Cheguei na casa da Sara no meio da tarde. O pai dela, seu Ricardo, me recebeu com aquele sorriso tranquilo de sempre. Ele era um homem moreno, de cabelos curtos e bigode bem aparado, que dava um ar ainda mais simpático ao rosto. Sempre com um jeito calmo e acolhedor, fazia questão de apertar minha mão com firmeza, como se dissesse sem palavras que eu era bem-vinda ali. — Sofia! Que bom te ver. A Sara tá lá em cima, pode subir — disse ele, encostando a porta. — Obrigada, seu Ricardo — respondi, subindo as escadas de madeira que sempre rangiam um pouquinho. Quando cheguei ao quarto, bati de leve antes de empurrar a porta. — Sara? — chamei, mas nem precisei esperar muito. Ela abriu a porta num pulo e me puxou pra dentro num abraço apertado. — Amiga! — exclamou, me envolvendo como se fosse me esmagar. — Que saudade! — Você sempre fala isso — brinquei, rindo. — Eu também senti saudade. Ela me soltou e me olhou de cima a baixo, com um sorriso encantador no rosto. — Tá mais bonita hoje, sabia? — falou, ajeitando o cabelo loiro que caía no ombro. — Tá com um brilho diferente. — Só vim mesmo, nem fiz nada de especial — respondi, meio sem graça. — Mas obrigada. Sara era linda. Tinha aqueles olhos castanhos, quase cor de mel, e a pele clara que deixava tudo ainda mais iluminado. A gente se conheceu no começo do ensino médio por causa da música. Ela sempre tão apaixonada pelo violão, e eu… eu gostava de cantar, mas quase ninguém sabia disso. Só ela. Ela apontou pra cama e se sentou, puxando o notebook que estava em cima da mesinha perto da janela. — Senta aqui, amiga. Eu tenho algo pra te mostrar — disse, com um brilho nos olhos. — Algo pra me mostrar? — perguntei, curiosa. — Mas você não falou nada no celular, só deixou no ar. — Pois é pra ter um suspense — ela disse, rindo baixinho. — E eu sei que você vai gostar. Só… precisa abrir a cabeça, sabe? Sentei ao lado dela e espiei a tela do notebook. — Vai, fala logo. Eu odeio esse mistério todo. — Calma! — ela disse, digitando rápido. — Eu vi isso ontem à noite e quase não dormi. Olha só. Ela abriu um site com fundo escuro e várias fotos de bandas, palcos, gente cantando, luzes piscando. Parecia profissional. — O que é isso? — perguntei, franzindo a testa. — São uns empresários de fora, Sofia — ela começou, com a voz empolgada. — Eles tão procurando um grupo brasileiro pra investir. Querem montar um projeto, cuidar de uma banda de verdade. Tipo… transformar em algo grande, entende? — E por que você tá me mostrando isso? — perguntei, meio desconfiada. — Porque eu pensei em você, óbvio — disse ela, me cutucando no braço. — Eles vão abrir inscrições no próximo mês e vai durar só um mês. Depois disso, eles vão começar a escolher, cidade por cidade, estado por estado. No final do ano, vai sobrar só uma banda — explicou, com o olhar animado. — É como se fosse uma grande seleção, sabe? Eu olhei pro site, tentando entender. Lá tinha tudo: regulamento, datas, até vídeos de outros grupos mostrando ensaios. — E precisa de quê? — perguntei, com a voz mais baixa. — Um grupo de no mínimo quatro pessoas. Tem que ter nome, música própria ou cover, essas coisas. Eles querem ver talento e trabalho em grupo — explicou, olhando pra mim com expectativa. — Eu sei que a gente só tem eu e você, mas isso é o de menos. A gente pode correr atrás de mais gente. O importante é que você tem uma voz incrível. E eu sei tocar. Suspirei e passei a mão no cabelo, nervosa. — Sara… você sabe que eu amo cantar, mas… — comecei, tentando organizar meus pensamentos. — Eu não sei se quero investir nisso. Parece tão… incerto, tão difícil. Eu tenho medo de gastar energia, de perder tempo e… acabar frustrando minha família. Ela me olhou, o sorriso se desfazendo um pouco. — Eu sei — disse, devagar. — Eu sei que você pensa muito nos seus pais. Você sempre foi assim: preocupada em ajudar em casa, em não decepcionar ninguém. Eu admiro isso. Mas, amiga… também sei que você ama música. Isso faz parte de quem você é. — Eu só… eu tenho medo, sabe? — confessei. — Aqui no Brasil tudo é tão complicado. E eu preciso pensar na faculdade que tô querendo, nos meus pais… Não sei se posso arriscar tudo por um sonho que talvez nem dê certo. Sara respirou fundo e apertou minha mão. — Eu entendo. E eu não vou te forçar, Sofia. Mas… eu precisava te mostrar. Porque eu acho que você merece pelo menos ver que é possível — disse, com a voz suave. — E olha, como as inscrições