a chave e o Trovão de Aço deu aquele soluço clássico antes de rugir.
— Washington, acelera essa joça! Eles estão vindo rápido!
— Relaxa, japa! Se segura que agora o motorista aqui vai mostrar por que eu perdi minha carteira de motorista três vezes!
Ele engatou a marcha e saiu arrancando, fazendo os pneus traseiros gritarem no asfalto. O sedã preto veio logo atrás, colando na traseira do jipe.
— Eles estão armados? Diz que eles não estão armados! — Ayumi se abaixou um pouco no banco.
— Provavelmente estão, mas atirar na rua a essa hora atrai muita atenção. Eles querem é fechar a gente pra te levar de novo.
— Ah, mas nem por um decreto! Se eles encostarem no meu cabelo de novo, eu mesma hackeio a vida deles até eles não conseguirem comprar um picolé no débito!
Washington começou a fazer zig-zag entre os carros de quem voltava da balada ou do trabalho. O jipe, apesar de parecer que ia se desintegrar, tinha uma suspensão que aguentava subir em calçada, e foi exatamente o que o Washington fez.
— O que você tá fazendo?! — Ayumi gritou quando sentiu o tranco.
— Atalho, bebê! O sedã deles é baixo, não sobe aqui nem querendo!
Ele cortou por dentro de uma praça, assustando um grupo de pombos e quase levando uma banca de jornal junto. O sedã teve que frear bruscamente e dar a volta no quarteirão.
— Ganhamos tempo, mas eles não vão desistir. — Washington disse, focado no retrovisor. — Eles estão monitorando o sinal do seu celular, Ayumi! Joga essa porcaria fora!
— Tá louco? É um iPhone último modelo! Eu não vou jogar meu celular fora!
— Então desliga essa droga e tira o chip, sei lá! Eles estão rastreando a gente como se a gente estivesse com um letreiro luminoso na cabeça!
Ayumi começou a mexer freneticamente no aparelho.
— Pronto, entrei no modo avião e desativei tudo. Mas a gente precisa de um lugar pra se esconder, Washington. Não dá pra ficar dando volta na ZL até a gasolina acabar.
— Eu conheço um lugar. É um ferro-velho de um primo de um amigo meu. O lugar é um labirinto de sucata. Se a gente conseguir chegar lá, eles perdem a gente de vista.
— "Primo de um amigo seu"? Washington, seus contatos são sempre tão... suspeitos?
— É o que tem pra hoje, japa! Quer que eu ligue pro Batman? Não tenho o número dele!
De repente, um estrondo ecoou. O vidro lateral do jipe não estourou, mas um buraco de bala apareceu bem na moldura da porta.
— Eles começaram a atirar! Washington, eles estão atirando de verdade! — Ayumi se encolheu no assoalho do carro, entre farelos de biscoito e tapetes sujos.
— Ah, agora eles apelaram! Ninguém fura o meu Trovão e sai impune! — Washington puxou o volante com força, entrando numa rua de terra sem saída aparente.
— É rua sem saída, seu burro! A gente vai ficar encurralado!
— Confia no pai, Ayumi! Aquela cerca ali na frente? É de madeira podre!
— Washington, não ouse...
— Se segura, japa! Lá vai o Trovão!
O jipe atravessou a cerca como se fosse papel, entrando direto num pátio cheio de carros empilhados e carcaças de ônibus. O sedã preto parou na entrada, hesitando por causa do terreno irregular.
Washington manobrou com perícia entre duas pilhas de metal retorcido e desligou os faróis, parando o motor logo em seguida. O silêncio que se seguiu era quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo estalo do metal quente do jipe esfriando.
— Morreu? — Ayumi sussurrou, ainda lá embaixo.
— Shhh! — Washington colocou a mão na boca dela. — Fica quieta. Vamos ver se eles têm coragem de entrar aqui a pé.
Eles ficaram ali, no escuro, ouvindo o som de portas de carro batendo lá fora. Ayumi sentia a respiração do Washington perto do seu rosto. Ele não parecia com medo; parecia... animado.
— Você tá gostando disso, né? — ela resmungou contra a mão dele.
— É melhor que pagar academia, fala aí. — ele sussurrou de volta, com aquele sorrisinho de lado que ela já tava começando a odiar por gostar. — Agora vem, vamos sair por esse lado. A gente precisa se entocar antes que o Caveira e os amiguinhos dele comecem a brincar de esconde-esconde.
*Eles estão cercados no ferro-velho, no meio de um labirinto de metal. Washington só tem o "Argumento" (seu porrete) e a Ayumi só tem o cérebro dela (e um iPhone em modo avião).*

Comentário do Livro (82)

  • avatar
    PadilhxAna

    Perfeito

    10d

      0
  • avatar
    Lara Rafaella

    Muito bom

    11d

      0
  • avatar
    SantosThamires

    maravilhoso

    13d

      0
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