Saí da casa da Sara com a cabeça cheia. Desde semana passada, aquele site que ela me mostrou não saía da minha mente, aquela proposta dos empresários, a ideia de formar uma banda, as idades... parecia tudo tão grande pra mim. Mas, curiosamente, a Sara nem tocou no assunto hoje. A gente ia devagar pela calçada, empurrando as bicicletas, com o pé batendo no chão, naquele ritmo tranquilo de domingo. A gente tinha combinado de passar a tarde na pracinha perto da casa dela, pra tentar relaxar antes da semana começar. O ar estava fresco, com aquele cheiro gostoso de final de tarde, e o barulho dos passarinhos se misturava com o farfalhar das folhas. Subimos nas bicicletas, pedalando devagarinho, lado a lado, sem pressa, como se tentássemos fazer o tempo durar mais um pouquinho. Eu sentia o vento leve no rosto, mas minha cabeça não parava cheia de dúvidas, medos, e um monte de planos que não consegui organizar direito. — Faltam só umas semanas pro seu aniversário, né? — a Sara falou de repente, olhando pra frente, o cabelo todo bagunçado pelo vento. — É... — eu respondi, meio sem jeito. — Tô até meio perdida, sabe? Não quero nada grande, nem sei se meus pais vão querer fazer festa... Eu sei que eles gostam, que é importante pra eles, mas fico com medo de estar pesando no bolso deles. Ela desviou o olhar, eu pedalei mais um pouco, e ela continuou, com a voz mais baixinha: — Eles sempre fazem alguma coisa, mesmo quando a gente fala que não quer. Acho que pra eles é importante demais. Eu só balancei a cabeça, perdida nos meus pensamentos. A gente seguia de bicicleta devagar, o som das rodas no chão da pracinha parecia um ritmo que a gente inventava. De vez em quando trocávamos um olhar, mas ninguém dizia muita coisa. O silêncio era tipo um espaço seguro pra cada uma pensar na sua. — E aquela coisa do site? — a Sara perguntou de repente, meio de leve. — Você não vai falar nada hoje? Eu hesitei. Era estranho pensar naquilo de novo, ainda mais porque ela nem tinha tocado no assunto hoje, como se estivesse esperando eu decidir o que pensar. — Não sei... — respondi, olhando pra frente, tentando arrumar as ideias. — Acho que tô meio perdida ainda. Parece tão longe, mas ao mesmo tempo parece que pode rolar. Só que não sei se quero mesmo. Se tenho coragem. Ela sorriu, mas era um sorriso de quem entende, não de brincadeira. — A gente tem medo do que pode acontecer se tentar. Mas talvez valha a pena, né? Eu não falei nada, só continuei pedalando, sentindo o vento, sentindo a cabeça cheia, aquela sensação estranha de que precisava decidir, mesmo sem saber o que. Aí a Sara fez uma piada meio sem graça, do jeitinho dela: — Se a gente formar essa banda, pelo menos não vai precisar se preocupar com meu vizinho que bate panela às três da manhã, né? Eu dei uma risadinha, abrindo mais o sorriso enquanto pedalava. — Verdade — respondi. — Ele devia ser o nosso primeiro integrante secreto. Rimos, e por um instante o peso na minha cabeça pareceu sumir. Mas aí, do nada, um cachorrinho pequeno, com orelhas enormes e pelo bagunçado, atravessou correndo na minha frente. Tentei desviar, perdi o equilíbrio e caí de lado. A Sara tentou me ajudar, mas também caiu junto, a gente caiu rindo, meio atrapalhadas. Quando começamos a levantar, olhei pra frente e vi dois meninos sentados num banco, observando a gente, com um sorriso divertido. — Olha só — a Sara falou, piscando pra mim. — Acho que temos plateia. — Plateia engraçada — respondi, rindo. Um deles, o bronzeado, nem muito alto, gritou de longe: — Vocês tão bem aí? O outro, de cabelo cacheado, ficou olhando direto pra mim, sem dizer nada, só aquele olhar fixo que