A noite em São Paulo tava aquele caldeirão de sempre. O asfalto ainda soltava o calor do dia e o barulho da Radial Leste parecia uma trilha sonora de caos. Ayumi só queria uma coisa: seu combo de salmão com cream cheese e ir pra casa maratonar qualquer série que não a fizesse pensar em códigos de programação. Ela tava saindo do restaurante, conferindo o celular, quando um furgão branco — aquele clássico clichê de filme de terror, mas sem a parte do "doces grátis" — parou bruscamente na sua frente. — Ah, qual é! Não sabe estacionar não, ô energúmeno? — Ayumi gritou, nem aí pra quem tava dentro. A porta lateral correu com um barulho metálico seco. Dois caras de capuz pularam pra fora. Um deles fedia a cigarro barato e o outro parecia que não tomava banho desde a última Copa do Mundo. — Perdeu, japa! Entra logo e não pia! — disse o mais alto, agarrando o braço dela. Ayumi tentou dar um pisão no pé do sujeito, mas o outro cara foi mais rápido e jogou um saco de pano na cabeça dela. O mundo ficou escuro e com cheiro de mofo. — Gente, sério? Um saco na cabeça? Isso é tão anos 90... — a voz dela saiu abafada enquanto era jogada pra dentro do veículo. — E vê se não encosta no meu temaki, seus trogloditas! O furgão arrancou fritando pneu. Ayumi foi jogada de um lado pro outro, batendo o ombro na lataria fria. Ela xingava tudo que era nome, enquanto os sequestradores tentavam, sem sucesso, fazer ela calar a boca. — Dá pra você ficar quieta? A gente tá tentando fazer um sequestro sério aqui! — reclamou o motorista. — Sequestro sério? Vocês me pegaram na frente de uma delegacia de plantão, seus gênios! Se eu fosse vocês, já ia pedindo o cardápio da última ceia. Enquanto isso, do outro lado da cidade, num bar que servia uma coxinha duvidosa, Washington limpava a boca com um guardanapo de papel que não absorvia nada. O celular dele vibrou na mesa, quase caindo no chão. Era um alerta de um dos seus "contatos" na rede. — Mas nem na hora do lanche o cara tem paz... — resmungou ele, olhando a tela. Era um vídeo de uma câmera de segurança de um mercado. Ele viu o furgão. Viu a japa sendo levada. E, principalmente, reconheceu o adesivo de um patinho de borracha no vidro traseiro do carro. — Pô, o Kleber de novo? Esse cara não aprende que sequestro de mulher brava dá prejuízo? Washington levantou, jogou umas notas amassadas no balcão e saiu em direção ao seu jipe, que ele chamava carinhosamente de "Trovão de Aço", embora parecesse mais um "Chocalho de Alumínio". — Bora lá, Trovão. Vamos tirar a guria do sufoco antes que ela mate os sequestradores de tanto falar. Ele deu partida e o motor tossiu fumaça preta antes de pegar de vez. Washington engatou a primeira e saiu rasgando, desviando dos motoboys como se estivesse jogando videogame. Horas depois, num galpão abandonado na Zona Leste que cheirava a bicho morto, Ayumi tava amarrada numa cadeira de plástico dessas de boteco. O saco já tinha saído da cabeça dela, revelando um delineado levemente borrado e um olhar que prometia morte lenta a qualquer um que se aproximasse. — Então, vão pedir o resgate ou vão ficar me olhando com essa cara de quem tá com prisão de ventre? — Ayumi perguntou, balançando as pernas. O líder do grupo, um cara que se chamava (ou dizia se chamar) "Caveira", mas que tinha mais cara de "Vitamina", acendeu um cigarro. — Escuta aqui, garota. Tu fala demais. O patrão quer os acessos daquela conta que você protege. Passa a senha e tu volta pra casa inteira. — Ah, entendi. É crime cibernético agora? Que chique. Mas ó, vou te mandar a real: a senha é longa pra caramba e eu só digito se tiver um café expresso e um ar-condicionado. Esse mofo aqui tá acabando com a minha rinite. — Tu tá achando que é brincadeira? — Caveira chegou perto, tentando fazer uma cara de malvado que não convencia nem criança. — Eu acho que você devia usar um desodorante, isso sim. Tá puxado o cheiro aí, meu chapa. Antes que o bandido pudesse responder, um estrondo