O vento batia no rosto da Ayumi com tanta força que ela mal conseguia manter os olhos abertos. O cheiro de mato seco e óleo diesel velho começou a tomar conta do ar conforme a XT 600 entrava na zona dos trilhos desativados. Aquilo ali era o cemitério dos trens da cidade; vagões pichados, enferrujados e tombados criavam um labirinto de ferro que parecia um cenário de filme pós-apocalíptico. — Washington, você tem certeza que esse troço aguenta? Se a gente cair nesses trilhos, a gente vai virar espetinho de ferro-velho! — Ayumi gritou, a voz falhando por causa de um solavanco que quase a fez voar da garupa. — Relaxa, japa! O segredo é não olhar pro chão! — Washington respondeu, concentrado em equilibrar a moto em cima de uma viga de concreto que servia de passagem lateral. — A XT foi feita pra isso. É quase um trator com duas rodas! Atrás deles, o ronco do motor do sedã preto tinha sido substituído por algo mais ágil. Os caras não eram bobos; tinham trocado de carro ou pegado um atalho, e agora duas motos menores, daquelas de entrega mas mexidas pra correr, surgiram no retrovisor, saltando sobre os dormentes de madeira. — Eles estão com motos também! — Ayumi avisou, olhando por cima do ombro. — E eles estão ganhando terreno! — Ah, mas é claro que estão. O Doutor não economiza na mão de obra. — Washington deu uma olhada rápida pra trás. — Ayumi, lembra do que eu falei sobre o Buraco do Rato? Pra entrar lá, a gente precisa que o portão automático da antiga subestação abra. Só que aquela droga tá sem energia há dez anos. — E você quer que eu faça o quê? Que eu desça e empurre? — Você é a guria do computador, não é? Usa esse seu tijolo tecnológico aí e faz uma mágica! O portão tem um receptor de rádio antigo. Se você conseguir emular a frequência, a gente entra e eles ficam do lado de fora batendo a cara no ferro! Ayumi soltou uma das mãos da cintura dele — o que a deixou morrendo de medo de cair — e puxou o celular com uma habilidade que só quem viveu a vida toda conectada tem. — Você quer que eu hackeie um portão analógico de rádio frequência... em movimento... a oitenta por hora... num terreno que parece a lua? — Ela perguntou, incrédula. — É por isso que eu te trouxe, ué! Se fosse fácil, eu chamava minha avó! Ayumi começou a deslizar os dedos na tela com uma velocidade frenética. Ela abriu um app de terminal que ela mesma tinha desenvolvido para testes de penetração em sistemas de segurança. — Tá... deixa eu ver... se o receptor for o padrão da época, ele opera em 433 MHz. Eu preciso forçar um sinal de brute-force pra achar o código de abertura... — Faz logo que o cara de trás tá puxando um ferro! — gritou Washington, inclinando a moto pra desviar de um pedaço de trilho retorcido. Um estalo seco ecoou. Uma bala ricocheteou num vagão de carga ao lado deles, soltando faíscas. — ELE TÁ ATIRANDO! WASHINGTON, ELE TÁ ATIRANDO NA GENTE! — Ayumi entrou em modo de hiper-foco. O medo virou puro processamento de dados. — Então acelera esse código aí, japa! Eu tô fazendo o que posso pra não sermos alvos fáceis! Washington começou a fazer um zigue-zague insano entre os pilares de sustentação de um viaduto abandonado. As motos dos perseguidores vinham logo atrás, os pilotos inclinando os corpos como se estivessem numa pista de corrida, mas com a diferença de que um erro ali significava uma queda em cima de ferro pontiagudo. — Achei a faixa de frequência! — gritou Ayumi, o celular vibrando na mão dela. — Tô disparando o sinal! O portão deve estar a uns cem metros à frente! — Boa! Segura firme que eu vou dar o gás final! O portão da subestação surgiu no fim do corredor de vagões. Era um paredão de grade de ferro maciço, fechado por um motor elétrico que parecia uma peça de museu. Washington não diminuiu a velocidade. Pelo contrário, ele torceu o cabo do acelerador até o fim. — Ayumi... se esse portão não abrir, a gente vai virar patê de japa e de malandro! — ele avisou, os olhos fixos na grade. — O sinal tá indo... vai... vai... ABRE, DROGA! A grade