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Capítulo 7 SOFIA

A voz do professor virou um zumbido distante, como se o mundo tivesse sido colocado no mudo. Eu olhava pro nada. Ou melhor, pra dentro de mim.
Victor.
Ele ficou ao meu lado, me ajudou a levantar com um cuidado quase tímido, e perguntou se eu conseguia andar. A voz era calma, como quem não quer invadir um espaço sagrado. E o mais estranho? Eu me senti segura. Mesmo sem conhecer ele direito.
Ele insistiu em me levar até perto da casa da Sara, já que não queríamos que dois desconhecidos soubessem o endereço. E a cada vez que perguntava se eu tava bem, dava pra ver que ele ficava meio sem graça, como quem quer ajudar, mas tem medo de ser demais. Ou de ser pouco.
Atencioso.
Mas o que grudou na minha memória não foi só o gesto. Foi o jeito. O olhar. Como se ele estivesse tentando esconder uma coisa que já não cabia mais dentro dele. Um olhar triste, mas inteiro. Como aquelas músicas melancólicas que não machucam, só fazem a gente sentir. Denso. Profundo. E por algum motivo que não conseguiria explicar, aquilo ficou ecoando em mim.
— Sofia — a voz da Sara me puxou de volta pra sala com aquele tom de impaciência afetuosa que só ela sabe usar. — Você vai vir ou vai continuar flutuando aí na sua órbita particular?
— Vou, tô indo! — respondi, me endireitando na cadeira com um pulo desajeitado. Olhei em volta. A aula tinha acabado. Todo mundo saindo. Nem ouvi o sinal.
Ela cruzou os braços e me lançou um sorrisinho de quem já sabe a resposta antes da pergunta.
— Não me diga que tava pensando…
— Nem termina — cortei. — Eu não tava pensando nisso. Quer dizer… tava, mas não só nisso.
Sara arqueou a sobrancelha com um ceticismo digno de Oscar.
— Claro. Porque essa sua cara de "menino misterioso que me salvou dramaticamente e bagunçou meu emocional" é coincidência pura, né?
Não consegui segurar o sorriso. Daqueles tortos, meio cúmplices, meio “me deixa em paz”.
— Anda logo antes que a cantina vire zona de guerra — ela disse
Levantei, fingindo que meu coração não tava batendo mais rápido só por lembrar dele. Mas enquanto a gente caminhava pelo corredor, parte de mim ainda tava lá. Naquela rua, naquele silêncio cheio de significado, com ele ao meu lado. Como se o mundo tivesse diminuído o volume só pra aquele instante existir.
Durante o intervalo, tentei me distrair. Fracassei. A maçã que eu mordia podia ser de plástico, dava na mesma. Minha cabeça tava a quilômetros dali.
E aí veio o segundo assunto que também andava circulando na minha mente feito disco riscado.
— Então… faltam duas semanas pro seu aniversário de dezoito, e duas semanas e dois dias pro fim das inscrições das bandas no site daqueles empresários. Pensou nisso? — ela perguntou, segurando um pão com presunto como se fosse um microfone de repórter investigativa.
Sim, Sara. Pensei. Pensei até demais. E depois pensei mais ainda. Só que, se eu começar com isso agora, vou acabar me embolando… e frustrando meus pais.
Mas ela já sabia. Já tinha percebido.
Então só disse:
— Pensei. Pensei que só tem eu e você. E que a gente ainda nem tem nome. Pensei que parece impossível.
Mordi a maçã como se aquilo pudesse ajudar a digerir o medo.
— Por favor, Sofia. Essa é a chance. Seus pais não precisam saber de cara. Vamos ver se dá certo primeiro. Eu não insistiria se não achasse que a gente tem futuro. Você me conhece. E sobre o resto… a gente pode procurar outras pessoas. Hoje mesmo, se quiser. Mas pensa com carinho. Você tem talento de sobra. Só tá com medo.
Fiquei em silêncio. Mastigando devagar — a maçã, as palavras, o sonho.
Eu sabia que tinha a melhor amiga do mundo. E, pra ser honesta, eu queria. Queria muito. Mas era aquele tipo de querer que dá frio na barriga e um nó na garganta ao mesmo tempo.
Depois da escola, cheguei em casa por volta das cinco. Meus pais estavam na mesa da cozinha, frente a frente, naquele silêncio cheio de som. Não era exatamente tenso, mas tinha alguma coisa no ar. Expectativa, talvez?
Fui até eles com um sorriso meio torto.
— Oi, pai. Oi, mãe. Cheguei — disse, tentando soar leve.
— A gente percebeu — respondeu meu pai, com aquele tom meio irônico, meio preocupado.
— Senta aqui com a gente — minha mãe completou, indicando a cadeira com um movimento sutil de cabeça.
Sentei. Sem medo, mas com o coração alerta.
