Assim que eu e o Lucas deixamos elas uma quadra antes da casa da Sara, como elas preferiram. A Sara explicou que não era seguro falar exatamente onde moravam, e eu entendi. Seria muita inocência delas confiarem completamente em dois caras que conheceram só algumas horas antes. A gente insistiu um pouco, mas dava pra ver que elas não iam mudar de ideia. Sofia estava com o joelho ralado e mancando. Eu não sei o que deu em mim, mas quase tenho certeza de que a época em que morei com meu tio teve grande influência nisso. Ele sempre dizia pra eu ser um cavalheiro com as meninas. Então, me ofereci pra dar apoio a ela. Sofia hesitou, mas acabou aceitando. Quando ela encostou em mim, senti o cheiro suave de uva do cabelo dela. Eu nunca gostei muito de uva, mas naquele instante pensei que podia encher a geladeira inteira só com elas. Foi como se o mundo tivesse parado só pra eu guardar aquele momento. O cabelo dela, cacheado e meio bagunçado, caía sobre o ombro e roçava meu braço. A gente continuou andando. Ela meio pendurada em mim, tentando disfarçar a dor. Cada detalhe do rosto dela parecia me puxar pra mais perto, os cílios enormes, o jeito que ela mordia o lábio quando o joelho latejava e o sorriso tímido que surgia quando eu perguntava se ela estava bem. Eu só tentava não parecer um completo idiota. Quando chegamos na esquina, ela se afastou devagar e disse que ia dar um jeito de empurrar a bicicleta dali pra frente. A Sara também falou que não precisava mais da gente. Foi tudo rápido, meio seco, mas eu não liguei. Tava ocupado demais tentando não desviar os olhos da coisa mais linda que já vi. No caminho de volta, fiquei lembrando do momento em que ela se apoiou em mim. Do cheiro de uva, do calor do corpo dela encostado no meu braço, do jeito como o cabelo dela parecia dançar no vento. Eu nunca fui o tipo de cara que se perde nessas coisas, mas, dessa vez, não consegui evitar. Chegamos na casa do Lucas e a mãe dele abriu a porta com aquele sorriso que sempre dava um jeito de me fazer sentir em casa, mesmo que não fosse. Ela perguntou como eu tava e eu só respondi que tava tudo bem. Subimos pro quarto dele e antes de jogar minha mochila no canto, peguei o celular no bolso e mandei uma mensagem pro meu pai. Era mais pra ele não ficar achando que eu tava na rua ainda ou que tinha sumido. Eu só escrevi: “Vou dormir na casa do Lucas. Amanhã eu passo aí pra pegar as coisas da faculdade.” E mandei sem esperar resposta, porque eu sabia que ele ia demorar pra ver. Lucas me emprestou uma roupa limpa. Tomei um banho rápido pra tirar a poeira da praça e, quando voltei, ele tava mexendo no celular. — Se quiser, dorme aqui mesmo — disse ele, apontando pra cama. — Eu fico na sala de boa. — Relaxa — falei, jogando a mochila no canto. — Eu fico no chão mesmo. Nunca me importei com isso. Já me acostumei a dormir embaixo da cama pra não ouvir os gritos lá em casa. Então, pra mim, qualquer lugar tá ótimo. — Tá bom — ele respondeu, dando de ombros. — Mas, mano… que história foi aquela de você ficar vidrado na Cacheadinha? — Cacheadinha? — levantei a sobrancelha. — Para de viajar, Lucas. Tava só ajudando a menina. — Ah, sei — ele riu, balançando a cabeça. — Parecia que tu tinha esquecido até de piscar, véi. Tava quase babando no cabelo dela. — Para com isso, cara — resmunguei, me jogando no colchão que ele tinha encostado na parede. — Eu só tava sendo educado, como meu tio me ensinou. — Educado? — Lucas cruzou os braços e se encostou na parede. — Não sei, não. Parecia que você tava hipnotizado. Eu realmente estava. — E você, então? — retruquei, cutucando ele de leve com o pé. — Ficou lá, de conversinha com a amiga dela o caminho inteiro. — Ué, pelo menos eu tenho colhão pra admitir que achei a menina bonita — ele falou, dando aquele sorriso sacana. — E tu, vai negar que ficou encantado com a Cacheadinha? — Eu… — dei de ombros, confuso. — Ah, então o problema é esse? Eu admito. A Sofia é realmente bonita. Tipo… bem bonita. Mas e daí? Eu duvido que eu veja ela de novo. E por que eu deveria querer ver ela de novo? Ah, por favor, Lucas. Tu tá colocando coisa na minha cabeça. Lucas soltou uma risada curta, meio sarcástica, e balançou a cabeça. — Mano, é óbvio que tu vai ver ela de novo. A Sara mora perto daqui, lembra? Elas devem passar na praça pelo menos uma vez na semana, ou no mês, sei lá. E por que a gente não pediu o número delas? Nossa, a gente é muito bobo. — Cala a boca, Lucas — falei, meio cansado, enquanto pegava o lençol e o travesseiro que ele tinha deixado ali pra mim. Me enrolei neles como quem se protege de um vendaval e me virei pro lado, tentando dar um fim à conversa. — Não vai dormir agora, são seis horas e a mãe tá terminando a janta — ele disse, saindo do quarto pra ir tomar banho. — E vamos conversar sobre aquela coisinha da banda depois, entendeu? Eu só grunhi em resposta, mas fiquei ali deitado, encarando o teto e sentindo um cheiro que sabia que era do cabelo dela, como se tivesse ficado grudado na minha cabeça. E eu não sabia direito o que tava acontecendo, mas a verdade é que eu meio que não queria que passasse.
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Comentário do Livro (266)
Da SilvaNatali
um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
1d
0tipo isso é muito bom garanto para todo mundo
4d
0otimo
17d
0Ver Todos