soltou um estalo metálico pesado, uma nuvem de poeira subiu e, com um rangido que pareceu um grito de dor, o portão começou a correr para o lado, mas devagar demais. — Não vai dar tempo! Ele tá abrindo muito devagar! — Ayumi fechou os olhos, encostando o rosto nas costas do Washington. — Ah, vai dar sim! Confia no pai! Washington deu um tranco na moto, jogando o corpo pra trás e depois pra frente, fazendo a suspensão comprimir e saltar. Ele aproveitou um pequeno monte de brita como rampa e a XT decolou. Eles passaram pelo vão do portão que tinha pouco mais de um metro de abertura, raspando o pedal da moto no ferro e soltando faíscas que iluminaram a escuridão do galpão por um milésimo de segundo. Do lado de fora, as duas motos dos perseguidores tentaram fazer o mesmo, mas o primeiro piloto não teve a mesma perícia. Ele bateu de lado na grade que ainda se movia e foi lançado longe. O segundo teve que frear bruscamente, derrapando na brita e caindo de lado. Lá dentro, Washington freou a moto fazendo um "L" perfeito no chão de cimento liso, levantando uma cortina de poeira. O portão, movido pelo sinal contínuo da Ayumi, terminou de fechar com um baque surdo, trancando os perseguidores do lado de fora. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo som da respiração ofegante dos dois e pelo estalar do motor quente da moto. Ayumi abriu um olho, depois o outro. Ela ainda estava abraçada ao Washington como se a vida dela dependesse disso. — A gente... a gente tá vivo? — ela perguntou, a voz saindo num fio. — Vivinhos da silva. E ó, nota dez pra sua performance de hacker de fuga. Se eu soubesse que você era tão boa sob pressão, tinha te chamado pra roubar banco antes. — Washington desceu da moto, tirando o capacete e balançando a cabeça pra ajeitar o cabelo bagunçado. Ayumi desceu da garupa, as pernas tremendo tanto que ela quase caiu. Ela olhou para o Washington, que estava ali, com aquele sorriso de canto de boca, agindo como se tivessem acabado de sair de um cinema. — Eu odeio você. — ela disse, mas sem raiva nenhuma, apenas exausta. — Eu odeio sua moto, odeio seus amigos, odeio esse lugar que cheira a rato morto... e odeio o fato de que você salvou minha vida de novo. — É, eu sei. É um fardo ser eu, né? — Ele caminhou até uma mesa de metal velha que tinha no canto do galpão e ligou uma lanterna de mão. — Bem-vinda ao Buraco do Rato. Aqui é o único lugar da cidade onde o sinal de satélite não chega e onde o Doutor não tem jurisdição. Ayumi olhou em volta. O galpão era enorme, cheio de transformadores elétricos gigantes e cabos de alta tensão desligados que pareciam cobras de metal pelo chão. — E o que a gente faz agora? — ela perguntou, guardando o celular no bolso. — Agora? — Washington abriu uma geladeira de isopor que estava escondida atrás de um transformador e tirou duas garrafas de água. — Agora a gente descansa, porque amanhã a gente vai parar de fugir e começar a bater de volta. Ninguém tenta apagar o Washington e a japa mais braba de São Paulo e sai ileso. — "A japa mais braba"? — Ayumi pegou a água, dando um gole longo. — Gostei do título. Mas já aviso: se a gente for atacar, eu quero um teclado de verdade e uma cadeira ergonômica. Minhas costas não aguentam mais esse seu estilo de vida "rústico". Washington riu, sentando no chão de cimento e encostando as costas na parede fria. — Pode deixar, madame. Vou ver se o Zeca Urubu tem um escritório de luxo pra te emprestar. Mas por enquanto... tenta não roncar muito, beleza? Ayumi deu um chute de leve no pé dele e se sentou ao lado, sentindo o cansaço finalmente vencer a adrenalina. O perigo ainda estava lá fora, mas por aquela noite, o Buraco do Rato era o lugar mais seguro do mundo. *A manhã chega e com ela um plano audacioso. Eles não podem ficar escondidos para sempre. Washington conhece alguém que pode dar informações sobre o paradeiro do "Doutor", mas para isso, eles terão que entrar em um cassino clandestino disfarçados.*
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