— Então, filha — começou meu pai, respirando como quem vai abrir uma planilha emocional —, já estamos quase no meio do ano… e você ainda não decidiu o que vai fazer na faculdade.
E aí veio. Não um arrepio. Uma onda. De ansiedade mesmo. Subindo no estômago como elevador sem freio.
— Você já fez a inscrição no Enem? — ele continuou. — Eu e sua mãe estamos trabalhando bastante, e… se precisar, a gente pode tentar bancar uma faculdade particular. Se for o caso.
— Já fiz, pai — interrompi. — A inscrição, quero dizer.
Já fiz sim. Mas… não tô criando muita expectativa em cursos que não quero.
Tentei parecer firme. Ou pelo menos convincente.
— Não se preocupem. Eu vou fazer. Vou passar. Não vou decepcionar vocês.
Minha mãe esticou a mão e segurou a minha, com aquele aperto cheio de amor que só mãe tem.
— Filha, você nunca nos decepcionaria — ela disse, com um sorriso pequeno e cheio de coisa por trás. — A gente só quer que você escolha algo que te faça feliz. Não precisa se prender a uma escolha que não seja sua. Não tenha medo. A gente confia em você. E ama você o bastante pra apoiar até o que parecer maluco.
Os olhos dela brilhavam. E não era só pela luz da cozinha.
Foi aí que percebi.
Esse era o empurrão que eu tinha pedido em silêncio. Um pequeno milagre em forma de conversa casual. Obrigada, Deus.
— Tudo bem, mãe… é… digo…
Tropecei nas palavras como quem tenta atravessar uma ponte com os olhos fechados. O assunto tava preso na garganta, enrolado em fita adesiva emocional.
Queria contar. Da banda. Da inscrição. Do medo e da vontade misturados. Mas a coragem ainda tava se aquecendo no banco de reservas.
— Obrigada por essa conversa. Sério. De verdade — falei, me levantando devagar. — Eu… tenho uma coisa pra contar, mas preciso organizar as ideias primeiro. A gente conversa melhor depois, tá?
Minha mãe assentiu. Com aquele olhar de quem entende tudo, mesmo sem ouvir tudo.
Saí quase de costas da cozinha, como atriz saindo de cena sem fazer barulho. Peguei minha mochila, subi pro quarto e pensei
“Ok, Universo. Você abriu a porta. Agora me ajuda a não tropeçar na entrada.”
Depois do banho, fui direto jantar. Mas resolvi subir com o prato — não tava pronta pra round dois da sessão sinceridade. Pelo menos não hoje.
No quarto, deixei o prato na mesinha e peguei o celular.
Mensagem pra Sara:
“Sara, acho que tô dentro. Mas… não tenho certeza.”
Mandei com aquele misto de coragem improvisada, pânico silencioso e emoção comprimida.
Não deu um minuto. O celular vibrou.
“O QUÊ???? NÃO ACREDITO!! QUER DIZER, EU MEIO QUE ACREDITO SIM!!!”
Ri sozinha. Tão ela.
“MAS tem um probleminha…” — outra notificação.
“A gente só vai conseguir se inscrever quando você fizer 18. Tem que ser maior de idade ou ter autorização. E eu sei que você não vai querer pedir isso pros seus pais assim, logo agora.”
Ela tava certa. De novo. Mas mesmo assim, respondi:
“Tudo bem. Nesse meio tempo, a gente pode procurar mais duas pessoas. Talvez alguém que toque bateria… EU NÃO SEI!!! Tô perdida e isso me deixa doida!”
Quase instantaneamente:
“A gente pode postar um story no Insta. Se seus pais toparem, não precisa ser escondido.”
Fiquei em silêncio por um momento. Releio. De novo, ela tem razão. E por mais que o medo ainda me cole ao chão, eu sei — eu sei — que não quero mais esconder isso de ninguém. Principalmente deles.
“Sim… pode ser. Mas ainda preciso criar coragem pra conversar com eles.”
“Que tal você vir aqui em casa amanhã depois da aula? Me ajuda?”
Ela não hesitou:
“ÓBVIO!!!”
Sorri. Um daqueles sorrisos pequenos, mas reais. Deixei o celular na cama, fui até minha escrivaninha e encarei o caderno de músicas como se ele fosse um espelho.
Ali dentro tem tanto de mim que ninguém nunca viu. Melodias cheias de medo. Letras com pedaços do que eu nunca consegui dizer em voz alta.
Mas agora… talvez seja hora de dar voz pra tudo isso.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti que alguma coisa dentro de mim estava pronta.
Ou quase.

Comentário do Livro (266)

  • avatar
    Da SilvaNatali

    um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai

    8h

      0
  • avatar
    KiaraVivian

    tipo isso é muito bom garanto para todo mundo

    3d

      0
  • avatar
    SilvaAdriely

    otimo

    17d

      0
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