O som de um disparo em um espaço aberto como o Porto de Santos não é como nos filmes. Não há um eco limpo; há um estalo seco, seguido por uma vibração que reverbera no peito e termina com um zumbido agudo nos ouvidos. O mundo ao meu redor desacelerou. Vi, em uma fração de segundo, as faíscas saltando de um contêiner metálico a poucos metros da minha cabeça. O cheiro de pólvora queimada é doce e metálico, uma combinação doentia que se instalou nas minhas narinas e se recusou a sair. Eu estava colada ao asfalto. A textura granulada da via portuária arranhava minha bochecha, mas eu não sentia dor. A adrenalina é um anestésico potente e traiçoeiro. — Fique embaixo! Não levante a cabeça por nada! — A voz de Apollo não vinha mais pelo rádio. Ele estava perto, sua sombra se projetando sobre mim como um escudo humano enquanto ele disparava de volta contra os homens de Vane. O tiroteio foi breve, mas cada segundo pareceu uma eternidade esticada. Ouvi gritos, o som de pneus cantando no concreto e o silêncio súbito que se seguiu — um silêncio muito mais assustador do que o barulho. Quando a poeira baixou, senti mãos fortes me puxando para cima. Apollo me segurava pelos ombros, seus olhos varrendo meu rosto em busca de ferimentos. Ele não parecia aliviado; ele parecia furioso. Uma fúria contida, daquelas que precedem uma tempestade devastadora. — Você está ferida? — Ele perguntou, sua voz era um rosnado baixo. — Eu... eu acho que não — consegui balbuciar, minhas pernas tremendo tanto que eu mal conseguia me manter em pé. — E o Leo? Onde está o Leo? Olhei para o lado e vi dois dos homens de Apollo arrastando meu irmão. Leonardo estava pálido, uma mancha escura crescendo na perna de sua calça jeans. Ele choramingava, um som patético que partiu meu coração e, ao mesmo tempo, me irritou profundamente. Ele nos colocou nisso. Ele me colocou nisso. — Ele levou um tiro de raspão na coxa. Vai sobreviver — disse Apollo, sem qualquer traço de empatia. Ele me empurrou em direção ao SUV. — Entre no carro. Agora. Fomos escoltados para dentro do veículo blindado. O interior cheirava a couro e a uma calma artificial que contrastava com o caos lá fora. Leo foi jogado no banco de trás de outro carro, e logo estávamos subindo a serra em uma velocidade que desafiava as leis da física e do bom senso. No carro, o silêncio era uma entidade física. Apollo estava sentado ao meu lado, mas parecia estar a quilômetros de distância. Ele olhava para a janela, observando as luzes da rodovia passarem como borrões de luz. Eu olhei para as minhas mãos. Elas estavam sujas de graxa e poeira, as unhas que eu costumava manter impecáveis agora estavam quebradas. — Por que você saiu do carro? — Apollo perguntou finalmente, sem desviar o olhar do vidro. — Eu vi o Leo. Ele ia morrer — respondi, tentando manter a voz firme, embora o choro estivesse entalado na minha garganta. — Ele quase morreu porque você distraiu meus homens — ele se virou para mim, e o brilho nos seus olhos era gélido. — No momento em que você apareceu, o foco mudou. Eu tive que dividir minha equipe para garantir que você não fosse atingida por uma bala perdida. Se você tivesse ficado onde eu mandei, teríamos pegado os homens de Vane sem disparar metade do que disparamos. — Você fala como se fôssemos peças de um jogo, Apollo! — explodi, a adrenalina finalmente dando lugar à raiva. — É o meu irmão! É a minha vida! Eu não sou uma "variável" que você pode trancar em um porta-malas mental até que a situação seja conveniente! — E veja onde sua "humanidade" nos levou — ele se inclinou para perto, o espaço confinado tornando a tensão insuportável. — Estamos voltando para casa com um homem ferido, uma dívida não paga e Marcus Vane agora sabe que eu tenho