Sentei-me diante de uma das estações de trabalho. O teclado mecânico tinha um clique satisfatório, um som de precisão que ajudava a ancorar meus pensamentos em meio ao turbilhão de ansiedade. Apollo estava de pé atrás de mim, a uma distância que eu consideraria segura se não pudesse sentir a pressão da sua presença irradiando como uma fonte de calor. — O que você está vendo agora é o servidor espelhado da Galeria Neon-Matrix — disse ele, apontando para a tela central. — Vane acredita que a criptografia de ponta é o que o mantém seguro. Ele esquece que a comunicação humana sempre deixa rastros estéticos. Abri os arquivos brutos das últimas postagens da galeria. Para um observador comum, eram apenas peças de arte digital pretensiosas: cores ácidas, distorções propositais e tipografias que desafiavam a legibilidade. Mas, para mim, cada escolha de design era um dado. — O Vane não é um gênio, Apollo — comecei, enquanto minhas mãos voavam pelo mouse, isolando as camadas de um dos arquivos.tiff. — Ele é um exibicionista. Veja este cartaz para a "Exposição Vácuo". Ele usa um padrão de ruído no fundo que parece aleatório, mas a frequência das ondas de cor não bate com o restante da composição. — Explique para quem não fala "designer" — ele solicitou, inclinando-se ligeiramente. O braço dele roçou o meu ombro, e eu me forcei a não estremecer. — Ele está usando esteganografia de canal — expliquei, abrindo o software de edição e separando os canais CMYK. — No canal do Ciano, ele escondeu o contraste. No canal do Magenta, ele escondeu a saturação. Mas olhe o canal do Preto (o K). Se eu aumentar o contraste em 400% e aplicar um filtro de inversão... A imagem na tela mudou drasticamente. O que antes era uma mancha roxa e verde transformou-se em uma grade nítida. Eram números. Coordenadas e horários. — 23° 56′S 46° 19′W — li em voz alta, sentindo um calafrio percorrer minha espinha. — Isso é... — Porto de Santos. Armazém 4. — Apollo completou, sua voz tornando-se subitamente gélida. Ele se afastou de mim, pegando um rádio de comunicação sobre a mesa. — Arthur, prepare a equipe. Temos um alvo e uma localização. Saímos em dez minutos. — Espera! — eu gritei, levantando-me tão rápido que a cadeira quase tombou. — Você prometeu. Você disse que se eu encontrasse, eu teria a chance de falar com ele. Apollo parou e se virou. A luz azulada dos monitores refletia em seus olhos, fazendo-o parecer menos humano e mais como uma divindade vingativa esculpida em granito. — Eu prometi que ele sairia vivo se você colaborasse. E você colaborou. Mas o Porto de Santos à meia-noite não é lugar para uma designer que se emociona com milímetros de margem, Maia. É uma zona de guerra. — Eu não sou apenas uma designer agora, sou? — rebati, dando um passo à frente, desafiando o espaço pessoal que ele tanto protegia. — Eu sou a única pessoa que o Leo pode ouvir sem tentar fugir. Se ele vir os seus homens armados, ele vai pular no canal e se afogar antes de se entregar. Ele está apavorado, Apollo. Ele sabe que o Vane quer a cabeça dele e que você, quer a alma dele. Houve um silêncio tenso na biblioteca. Eu podia ouvir o tique-taque de um relógio antigo em algum lugar e o zumbido constante dos servidores. Apollo me estudou por um longo tempo, como se estivesse decidindo se eu era um ativo valioso ou um fardo perigoso. — Você vai ficar no carro — ele sentenciou finalmente. — Com vidros blindados e um segurança. Se a situação sair do controle, você será retirada imediatamente, mesmo que isso signifique arrastá-la pelos cabelos. Entendido? — Entendido — respondi, embora soubesse que "ficar no carro" não estava nos meus planos se eu visse o Leo em perigo. — Vá se trocar. Use algo escuro e resistente. E coloque isto. Ele me entregou um pequeno dispositivo auricular. — É o nosso canal de comunicação. Se eu mandar você se abaixar, você se abaixa. Se eu mandar você correr, você corre. Não haverá segunda chamada. Corri para o quarto, meu coração batendo em um ritmo frenético de techno industrial. Vesti uma calça de sarja preta, botas de combate que eu costumava usar apenas para parecer "estilosa" em vernissages, e um casaco de nylon escuro. Olhei-me no espelho e mal reconheci a mulher ali. A Maia que chorava por prazos de entrega apertados