A guerra. A guerra que ocorreu há meses atrás, tão recente. O ato não havia acontecido ali, em Brighid, o local deles, o lugar, o qual, os seus e outros dois Reinos habitavam. A batalha, na verdade, sucedeu-se em Mound: um único Reino, cuja Soberana possui uma sede incontrolável por sangue e por tragédias, é o que Astrid havia escutado do povo. Não se sabe ao certo o porquê do início de uma guerra, já que nem o Reino Florestal, nem o Reino Solar haviam participado, exceto alguns guardas que pediram permissões para lutar pelo seu povo e por seus lares, mesmo que não possuíssem nenhuma aliança direta com os outros dois Reinos de Brighid, mesmo que eles fossem considerados os seus inimigos. Mesmo assim. — Você tem alguma ideia de para onde eles possam ter ido? — Astrid questionou com o intuito de mudar de assunto. Falar sobre a guerra a deixava nervosa, fazendo com que o almoço se revirasse em seu estômago. Dimas avançou mais um passo em direção à princesa e disse, dessa vez com a voz um pouco falha: — Podem ter ido para qualquer um dos Reinos. — Um suspiro rouco saltou da sua garganta — Não acho que eles foram em direção à Mound, seria praticamente suicídio. — ele pausou e engoliu em seco antes de retornar — Contudo, também não tenho certeza se eles migraram por vontade própria. Os Beltranos fugiram, desobedeceram as ordens do rei e roubaram muitos de nossos barcos, eles não teriam essa coragem. Eu os conheço. A minha função é sempre ficar de olho, juntamente com os Combatentes, é claro, por isso eu sei o que digo. Eles tinham medo de desrespeitar o meu irmão, possuíam receio de até mesmo pisar em lugares errados. Apesar das suas palavras falhas e baixas, os ombros largos de Dimas permaneciam inclinados, estes apontados para o teto do salão. O seu rosto preto estava repleto por preocupação e repugnância. Astrid sabia como o amigo era altruísta, até mesmo com aqueles que não passavam de conhecidos. Contudo, a princesa também sabia que Dimas observava os Beltranos desde muito pequeno. Astrid se lembrava de suas infâncias e na quantidade de perguntas que Dimas fazia quando via o povo trabalhando. Ela lembrava como os questionamentos daquela criança vinham acompanhados de inquietação e receio, mas Astrid era mais jovem do que Dimas, logo, não sabendo as respostas para todo aquele questionário. Quando criança, ela entendia que aquele povo não possuía descanso, ou condições para uma melhor qualidade de vida, porém, Dimas via além. Ele notava o sofrimento daqueles súditos, tão fracos e tão exaustos que até os mais jovens deles pareciam velhos e indispostos. Os rostos sempre inexpressivos, tão finos e tão desproporcionais. Mas, apesar de todo o sofrimento, eles eram gratos. Foi o que Astrid ouviu de uma mulher baixa e extremamente magra que lhe dera algumas madeiras outro dia. “Não estamos em posições para reclamações. Somos gratos pelo o que temos. Pode parecer difícil, mas possuímos condições razoáveis, diferente dos escravos, eles sim sofrem imensamente, Alteza.” Astrid se lembrava de todas as palavras, assim como se lembrava da voz sem vida daquela mulher. No entanto, ela estava certa, não da parte em que eles não deveriam realizar objeções, e sim, da parte em que, certamente, os escravos possuíam vidas sofríveis. O que eles sentiam eram apenas tristezas e temores, Astrid não desejava aquilo para ninguém. Podia ser ela, Astrid poderia estar entre os escravos se não fosse herdeira do Rei. Ela era tão humana e tão mortal quanto eles. A princesa poderia estar realizando trabalhos braçais naquele momento, ou pior, ela poderia estar sendo chicoteada por aquele material forte e doloroso. Astrid sentiu uma súbita vontade de vomitar, no entanto, apenas balançou a cabeça, tentando dispersar aqueles pensamentos. — Tudo bem. — Dimas falou subitamente e Astrid inclinou a lâmina da sua espada para a direita com o leve susto que a sua voz causara. — Vamos descansar um pouco, depois continuamos. — Mas, acabamos de iniciar — ela disse com a voz ofegante. As suas pernas quase não se aguentavam em pé, mesmo ela lutando contra aquela sensação. — Depois, As. Preciso que tente relaxar. Dimas encarava os olhos da jovem profundamente. Ele sabia e imaginava o que ela estava pensando, pois apesar de Astrid não ter comentado com ele sobre