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Capítulo 4 VICTOR

Eu não me surpreendi quando comecei a ouvir meus pais discutindo de novo lá embaixo. Isso acontece quase todo dia, já nem me afeta mais. Coloquei o fone de ouvido, aumentei o volume, mas ainda dava pra escutar as vozes deles. Peguei o celular e mandei uma mensagem pro meu amigo Lucas. Fazia uma semana que eu tinha ido na casa dele e escutado ele tocar. O Lucas sempre parecia tão certo do que queria. Eu queria ter um pouco dessa coragem de impor o que eu quero sem medo. Meu pai quer que eu assuma a empresa dele, mas eu… eu só queria outra coisa.
" O que era mesmo que você queria me contar" — escrevi no meio da tarde de um domingo.
Lucas respondeu rápido:
" Encontra comigo na pracinha perto de casa. Te espero lá"
Nem pensei duas vezes. Levantei e fui direto pra cozinha, sem passar pela sala onde meus pais estavam discutindo. Peguei minhas chaves e saí pela porta dos fundos, sentindo o cheiro de café queimado que vinha da cafeteira velha no balcão.
Pedi um Uber e fiquei acompanhando o caminho pelo celular, vendo o carro passar pelas ruas do centro de Belo Horizonte. O clima estava meio confuso, frio e calor se misturando, dependendo do dia. Encostei a cabeça no banco, tentando deixar o barulho da discussão pra trás, mas não rolou.
Quando o Uber parou, vi que a pracinha era simples, mas cheia de gente. O Lucas estava lá, sem camisa, fazendo barra no equipamento da academia pública. Ele parou quando me viu, sorriu, pegou a camiseta que tinha largado no chão e vestiu rapidinho.
— E aí, meu caro herdeiro do império! — ele brincou, dando aquele sorriso que sempre deixava o clima mais leve.
Ri, meio aliviado. O Lucas era assim, sempre achava um jeito de brincar e me fazer esquecer dos problemas. Ele tinha a pele bronzeada, o cabelo cacheado bagunçado e os olhos cor de mel que pareciam brilhar ainda mais naquela tarde. Ele estava feliz, dava pra ver.
— Você tava treinando? — perguntei, meio sem jeito, me sentindo deslocado ali.
— Tava, ué. Melhor do que ficar em casa sem fazer nada — respondeu, dando um tapinha no meu ombro.
Dei de ombros e soltei um sorriso discreto.
— Mas então… o que você queria me contar?
Ele ergueu a sobrancelha, com aquela cara de quem tá planejando alguma coisa.
— Calma, vamo sentar ali primeiro. Preciso te mostrar um negócio.
Suspirei e fui atrás dele. Era só uma tarde normal, nada demais, e ele nem sabia o que tava rolando lá em casa. Ainda bem.
Ele abriu a mochila, tirou o notebook e começou a digitar, falando com um sorriso meio misterioso:
— Vi esse site esses dias, tá procurando grupos pra patrocinar. Uma empresa de fora vai abrir inscrições durante um mês e, no final do ano, escolhe um grupo de algum lugar do Brasil pra apoiar.
Olhei pra ele, meio cético, tentando entender onde ele queria chegar.
— Achei que a gente podia tentar. Você com a guitarra, eu com a bateria… A gente tem talento, só precisa se mexer.
Fiquei em silêncio, mexendo no capuz da jaqueta.
— Só que… — comecei, meio travando — meu pai quer que eu cuide da empresa dele. Se eu fizer outra coisa, isso pode causar problemas.
Lucas deu uma risada, daquele jeito de quem não liga muito pras regras.
— Cara, ele não precisa saber de nada agora. Se a gente for mesmo, ele vai ver que é sério. Você não pode deixar o medo te prender. Se você tem vontade, devia ir atrás.
Olhei pro chão, meu peito apertado.
— Eu não quero decepcionar minha mãe. Principalmente ela. Se eu fizer isso, pode ser que eu só perca tempo com algo que não dê em nada.
Ele me cutucou com o cotovelo, rindo de leve.
— Não é perder tempo, é tentar. E eu tô contigo, cara. Sempre.
Respirei fundo, tentando desatar o nó da dúvida.
— É que eu sou meio fechado pra essas coisas, sabe? Tento não me envolver demais. Mas obrigado por acreditar.
Ele sorriu daquele jeito que só ele sabia, com um carinho que eu sempre reconhecia.
— Sempre. A gente tem que se ajudar, velho.
Sorri de volta. Talvez fosse hora de tentar. Ou talvez não. Mas pelo menos eu tinha alguém do meu lado.
— Espera aí, essa empresa é confiável? Não é golpe, né? — perguntei, franzindo a testa. Essas coisas da internet nem sempre são o que parecem.
Ele sorriu, como se já soubesse da minha dúvida.
— Relaxa, cara. Olha isso aqui — disse, clicando num vídeo na tela. Era uma banda tocando num festival, as pessoas dançando, o nome da empresa aparecendo no fundo.
— Esses grupos já foram patrocinados por essa empresa em outros países. Tem até depoimento de gente dizendo que mudou a vida deles.
Fiquei um tempo quieto, batucando a perna.
— Quantas pessoas precisam pro grupo?
— Quatro. Você na guitarra, eu na bateria, e mais duas.
— Mas quem? A gente não conhece mais ninguém que toque desse jeito. Não dá pra escolher qualquer um.
Ele deu de ombros, tranquilo.
— Isso é o de menos. A gente pode conhecer gente, ver quem encaixa. O importante é tentar. Sei que você é fechado, mas às vezes a gente tem que arriscar.
Suspirei, olhando pro chão.
— Tá… mas eu tenho medo de me enganar, perder tempo e desapontar minha família.
Ele fechou o notebook e me olhou firme.
— Sei que família é importante. Mas e você? O que você quer?
Suspirei de novo, olhando pro céu nublado.
— Só quero ser eu mesmo. Mas parece que tudo tem que ser do jeito deles. É difícil.
Ele me deu um tapinha no ombro, num gesto de amizade.
— Por isso a gente tem que tentar juntos. Não precisa ser do jeito deles. Pode ser do nosso.
Ficamos em silêncio um tempo, ouvindo o barulho da pracinha, as conversas ao redor, o trânsito distante.
Olhei pra ele e soltei um sorriso fraco.
— Obrigado por estar aqui, cara. Sem você, acho que nem teria coragem de pensar nessas coisas.
Ele riu, com aquele olhar cheio de amizade.
— Sempre mano
Eu sorri de volta, mas o meu sorriso sumiu tão rápido quanto apareceu. Fiquei em silêncio, como se o mundo tivesse dado um jeito de parar por um segundo. Foi ali, no meio do barulho suave da pracinha e das conversas ao redor, que eu vi uma menina andando de bicicleta, com outra loira ao lado. As duas riam juntas, e o vento brincava com o cabelo escuro dela, fazendo ele se espalhar como se fosse parte de alguma cena de cinema. Ela parecia tão viva, tão cheia de brilho, que por um instante eu esqueci que o Lucas ainda falava alguma coisa ao meu lado.
Eu não conseguia ouvir nada, como se a voz do meu amigo tivesse virado um som distante, só o riso dela ecoando na minha cabeça. Era como se, nesses meus 19 anos de vida, eu nunca tivesse visto algo tão bonito.

Comentário do Livro (266)

  • avatar
    Da SilvaNatali

    um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai

    1d

      0
  • avatar
    KiaraVivian

    tipo isso é muito bom garanto para todo mundo

    4d

      0
  • avatar
    SilvaAdriely

    otimo

    18d

      0
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