parecia pertencer a outra vida. Esta Maia estava prestes a entrar no epicentro de uma guerra de máfias para salvar o único idiota que restava da sua família. Quando desci para a garagem, Apollo já estava lá. Ele usava um colete balístico por baixo de um sobretudo preto, e sua expressão era de uma concentração absoluta. Três SUVs blindados aguardavam com os motores roncando, uma sinfonia de cavalos de potência prontos para rasgar a rodovia dos Imigrantes. Ele abriu a porta do SUV central para mim. — Lembre-se, Maia: no momento em que sairmos por esses portões, você não é mais uma civil. Você é parte da minha operação. Qualquer erro seu coloca a vida dos meus homens em risco. E eu valorizo a vida deles muito mais do que a do seu irmão. — Eu sei — murmurei, subindo no banco de couro cheirando a carro novo e perigo iminente. A viagem até Santos foi um borrão de luzes da estrada e silêncio pesado. Apollo não disse uma palavra, focado em um tablet que exibia o posicionamento tático de suas equipes. Eu olhava pela janela, vendo a serra do mar envolta em neblina, sentindo que estávamos descendo para o próprio inferno. Quando chegamos à zona portuária, a atmosfera mudou. O cheiro de salitre, óleo diesel e ferrugem era sufocante. O Porto de Santos à noite é um monstro de metal, cheio de guindastes que parecem dinossauros mecânicos e contêineres empilhados como blocos de montar de um gigante. Os carros apagaram os faróis e deslizaram silenciosamente entre os corredores de aço. Paramos a cerca de cem metros do Armazém 4. — Fique aqui — Apollo ordenou, sua voz soando clara no meu auricular. Ele saiu do carro com a graça de uma pantera. Vi seus homens se espalharem pelas sombras, movendo-se com uma coordenação militar. Fiquei no banco de trás, minhas mãos apertando o sketchbook que eu trouxera por puro instinto nervoso. Minutos se passaram. O silêncio era interrompido apenas pelo grito distante de uma gaivota e pelo rangido do metal contra o metal. De repente, o rádio chiou. — Alvo avistado no setor norte do armazém. Ele não está sozinho. Repito, o alvo não está sozinho. Homens do Vane estão no local. Meu sangue gelou. Eu ignorei o olhar de aviso do motorista sentado à frente e abri a porta do carro silenciosamente. A adrenalina tinha obliterado qualquer vestígio de bom senso que me restava. — Maia, volte para o carro agora! — a voz de Apollo trovejou no meu ouvido, mas eu já estava correndo, escondendo-me atrás de uma pilha de paletes de madeira. Eu precisava ver. Eu precisava saber se o Leo ainda era o meu irmão ou se ele já tinha se tornado apenas mais um cadáver naquela geometria de caos. À luz de um único refletor pendurado na entrada do armazém, vi a cena. Leonardo estava encolhido entre dois contêineres azuis, o rosto pálido e suado, parecendo um rato encurralado. À frente dele, três homens de jaqueta de couro — os cães de Vane — apontavam armas para sua cabeça. E das sombras opostas, Apollo emergiu. Ele não estava correndo. Ele caminhava calmamente para o centro da luz, como se fosse o dono de cada átomo de oxigênio naquele lugar. — O tempo acabou, senhores — disse Apollo, e o som de sua voz fez os homens de Vane hesitarem por um microssegundo. — O Leonardo é uma dívida minha. E eu não gosto que mexam na minha contabilidade. — Apollo! — Leo gritou, sua voz aguda de puro terror. — Por favor, não me mate! Eu tenho o dinheiro! Eu juro! Eu saí de trás dos paletes, ignorando o perigo. — Leo! — eu gritei. Todos os olhos se voltaram para mim. O tempo pareceu parar. Apollo me olhou com uma fúria que me fez querer desaparecer, mas ele não hesitou. No momento em que um dos homens de Vane virou a arma em minha direção, o inferno começou. — Abaixe-se! — a voz de Apollo não veio pelo rádio, mas diretamente do ar à minha volta. O som dos disparos ecoou pelo porto, um contraste violento de flashes de luz e gritos. Eu me joguei no chão, o rosto contra o asfalto frio e sujo, enquanto a "geometria do caos" se desdobrava acima de mim. Eu não era mais apenas uma designer. Eu era uma sobrevivente no meio de um tiroteio, e a única coisa que eu conseguia pensar era que o vermelho do sangue que agora manchava o chão era a cor mais real que eu já tinha visto.
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