todos os seus medos, Dimas tinha consciência de grande parte deles, incluindo a guerra e o seu receio de quase ter se tornado uma escrava. Assim, como ele sabia sobre a imensa compaixão de Astrid ao ver os negros tão sujos, fracos, inexpressivos e com dores. Dores físicas, ou dores mentais. Astrid não sabia qual era pior, mas ela sabia quais os faziam morrer mais rápido... O seu corpo estremeceu com o pensamento. A princesa tentou manter o rosto sem expressão, tentando fazer com que nenhum sentimento se tornasse ainda mais aparente. Dimas já estava à sua frente lhe oferecendo água para que Astrid bebesse e tentasse se acalmar. Ele se esforçava para não demonstrar nenhuma reação. No entanto, a princesa conseguia ler muito bem os seus olhos esverdeados, ela podia ler cada emoção implícita que percorria por aquelas órbitas. — Estou bem — Astrid pegou a garrafa de sua mão, logo a abrindo e bebendo um generoso gole antes que Dimas pudesse fazer o mesmo. Ele parecia tão calmo e tão sereno com aquela expressão facial, com o movimento do seu corpo musculoso e com o seu caminhar descontraído. No entanto, Astrid sabia tudo o que o amigo já havia passado e já havia enfrentado. Como o seu irmão mais velho e Rei do Reino Solar já foi cruel e opressor com Dimas. A princesa conseguia observar todas as marcas físicas e mentais que Dimas possuía e que ele não demonstrava para ninguém, além dela. Quantas vezes Astrid viu Dimas chorar quando criança, quantas vezes ele alegava sentir dores em seu corpo, graças às agressões físicas que este sofria, e esperava Astrid, que isso tivesse parado, já que o jovem não comentava mais sobre esse assunto. Assim como ele não aparentava mais sentir dores nem antes e nem depois dos treinamentos, porém, Astrid ainda se preocupava e se importava com o amigo. E apesar deste parecer bem, ela não seria capaz de esquecer todo o seu sofrimento. Nunca. — Acha que alguma magia os convocou para outro local? — Astrid questionou com a voz baixa, tão baixa que ela pensou que Dimas não havia escutado. Ele assentiu com a cabeça quando se encostou sobre o parapeito da janela. O vento suave permanecia balançando os seus cabelos castanhos claros enquanto o sol acobreava o olhar verde. Os pigmentos brilhantes se dissolveram em seu olhar, formando uma escuridão quando Astrid retornou o assunto. — Sim, tenho quase certeza que sim. — ele apertou as suas mãos uma na outra quando Astrid se juntou ao seu lado, a princesa ainda ofegante e exausta. — Eles não conseguiriam fugir, caso um intenso poder não tivesse ocorrido. — Você disse que os Beltranos não possuem tanta magia, não para realizar coisas tão grandiosas. E me parece que essa fuga não foi algo simples. — Astrid acrescentou. Dimas refletiu por um instante e soltou um suspiro rouco, antes de dizer: — Você está certa, eu já havia pensado em tudo isso. Certamente não foram eles quem conjuraram todo esse poder para que pudessem fugir. — Uma pausa antes de prosseguir — Como eu havia dito, os Beltranos não teriam coragem para tamanha situação. — Mas, se eles não fugiram por vontade própria e nem conjuraram os seus próprios poderes, como isso é possível? Talvez eles tenham se unido, logo unindo os seus poderes para que eles somassem uns aos outros, assim formando uma maior intensidade de magia. Ela não sabia se aquilo era possível, entretanto, Dimas não a contrariou e refletiu novamente. Astrid estava certa e o silêncio do seu amigo demonstrava que sim, aquilo era possível, mas ela sabia que o seu pensamento não estava totalmente correto, já que Dimas continuava pensando sobre a situação. Finalmente, ele se voltou para ela antes de responder: — Acontece, você tem razão, mas não é assim que funciona. — ele disse, os ombros tão tensos e tão contraídos que Astrid sentiu vontade de tocá-los para que relaxassem, no entanto, ela sabia que aquilo não iria o acalmar. Os pássaros voavam rapidamente enquanto passavam pela janela. As sombras agora se formavam com o entardecer, escurecendo o entremeado de cores quentes que habitava nas flores de todos os tamanhos do jardim. Boa parte da grama ainda permanecia sob a luz solar, fazendo com que Astrid sentisse a sensação dos seus pés descalços, caso ela estivesse lá fora. A sensação de como eles queimariam sob aquele clima