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Bab 4 Na Garagem do Zeca e o Trato de Risco

A viela por onde eles caminhavam era daquelas que nem o Google Maps se atreve a mapear. O chão tinha mais buraco que queijo suíço e a iluminação vinha de um único poste que piscava num ritmo de filme de terror, fazendo a sombra do Washington parecer um gigante desengonçado nas paredes de chapisco.
— Washington, se a gente for assaltado agora, eu vou rir da cara do bandido. — Ayumi quebrou o silêncio, tentando não tropeçar num resto de entulho. — Porque, sério, o que ele vai levar? Meu celular descarregado e o cheiro de maionese que ficou na sua jaqueta?
— Ih, japa, relaxa. Nessa quebrada aqui eu sou mais conhecido que nota de um real. — Washington deu uma piscadinha, mesmo que ela mal pudesse ver. — Os caras sabem que mexer comigo é pedir pra ter dor de cabeça. E outra, o Zeca mora logo ali naquela porta de aço azul que tá meio torta.
Eles pararam na frente de um portão que já tinha visto dias melhores, provavelmente na década de 80. Tinha um grafite de um urubu com cara de poucos amigos pintado na lateral. Washington não tocou a campainha; ele deu três batidas rítmicas com o nó dos dedos, esperou dois segundos e deu mais duas.
Lá de dentro, veio um som de correntes se arrastando e uma vozinha estridente:
— Se for a Receita Federal, eu já morri e fui cremado!
— Abre aí, Zeca! É o Washington, seu traste. O cara que te tirou daquela confusão em Interlagos, lembra?
O portão subiu uns trinta centímetros, revelando um par de chinelos de dedo e um homem baixinho, com um bigode que parecia um bicho de pelúcia mal conservado e um boné de marca falsificada. O tal Zeca Urubu olhou para os dois, espremendo os olhos por trás de uns óculos de grau que tinham sido remendados com fita isolante.
— Washington? Mas o que tu quer aqui a essa hora, ô assombração? E quem é a guria? Não me diz que tu tá sequestrando gente agora, que eu não quero meu nome no Datena!
— Credo, Zeca, quanta falta de fé no meu caráter. — Washington entrou abaixado, puxando a Ayumi pelo braço. — Essa aqui é a Ayumi. Ela é... uma associada. E o papo é o seguinte: a gente precisa de um motor. O Trovão de Aço ficou de herança num ferro-velho aí atrás.
Lá dentro, a garagem era um santuário da gambiarra. Tinha peça de moto por todo lado, motor aberto soltando óleo no chão e um calendário de 2012 na parede. O cheiro de gasolina era tão forte que a Ayumi sentiu que podia ficar tonta só de respirar.
— Um motor? Tu acha que eu sou o quê? Concessionária? — Zeca resmungou, limpando as mãos num pano que estava mais sujo que o chão. — E o que eu ganho com isso? Tu ainda me deve aquela bateria de caminhão do ano passado!
— Escuta aqui, seu Zeca. — Ayumi deu um passo à frente, cruzando os braços e usando aquele tom que ela usava pra dar bronca em estagiário de TI. — A gente está sendo seguido por gente que trabalha pro "Doutor". Se eles chegarem aqui e virem a gente batendo papo, eles não vão perguntar quem deve bateria pra quem. Eles vão passar o trator em cima de tudo, inclusive desse seu bigode estiloso.
O homenzinho empalideceu na hora. O nome do "Doutor" tinha esse efeito nas pessoas daquela região. Era tipo falar o nome de quem não deve ser nomeado.
— O Doutor? O cara das máquinas de caça-níquel e do golpe do Pix? — Zeca engoliu em seco. — Washington, tu só me traz B.O. de alto calibre, né?
— É meu talento natural, Zequinha. Mas ó, me descola aquela XT 600 preta que tá ali no fundo, debaixo da lona, e a gente some em cinco minutos. Amanhã eu te mando um Pix gordo pra quitar tudo e mais um pouco.