veio do teto. Não foi uma explosão cinematográfica, foi mais como se algo pesado — tipo um homem de cem quilos — tivesse caído em cima de umas telhas de amianto. — Mas que diabos...? — Caveira olhou pra cima. De repente, a porta dos fundos voou. Não foi um chute, foi o jipe do Washington que entrou derrubando o portão de ferro, parando a centímetros de uma pilha de pneus. Washington saltou do carro, segurando uma lanterna enorme e um porrete de madeira que ele chamava de "O Argumento". — E aí, rapaziada! Desculpa chegar sem avisar, é que o GPS disse que aqui era a festa da firma e eu não queria perder o bolo! Ayumi soltou um suspiro pesado, mas com um fundinho de alívio. — Demorou, hein, ô GPS estragado? Eu já tava quase convencendo eles a me darem uma participação nos lucros do sequestro. — Foi mal, japa! O trânsito na Marginal tava um lixo e eu tive que parar pra calibrar o pneu. Sabe como é, segurança em primeiro lugar. Washington deu dois passos pro lado, girando o porrete na mão com uma habilidade que não batia com aquela cara de quem acordou agora. Os três capangas se olharam, meio perdidos. — Quem é esse maluco? — gritou o Caveira. — Eu? Eu sou o cara que vai fazer vocês economizarem na conta do dentista, porque não vai sobrar nenhum dente pra escovar se não soltarem a moça agora — Washington disse, abrindo um sorriso largo e perigoso. — Pega ele! — ordenou o chefe. Dois caras foram pra cima. Washington nem suou. Ele desviou do primeiro soco com uma agilidade de gato gordo, deu uma rasteira no segundo e usou "O Argumento" pra dar um tchauzinho na costela do primeiro. — Ai! Pô, isso dói, sabia? — reclamou o capanga no chão. — É pra doer mesmo, cabeção! Achou que era massagem? — Washington rebateu, já partindo pra cima do próximo. Ayumi, ainda amarrada, começou a pular com a cadeira pra ficar mais perto da cena. — Vai, Washington! No fígado! Isso, boa! Agora dá um chute na canela dele pra ele aprender a não mexer com quem tá quieto! — Dá pra parar de narrar, Ayumi? Tá me desconcentrando aqui! — gritou Washington, enquanto desviava de uma cadeira arremessada. Em menos de cinco minutos, o galpão parecia um campo de batalha de quinta categoria. Os bandidos tavam todos estirados, reclamando da vida. Washington guardou o porrete debaixo do braço e caminhou até a Ayumi, tirando um canivete do bolso pra cortar as cordas. — E aí, tá inteira ou os caras te machucaram? Se encostaram um dedo em você, eu volto ali e dou mais umas bofetadas. Ayumi sentiu as cordas caírem e levantou num salto, alongando as costas. — Tô bem, só com as costas moídas. E meu temaki ficou no carro deles, ou seja, tô com uma fome de dragão. — Relaxa, eu conheço um podrão aqui perto que fica aberto até às quatro. Por minha conta, pra compensar o susto. — "Por sua conta" nada, você me deve um jantar decente depois dessa presepada toda. E olha só aquele seu carro... você entrou derrubando o portão mesmo? Precisava de tanto drama? — Ah, qual é! Foi uma entrada triunfal, admite. Eu treinei essa manobra no estacionamento do mercado a semana toda. — Você é um idiota, Washington. — Sou o seu idiota favorito que acabou de te salvar. Agora bora, antes que o reforço desses manés resolva aparecer. Eles caminharam até o jipe, passando por cima dos caras desmaiados. Washington abriu a porta pra ela com uma reverência exagerada. — Mademoiselle, seu transporte de luxo aguarda. Só ignora o cheiro de mofo, o Trovão de Aço tá na fase "vintage". — Vintage é meu ovo, Washington. Isso aqui é sucata. Mas vai, acelera logo essa banheira. O jipe saiu do galpão cantando pneu, deixando pra trás uma nuvem de poeira e três sequestradores arrependidos de terem saído da cama naquele dia. O que eles não sabiam é que aquilo era só o começo de uma treta muito maior, e que o tal "patrão" não ia deixar barato.
Obrigado
Apoie o autor para lhe trazer histórias maravilhosas
muito bom e legal eu super recomendo
2d
0bom
6d
0Perfeito
18d
0Ver Todos