ardente. O povo continuava trabalhando, o suor percorria por seus corpos suados. As vestimentas tão grossas e espessas, que Astrid imaginava o inferno que eles estariam enfrentando naquele momento. Era fácil demais diferenciar os Beltranos dos escravos. Os súditos possuíam vestimentas consideradas novas e recentes, mesmo que estivessem sujas, por causa do trabalho. Já os escravos, estavam vestidos com panos, todos rasgados e imundos como se não os trocassem havia séculos. Os rostos negros desprovidos de sentimentos, os olhares cansados e sem vida, como se nada mais importasse para eles. Apesar dos trabalhos braçais e de todos os movimentos e exercícios que esses eram obrigados a enfrentar, os seus corpos eram extremamente magros, as faces eram compostas por ossos, as bochechas tão profundas, que Astrid se perguntava quando fora a última vez que eles haviam se alimentado. Os seus passos eram lentos e silenciosos, eles não tinham mais forças, e ainda estava tão longe dos seus trabalhos, se é que aquilo poderia ser denominado com este termo, terminarem. — Eles precisariam ser treinados... — Dimas continuou. Astrid teve que relembrar onde haviam parado no assunto — E eles não são. Teria que haver um treinamento forte e intenso para que estes conseguissem unir as suas magias. Não é apenas uma questão de confiar um no outro, a questão é que exige concentração, uma boa condição emocional e física, além da segurança que esses devem ter por eles mesmos e pelos demais. E por mais que eu quisesse acreditar que eles possuem tudo isso, eles não possuem. Sei que eles não têm esses controles mentais e físicos. Nós levamos anos para consegui-los. — Dimas encarava o além, concentrado em suas palavras e no seu raciocínio. “Alguns conseguem realizar todas essas magias complicadas em pouco tempo — continuou —, mas é raro, muito raro.” Astrid assentiu quando tentou absorver todas aquelas palavras e pensamentos do amigo. O seu corpo agora trabalhava mais rápido do que nunca, ela gostaria de saber como aquilo ocorrera e o porquê. E se eles estivessem em perigo? Claro que eles não viviam em condições boas ali, ou no Reino Solar, mas, e se para onde eles haviam migrado fosse muito pior? A princesa gostaria que os Beltranos e os escravos conseguissem fugir para que fossem livres e vivessem da forma como eles mereciam, mesmo que ela não soubesse como os Reinos se tornariam sem trabalhadores. Contudo, aquilo não era trabalho, era algo sofrível, não humano. Era algo cruel e repugnante. — Os espiões estão inspecionando? — a princesa questionou novamente, Astrid gostaria de saber sobre todos os detalhes e ela sabia que Dimas a responderia, independentemente de suas perguntas. — Sim, estão. Não encontraram nada, nenhuma informação, nenhum vestígio, nenhum cheiro específico, absolutamente nada, como se tudo estivesse normal. — ele respondeu de uma maneira firme. — Sentimos falta deles há uns dias atrás. Cássio perguntou para o restante dos súditos sobre o desaparecimento dos demais, mas não obteve respostas, nenhum deles pareciam saber sobre o ocorrido. O rosto de Dimas contraiu e Astrid soube que o termo perguntou era um eufemismo, comparado ao que realmente o Rei Abraham havia feito para que o povo falasse. Astrid sentiu a sua pele congelar de ódio, assim como havia acontecido naquela manhã. Os olhos de Dimas se voltaram para ela, arregalados e surpresos. Suas narinas se dilataram levemente e ele inclinou a cabeça para o lado enquanto recuava um passo. — O que houve? — Astrid questionou confusa, a sua testa se franziu com a atitude do amigo. Ela não conseguia entender. Dimas respirou fundo e soltou um sorriso que não chegou aos seus olhos, ainda revestidos pela luz do sol. — Não foi nada, eu só... Eu apenas estava pensando sobre todo o assunto. — A voz estava repleta por tristeza e piedade, mas Astrid não conseguia entender o motivo. Ela apenas assentiu com a cabeça. Caso o jovem quisesse falar sobre, ele falaria uma hora ou outra. Astrid não iria o pressionar. Não quando ele pareceu tão mal e a sua atitude mudou tão rapidamente. — Me diga o que acha que realmente aconteceu antes que possamos voltar a treinar. — a princesa falou para Dimas que continuava a encarando, dessa vez com a expressão mais suave e relaxada. Ele apenas deu de ombros, os