uma fraqueza. E essa fraqueza é você, Maia. Aquelas palavras me atingiram com mais força do que qualquer bala. "Fraqueza". Eu não queria ser a fraqueza de ninguém, muito menos de um homem como ele. — Eu não pedi para ser protegida por você — murmurei, desviando o olhar. — Mas você é. E enquanto estiver sob meu teto, as minhas regras são a única coisa que separa você de um necrotério. Chegamos à mansão nas primeiras horas da madrugada. O jardim impecável parecia uma ilusão após o cenário industrial de Santos. Leo foi levado para uma ala separada, onde um médico de confiança de Apollo já o aguardava. Eu tentei segui-los, mas Apollo segurou meu pulso. — Deixe-o. Ele precisa de cuidados médicos, não de uma irmã chorosa — ele ordenou. — Você e eu temos o que conversar na biblioteca. Eu estava exausta, mas sabia que não tinha escolha. Caminhei até a biblioteca, o mesmo lugar onde, horas antes, eu estava orgulhosa de ter decifrado um código. Agora, a sala parecia opressiva. Apollo serviu-se de uma dose generosa de uísque. Ele não me ofereceu. — O que vai acontecer agora? — perguntei, sentando-me na poltrona de couro. — O que vai acontecer é que o seu irmão vai ser mantido em isolamento até que a perna dele cure e ele possa me dar todos os nomes e contas que ele tentou esconder — ele deu um gole na bebida, fechando os olhos por um segundo. — E você... você vai continuar o trabalho que começou. — O quê? Depois de quase morrermos, você quer que eu volte para as telas? — Especialmente agora — ele caminhou até a mesa e jogou uma pasta de arquivos físicos diante de mim. — Vane não vai parar. Ele tentou matar o Leonardo no porto porque o Leonardo sabe algo que vale mais do que a dívida de dinheiro. E eu preciso que você descubra o que é através do rastro digital que o seu irmão deixou. Abri a pasta. Eram extratos bancários, capturas de tela de conversas criptografadas e fotos de obras de arte que eu nunca tinha visto. Eu olhei para os documentos, sentindo o peso da responsabilidade. Eu estava presa em uma teia que ia muito além de um erro de família. — Se eu fizer isso... se eu descobrir o que é... você deixa o Leo ir? — perguntei, olhando-o nos olhos. Apollo deixou o copo sobre a mesa e caminhou até mim. Ele se curvou, colocando as mãos nos braços da minha poltrona, cercando-me. — O destino do seu irmão depende da utilidade da informação que você encontrar. Mas o seu destino... — ele parou, sua mão subindo para tocar, com uma leveza perturbadora, o meu queixo — o seu destino já está selado comigo. Você provou hoje que tem coragem. Mas a coragem sem disciplina é apenas uma forma lenta de suicídio. Ele se afastou, deixando-me com o frio da ausência do seu toque. — Vá dormir, Maia. Amanhã, as cores que você vai procurar não estarão em um sketchbook. Elas estarão no código de um império que está tentando nos destruir. Saí da biblioteca sentindo que o mundo tinha mudado de cor novamente. O rosa da esperança tinha evaporado. O azul da confiança estava manchado. O que sobrava era o cinza do concreto e o vermelho que, agora eu sabia, nunca saía totalmente das mãos de quem decide jogar esse jogo. Antes de entrar no meu quarto, passei pela porta onde Leo estava. Ouvi o som abafado de gemidos e o barulho de equipamentos médicos. Senti uma onda de tristeza, mas por baixo dela, algo novo estava crescendo. Uma frieza. Uma necessidade de entender a lógica por trás de tanta violência. Fechei a porta do meu quarto e, pela primeira vez, eu mesma girei a chave por dentro. Eu não era mais apenas uma convidada ou uma refém. Eu era parte da engrenagem. E eu ia garantir que, se o tabuleiro era do Apollo, eu seria a rainha que ele não viu chegar.
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