me deixou meio sem jeito. A Sara, sempre afiada, respondeu alto e descontraída: — Tudo ótimo! Só testando o chão pra ver se tá confortável! Querem vir ajudar na próxima queda? A gente caiu na risada de novo, e os meninos riram junto. Eu tava meio distraída, e só percebi alguns minutos depois que não conseguia levantar direito. Meu joelho doía, a bicicleta da Sara tinha caído em cima de mim, e a minha tinha me prendido no chão. — Sara... acho que não consigo levantar — falei, tentando esconder a dor, mas não consegui. Ela largou a bicicleta no campo ao lado da calçada e veio me ajudar. Com esforço, finalmente consegui sentar num banco ali perto. — Tá bem? — ela perguntou preocupada. — Mais ou menos — respondi, tentando parecer animada. — Acho que pedalar de volta hoje não vai rolar. Enquanto tentávamos entender a confusão da queda, percebi que os meninos do banco, que antes só observavam, agora trocavam olhares e começavam a se levantar. Olhei pra eles, tentando entender. — Sara... acho que eles tão vindo aqui — falei baixinho. Ela fez uma cara engraçada: — Sério? Será que eles não têm nada melhor pra fazer? — Talvez a gente seja o show deles agora — respondi, rindo. — Ou a nova atração da pracinha — ela riu. Tentamos disfarçar, mas a gente parecia aquelas atrizes que fingem que não tão nervosas num filme ruim. — A gente finge que tá tudo normal? — perguntei. — Normal tipo “caímos da bicicleta, joelho ralado, felizes da vida”? — ela respondeu, sorrindo. — Exatamente isso — ri. Eles chegaram perto. O bronzeado sorriu e falou: — E aí, tudo certo? Vocês deram um show com a queda. Falou tão natural que eu ri, mesmo com o joelho doendo. O outro, o de cabelo cacheado, só ficou ali, meio tímido, meio curioso. A Sara, vendo meu joelho machucado, falou irônica: — Ah, tá tudo ótimo. Só um ensaio de queda livre pra testar a gravidade. Os meninos riram, e o bronzeado perguntou: — Querem ajuda? Pedalar assim vai ser difícil. Eu respondi meio sem pensar: — A gente dá um jeito, né? Só um pouco de coragem e fé. O branquinho olhou e perguntou: — Vocês moram longe daqui? Podemos ajudar. O bronzeado sorriu: — Eu sou Lucas, e esse é o Victor. Sorri meio sem graça: — Eu sou Sofia, e essa é a Sara. Sara deu um sorriso e falou: — E sim, vocês são a ajuda. Alguém aqui sabe andar de bicicleta e quer levar a dela? A gente não mora longe, mas caminhar assim vai ser difícil. Lucas e Victor trocaram um olhar e pareciam dizer “bora”. Lucas pegou minha bicicleta e falou: — Beleza, eu levo a bicicleta. Vamos nessa. Ficou claro que Victor ia ser meu apoio. Eu fiquei meio sem jeito pra levantar, acho que o Victor percebeu e apoiou o braço na minha cintura, me ajudando a ficar em pé. Ele era bem mais alto, então tive que segurar na cintura dele, que parecia firme e confortável. Caminhamos assim, em silêncio. Sara e Lucas estavam descontraídos, conversando e rindo, olhando pra trás pra checar a gente. Eu e Victor ficamos calados, até que ele quebrou o silêncio: — Você vem sempre aqui na praça? Sorri meio tímida: — De vez em quando, quando tenho coragem de sair de casa. Ele soltou um risinho. — Entendo... é bom ter um lugar pra escapar um pouco, né? — É... — respondi, e percebi que ele era ainda mais bonito de perto. Traços marcantes, maxilar forte, olhos castanhos meio tristes, mas muito bonitos. O contraste me hipnotizou. Continuamos andando, sem falar muito, mas o silêncio não parecia ruim.
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Comentário do Livro (266)
Da SilvaNatali
um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
1d
0tipo isso é muito bom garanto para todo mundo
4d
0otimo
18d
0Ver Todos