olhos voltando rapidamente em direção à paisagem que permanecia à sua frente. — Não faço ideia se as minhas suposições estão certas, Cássio não quis escutá-las. — O maxilar de Dimas se contraiu e o rosto se fechou completamente com a súbita raiva sentida. Astrid não se segurou e apertou a mão do amigo. — Não sou Cássio. — Ela contrariou. O nome do rei saindo tão informalmente da sua boca, que a fez se sentir incomodada, no entanto, apenas Dimas e ela estavam naquele salão. Apenas eles dois compartilhando informações que não eram tão pessoais, mas também, compartilhando suas expressões e sentimentos que eles apenas deixavam o outro observar tão profundamente. Aquilo era somente entre eles, da sua amizade de anos, das suas confianças. — Quero escutar a sua opinião. O que você acha que aconteceu? — Astrid perguntou novamente. Ela ainda tentava manter a sua voz firme e o rosto vazio de expressões. Dessa vez Dimas não recuou. Ele apenas olhou para Astrid, que esperava tranquilamente para ouvir as opiniões do amigo. O Rei Abraham nunca iria o escutar, visto que o Soberano nunca aceitou nenhuma ajuda, além do pai de Astrid. É claro que ele não escutaria os seus irmãos mais jovens. O rei deveria pensar que estes eram tão imaturos e irresponsáveis, que seria uma perda de tempo prestar atenção em seus comentários. Dimas sorriu de lado, ainda encarando a princesa, os seus cabelos castanhos caíam sobre os olhos. Ele engoliu em seco antes de prosseguir: — Tenho quase certeza de que toda essa situação ocorreu tarde da noite, já que todos estavam descansando nesse momento. Não sei se Cássio pensou nisso, mas creio que sim. — ele disse, enquanto os seus dedos alisavam as armas embutidas em seu cinto — Eu tenho... Tenho uma suposição que faz sentido, mas que pode estar completamente equivocada. Astrid assentiu e mudou o peso do seu pé direito para o esquerdo. Ela preservava toda a paciência e calmaria em seu rosto enquanto escutava o raciocínio de Dimas. Ele parecia nervoso, completa e inegavelmente ansioso, já que os seus dedos batucavam lentamente nas lâminas afiadas de suas facas, o pé ecoando como uma música lenta pelo cômodo. A princesa lhe deu tempo. Ele parecia processar e formular respostas em sua mente, antes de continuar a explicação e teoria. Quando ele finalmente falou, a sua voz estava carregada de rouquidão e firmeza. — Acredito que algum ser mágico, que possua controle mental, os tenha enfeitiçado — ele falou, tão rápido que Astrid ergueu uma sobrancelha, não com a falta de entendimento, e sim, com surpresa. Era óbvio que alguém os teria enfeitiçado, mas feitiços de manipulações mentais eram raros. Mesmo Astrid, que era completamente humana, possuía essa informação, graças ao amigo. — Por que acha isso? Você sabe se há alguém com esse poder em um dos Reinos? — Ela apertou os lábios em uma linha fina, observando atentamente cada expressão no rosto de Dimas. — Não faço ideia, é claro que já houve diversos casos de seres mágicos com poderes mentais, você sabe disso. Contudo, não sei se atualmente ainda há esses encantamentos, mas se houver... — Ele negou com a cabeça, exasperado — É complicado, Astrid, controle mental é terrível, fascinante, mas terrível. O escudo, que devemos construir em nossas próprias mentes para conseguir evitar essas manipulações, precisa ser forte, forte demais. Mesmo para nós Esplendores, já que somos mortais. Apesar de Astrid ser humana, todos os seres que habitavam àquela terra, fossem eles Esplendores, Combatentes, Meio mágicos ou Beltranos, eram mortais. Ainda assim, os seus poderes eram incríveis, assustadores, arrebatadores e Astrid não possuía tanta certeza se gostaria de observar como os seus poderes se tornariam em corpos imortais. Não que mudar aquilo fosse possível, no entanto, obviamente se tornariam magias sobrenaturais e incrivelmente poderosas. Se realmente existiam seres Esplendores mortais que podiam matar qualquer um que pisasse em seu caminho com apenas um sopro... Astrid não gostaria de pensar além daquilo, caso eles fossem mais resistentes, como seria difícil viver entre eles, como uma mera humana seria comparada a um leve e pequeno rato, que poderia ser pisoteado e maltratado a qualquer momento. — Então você acha que alguém entrou em suas mentes e os hipnotizaram