— "Amanhã", sei... — Zeca resmungou, mas já estava indo em direção à lona. — Se vocês morrerem, eu fico com o prejuízo e ainda herdo a alma de vocês me assombrando.
Ele puxou a lona e revelou uma moto que, milagrosamente, parecia em ótimo estado, apesar da poeira. Era robusta, com cara de quem aguentava subir escada e pular calçada sem reclamar.
— Ela tá com o tanque cheio? — perguntou Ayumi, já analisando a estrutura da máquina.
— Tá sim, mas o banco tá meio rasgado. E ó, o escape tá barulhento, então nada de querer dar uma de espião silencioso. — Zeca entregou as chaves pro Washington.
— Perfeito. Barulho é comigo mesmo. — Washington montou na moto e fez um sinal pra Ayumi subir atrás. — Bora, japa! Sobe aí e aperta firme, que agora a gente vai ver se essa moto voa.
Ayumi subiu na garupa, sentindo o banco duro. Ela não teve outra opção a não ser abraçar a cintura do Washington, o que a fez revirar os olhos, mas a segurança vinha primeiro.
— Se você tirar proveito dessa situação pra se gabar depois, eu te derrubo da moto em movimento. — ela avisou, encostando o capacete (que o Zeca tirou de dentro de um pneu) no ombro dele.
— Que isso, Ayumi! Eu sou um cavalheiro profissional. Segura o rojão!
Washington deu partida. O motor da XT rugiu como um leão com dor de dente, ecoando por toda a garagem. Zeca Urubu já estava correndo pra fechar o portão.
— Vão logo! E se alguém perguntar, eu nunca vi vocês! Eu sou daltônico e sofro de amnésia seletiva! — gritou o baixinho.
Washington saiu da garagem com tudo, levantando uma nuvem de poeira. Assim que ganharam a rua principal, ele não seguiu o caminho óbvio. Ele começou a cortar por entre os quarteirões, usando a agilidade da moto pra se enfiar em lugares onde o sedã preto jamais passaria.
— Onde a gente vai agora? — Ayumi gritou por causa do vento.
— Pra um lugar que nem o Doutor, nem o Google, nem a sua mãe conseguiriam achar a gente. Vamos pro "Buraco do Rato".
— "Buraco do Rato"? Washington, você não tem nenhum amigo que more num lugar com nome normal? Tipo... Edifício Girassol ou algo assim?
— No meu mundo, Ayumi, quem mora em Edifício Girassol não dura dez minutos numa perseguição. O Buraco do Rato é seguro, confia!
Enquanto eles voavam pelas ruas desertas da madrugada, Ayumi olhou pelo retrovisor da moto. Lá longe, ela viu o brilho de faróis de xênon dobrando a esquina onde eles tinham acabado de passar. Os caras eram persistentes, pareciam carrapato em cachorro de rua.
— Eles ainda estão na bota! — ela gritou, apertando mais a cintura dele.
— Deixa eles virem! Agora eu tô no meu terreno e com duas rodas sob o comando. O show vai começar!
Washington empinou a moto levemente ao passar por uma lombada e entrou numa viela que levava direto para a área dos trilhos do trem desativados. A aventura estava longe de acabar, e o fôlego da Ayumi já estava pedindo arrego, mas ela sabia de uma coisa: com o Washington, o tédio era a única coisa que não ia matar ela.
*Eles entram na zona dos trilhos, um lugar perigoso e cheio de obstáculos. É lá que a Ayumi vai ter que usar seu conhecimento técnico para hackear algo pelo celular e despistar os perseguidores de uma vez por todas, enquanto o Washington faz manobras que desafiam a física.*

Komentar Buku (82)

  • avatar
    PadilhxAna

    Perfeito

    7d

      0
  • avatar
    Lara Rafaella

    Muito bom

    7d

      0
  • avatar
    SantosThamires

    maravilhoso

    10d

      0
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