Eu estava na sala de aula, mas minha cabeça não. O professor falava sobre balanços e projeções, e eu só via números dançando sem sentido. Meu caderno tinha mais rabiscos do que anotações, triângulos, guitarras, qualquer coisa que me distraísse. Eu nem lembrava por que estava ali. Ah, claro, porque é o que o meu pai quer. Porque dizem que é o certo, o caminho para o sucesso. Suspirei e puxei o celular do bolso. Uma notificação piscava na tela, e eu sabia que não era coisa boa. “Quando sair da faculdade, venha direto pra empresa. Temos uma reunião importante. Preciso que esteja lá.” Senti meu estômago embrulhar. Ele sempre falava como se fosse uma ordem, e não um convite. Guardei o celular no bolso de novo, tentando ignorar o peso que isso trazia. Estudar administração em Belo Horizonte tinha seu charme. A cidade era grande, mas também tinha seus cantos cheios de música, com bares e praças onde parecia que todo mundo tinha algo a dizer. Mas pra mim, às vezes, nem a beleza das montanhas ao fundo me tirava do caminho que eu não queria trilhar. Quando a aula acabou, eu saí rápido, sem trocar palavra com ninguém. O caminho até a empresa foi como sempre, um silêncio só meu, misturado com o barulho dos ônibus e a certeza de que eu estava indo pra um lugar onde eu não pertencia. Cheguei lá e fiquei parado um instante na calçada, respirando fundo. Eu sempre me sentia como se vestisse uma máscara quando entrava naquele prédio. Era só um garoto no curso de administração, mas todo mundo me olhava como se eu já fosse o patrão. Entrei e encontrei meu pai no saguão, já sorrindo e apertando a mão de todo mundo. Quando me viu, me puxou pro lado dele. — Esse aqui é o Victor, meu filho. O futuro da empresa — disse, batendo de leve no meu ombro. Eu forcei um sorriso, meio sem jeito, e estendi a mão pro homem de terno que estava ali. Ele apertou minha mão como se já soubesse que eu ia comandar tudo um dia. Mas eu não queria nada daquilo. Eu queria estar em outro lugar, segurando minha guitarra, não numa reunião falando de planilhas e lucros. A reunião passou arrastada. Eu fiquei ali, quieto, só ouvindo. Não falei quase nada, acho que ninguém esperava que eu falasse mesmo. Quando acabou, meu pai ainda ficou conversando com os colegas, orgulhoso. Eu saí antes que ele pudesse me prender ali por mais tempo. Do lado de fora, respirei fundo e peguei o celular de novo. Abri a conversa com o Lucas. Ele sempre foi um cara que entendia as coisas, que sabia que eu não era feito pra ficar atrás de uma mesa. “Cara, tô precisando esvaziar a cabeça. Posso passar na sua casa hoje?” A resposta veio quase na mesma hora. “Claro, irmão! Vem pra cá. Minha mãe tá fazendo uns bolinhos. Você sabe que é sempre bem-vindo.” Sorri de leve. Aquilo me deu um pouco de paz. Fechei os olhos e fiquei parado ali na calçada, tentando lembrar que ainda tinha coisas que faziam sentido na minha vida. E que, pelo menos hoje, eu podia ser só eu mesmo, sem o peso do “futuro da empresa” grudado no meu nome. Cheguei na casa do Lucas, um pouco afastada da minha. Consegui pegar um ônibus que demorou mais do que eu queria, mas pelo menos me tirou de perto de tudo aquilo. O Uber tava demorando muito, parecia que a cidade toda tinha resolvido sair de casa ao mesmo tempo. O pai ia surtar se soubesse que eu tava pegando ônibus. Sempre dizia que aquilo não era seguro, que eu devia pensar mais no futuro, como se o futuro fosse feito só de carro importado e reuniões. Mas eu gostava de ver a cidade pela janela do ônibus. tinha um jeito de me lembrar que ainda existia vida fora dos muros da empresa da minha família. Mesmo que demorasse, eu não me importava. Pelo menos ali eu podia respirar um pouco. Desci na parada perto da casa do Lucas. A rua era tranquila, cheia de árvores que faziam sombra no sol do fim de tarde. A casa dele era simples, mas tinha aquele jeito de lar que me fazia sentir bem-vindo antes mesmo de entrar. A gente se conheceu na escola, no Fundamental. Eu lembro que no começo a gente nem se falava muito, mas a música aproximou a gente. Eu sempre fui da guitarra; ele, da bateria. E foi assim que a gente virou amigo de verdade. Quando cheguei, o cheiro de comida caseira me fez esquecer por um segundo toda aquela confusão que minha vida era. Dona Célia tava na cozinha, e o cheiro de tempero e massa me deixou até tonto de fome. — Victor, meu querido! Entra, o Lucas tá no quarto dele. Vai lá, depois eu levo uns bolinhos pra vocês. — Obrigado, Dona Célia. Subi as escadas até o quarto do Lucas. Ele tava lá, ajustando a bateria, com fones de ouvido pendurados no pescoço. Quando me viu, abriu um sorriso e a gente se cumprimentou com aquele toque de mão que só a gente entendia. — Fala, Victor! — Ele ajeitou o banco da bateria e me olhou. — Tá com a cara de quem enfrentou um furacão. Teve reunião de novo? — O de sempre — respondi, sentando no canto do quarto, perto do amplificador. Lucas respirou fundo e balançou a cabeça. — Cara, isso não deve ser fácil. Teu pai sempre te empurrando pra esse caminho que você não quer… — É complicado — suspirei. — Eu sei que eles só querem o melhor pra mim, mas… ali não sou eu. Não tem espaço pra quem eu sou de verdade. Lucas largou as baquetas por um segundo e se virou totalmente pra mim. — Eu sei. Mas você não pode esquecer quem você é, Victor. Mesmo que eles não entendam, a tua vida é tua. A música… é isso que te faz vibrar, cara. Não deixa ninguém tirar isso de você. — Eu sei, mas às vezes parece que não tem jeito, sabe? Ele sorriu de leve. — Sempre tem jeito. E falando nisso, tem algo muito interessante que eu quero te contar. Mas… deixa pra depois. Primeiro, ouve esse som novo que eu tô montando. Eu dei um meio sorriso, curioso pra saber o que ele queria dizer. E, mesmo sem saber, eu já me sentia um pouco mais leve só de estar ali.
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Komentar Buku (267)
MatosMelyssa
Quero saber qual a ideia da Sara agora kkkkkk
14h
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Da SilvaNatali
um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
Quero saber qual a ideia da Sara agora kkkkkk
14h
0um assunto bem profundo que envolve o sonho dele e também o do pai
2d
0tipo isso é muito bom garanto para todo mundo
5d
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