para que o obedecesse? — Astrid questionou e Dimas assentiu, o olhar distante e gélido. — Não alguém como qualquer pessoa. — Ele parou, pensando novamente — Alguém poderoso. Não é possível que o povo consiga possuir controles mentais, não fortes o suficiente para hipnotizar muitos deles. — Então... Dimas olhou no fundo dos olhos de Astrid para que ela entendesse a sua linha de pensamento. Os Reis, os outros dois Reis que reinavam, juntamente com o Rei Abraham e o seu pai, Brighid. Eles poderiam ter feito aquilo, deveriam ser poderosos o suficiente para controlar toda àquela situação e podiam ser inteligentes e espertos demais para realizar planos tão abrangentes e terem cogitado cada detalhe. A hora em que aquilo aconteceria, o controle mental, a escassez de vestígios. Eles poderiam ter pensado em tudo, mas por quê? O que eles queriam com os Beltranos do Reino Solar? Fazer estes sofrerem mais do que já sofriam? Os matar? Mas a que custo, a que preço? Astrid não fazia ideia se o Rei Abraham havia entrado em um conflito interno com os outros dois Reinos, porém, ela acreditava que não, já que Dimas teria compartilhado essa informação com a amiga. Então, por que realizar estes sequestros? Os olhos verdes ainda encaravam os olhos escuros da princesa quando esta transpareceu a sua surpresa e confusão, acompanhadas por um soluço baixo que saíra do fundo de sua garganta. — Acha que faz sentido? — Dimas questionou. A sua testa estava franzida e ele respirava rapidamente agora, o seu peito se movimentando para cima e para baixo com precisão. — Sim. — Astrid conseguiu emitir um pequeno som. A teoria ainda percorrendo por sua mente. — Faz sentido. Dimas suspirou, parecendo aliviado, mas não totalmente. Ele precisava de um apoio, alguém que o entendesse, sabia Astrid. Contudo, ele ainda não possuía certeza sobre toda aquela situação, não quando nenhuma prova existia. Apenas pura hipótese. Astrid ainda refletia sobre aquele assunto. Como seria possuir alguém com controles mentais em Brighid, tão fortes, tão poderosos. O que mais eles poderiam fazer? — Os outros Reis não podem atravessar para os nossos Reinos, é possível conjurar magia mesmo com o nosso escudo protetor? — Astrid perguntou com receio da resposta de Dimas, mesmo que já soubesse. — Apesar de que os Reis possam ser poderosos, continuam sendo mortais, é difícil demais aceitar isso. — Tudo é possível. Eles não precisam ser imortais para conseguir tal coisa, alguns nascem muito poderosos, com intensas magias. A imortalidade está ligada de uma forma indireta com os nossos poderes, mas está ligada. Então se fôssemos imortais, as nossas magias apenas se expandiriam, mas não receberíamos nenhum poder novo. Apenas a evolução destes que possuímos neste momento. — Dimas apontou para o próprio corpo, como se fosse conjurar uma de suas magias ali. No entanto, ele apenas deu de ombros — Tudo é possível, Astrid, não se esqueça disso. O restante do treinamento foi exaustivo, tenso, mas incrivelmente bom para que Astrid tentasse dissipar todos aqueles pensamentos para fora da sua mente enquanto empunhava a espada com força em sua mão direita, lutando e atacando contra Dimas, que parecia tranquilo, porém, silencioso e hesitante. A ideia de possuir pessoas ruins sequestrando pessoas inferiores, em relação a poderes e magias, era completamente assustadora. Astrid lutaria caso fosse preciso, mesmo que não houvesse resultados positivos, não quando ela era tão indefesa, quando comparada aos seres mágicos, principalmente estes que eram considerados tão dominantes. Controlar a mente não era simples, não era comum, visto que o dom não era hereditário, como Dimas já havia dito para ela. No entanto, aquele dom cruel e pavoroso ainda existia e ainda habitava as terras de Brighid. Tão perto, eles estiveram tão perto. Astrid lutaria, ela tentaria manter a sua mente fechada, mesmo que não possuísse esperanças de que aquilo funcionasse. Contudo, a princesa não se renderia. Quem sabe ela conseguisse se proteger daquele poder, quem sabe ela escapasse daquelas leituras mentais. Tudo era possível, como dissera Dimas, mesmo que o amigo não tenha dito com aquela intenção, e Astrid iria se esforçar para que aquilo não se tornasse improvável.
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