ainda não abriram, a gente tem um tempo pra pensar. Um mês pra se inscrever. Se a gente decidir tentar, vamos dar nosso melhor. Se não… tudo bem também. Fiquei em silêncio, olhando o site. As luzes piscando, as bandas sorrindo. Aquilo me dava um frio na barriga. — Obrigada por me mostrar, Sara — falei, por fim, com um sorriso pequeno. — De verdade. É bom… saber que você acredita em mim, mesmo quando eu mesma não sei o que quero. Mandei uma mensagem pra minha mãe avisando que ia dormir na casa da Sara. Escrevi rápido, tentando não pensar demais. Eu sabia que ela não ia reclamar. Afinal, Sara era quase como parte da família. A gente decidiu ver alguns filmes, pipoca e conversa de meninas até tarde da noite. Rimos tanto que minhas bochechas doíam. Mas, mesmo assim, a ideia da banda não saía da minha cabeça. Ficou latejando no fundo, como uma música que eu não conseguia desligar. No dia seguinte, a gente acordou cedo. Eu e Sara pegamos as bicicletas e fomos até a praça que ficava a uns quarteirões da casa dela. O sol estava suave, meio escondido pelas nuvens, e o vento da manhã trazia um cheiro de flores que eu sempre amava. — Você reparou como hoje tá diferente? — Sara falou, pedalando ao meu lado. — Não sei… parece que tudo tá meio mais vivo. — Deve ser porque você dormiu bem — brinquei, olhando pra ela de canto de olho. Ela riu e me empurrou de leve com o braço. — Tô falando sério, Sofia. Eu tenho certeza que isso tudo é sinal. Aquela coisa do site, essa oportunidade… parece destino. — Destino? — revirei os olhos. — Você já tá viajando, Sara. — Sério, amiga. Eu acordei com isso na cabeça. Tipo… por que a gente viu o site ontem? Por que justo agora? Antes que eu pudesse responder, a gente viu um daqueles cartazes eletrônicos da praça mudando as imagens, passando fotos de shows e palcos iluminados. Parecia propaganda do site, mesmo que fosse só coincidência. — Olha aí! — ela apontou, quase gritando. — É isso que eu tô falando! É destino, Sofia! Dei uma risada, meio cínica. — Ou é só marketing. Sei lá, Sara. Não quero me iludir com isso. Eu sei que você tá animada, mas eu tô tentando ficar de boa. Se não rolar, não dói tanto. Ela suspirou, mas não disse nada. A gente continuou pedalando, e eu senti o vento batendo no meu rosto, tentando me distrair daquele pensamento. Depois de umas voltas pela praça, voltamos pra casa dela. Peguei minhas coisas que ainda estavam lá, e a gente ficou parada na porta por uns minutos, sem pressa de encerrar a manhã. — Então… você vai mesmo pensar nisso? — ela perguntou, quase num sussurro. — Eu vou pensar — disse, sincera. — Mas sem prometer nada, ok? Ela sorriu, aquele sorriso que sempre me desmontava. — Fechado. Cheguei em casa com a respiração meio ofegante, o rosto ainda quente do vento e do calor. Encostei a bicicleta na entrada e entrei, tentando manter o sorriso calmo. Minha mãe estava na cozinha, lavando umas frutas. Quando me viu, levantou os olhos e me olhou com aquele jeito carinhoso de mãe que sempre entende tudo. — Foi bom lá na casa da Sara? — ela perguntou, me dando um beijo no rosto. — Foi, mãe — respondi, tentando esconder a confusão que ainda estava na minha cabeça. Na sala, meu pai estava sentado, lendo o jornal. Quando me viu, ergueu os olhos e abriu um sorriso caloroso. Não disse nada, só me observou com aquele jeito calmo. — Pai, eu tava com saudade de você — falei, indo até ele e dando um abraço. Ele largou o jornal, me abraçou de volta e deu um beijo na minha cabeça. — Eu também, minha filha — ele disse, apertando de leve meus ombros antes de me soltar. Subi pro meu quarto, larguei a bolsa num canto e me joguei na cama, ainda de manhã. O sol entrava devagar pela janela, e eu fiquei lá, deitada, abraçada ao travesseiro. Fechei os olhos, tentando não pensar demais, mas o site, o grupo, a oportunidade, tudo aquilo rodava na minha cabeça. Virei de lado, encostei o rosto no travesseiro e suspirei, sentindo aquele misto de esperança e medo.
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Komentar Buku (267)
MatosMelyssa
Quero saber qual a ideia da Sara agora kkkkkk
7h
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Da SilvaNatali
um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
Quero saber qual a ideia da Sara agora kkkkkk
7h
0um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
1d
0tipo isso é muito bom garanto para todo mundo
4d
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