Há dias que as coisas não andavam bem para Eirene e seus dois irmãos. Sem dinheiro, sem família, sem auxílio, e sem poder fugir daquele lugar maldito, a jovem não teve outra escolha, senão furtar ou pegar sobras dos lixos. Não era algo que causava orgulho. Mas, era necessário. Com o avançar das estações e tudo piorando logo já não tinha mais lixo para fuçar, pois alguém sempre chegava primeiro. Nem nada para roubar, pois os ricos tornaram-se espertos perante a situação miserável dos moradores de Celborbun. Sequer havia como escapar da cidade; soldados, noite e dia, faziam a vigília do portão. Estavam todos presos e condenados ali. Para sempre. Quando soube que alguns nobres oriundos de terras estrangeiras haviam chegado em Celborbun para acompanharem o garimpo de perto, Eirene foi tomada pela angústia e por pensamentos errados. Os recém-chegados eram navegadores e pesquisadores. Homens solteiros, que estiveram por vários dias em alto-mar até chegarem ali. Ricos. Era o que diziam as moçoilas. Solteiros, ricos e que pagavam em moedas de ouro. Não demorou para que as mais jovens começassem a vender seus corpos para os forasteiros. Eirene observava o quão parecia lucrativo. O quão bem pagas eram elas. E, novamente, foi tomada por pensamentos errados. Uma certa noite observou seus irmãos dormindo tranquilamente. Ela sabia. Assim que despertassem pela manhã, a fome voltaria a assombrá-los, pois há dias não comiam nada. Com o coração apertado, e o medo invadindo-a, ela rapidamente deixou o casebre, certa do que faria naquela noite. Todos eles estavam na praça de Celborbun. Como desconfiava. Andando um pouco tomada pela timidez, Eirene caminhou até o grupo de homens que bebiam e trocavam beijos ardentes com jovens mulheres ao ar livre, enquanto uma fogueira queimava no centro da praça. Ao perceber os muitos olhares de malícia sobre si, imediatamente pensou em desistir daquela besteira. Mas, já era tarde demais para voltar atrás. Seus irmãos dependiam dela. Ou fazia aquilo, ou acabariam morrendo de fome. Então, prendendo o choro, ela aproximou-se de um homem alto e forte, cujas longas tranças loiras caíam até o peitoral nu bem esculpido. Ele estava sentado na entrada de um bordel. Bebendo lentamente algo que ela deduziu ser cerveja. Ao vê-la o estranho abriu um sorriso carregado de lascívia. — Boa noite, anjo. — cumprimentou-a, com um sotaque carregado. Oh, sim. Um estrangeiro. O alvo certo. — Boa noite. O homem se levantou. E foi até ela. — Acredito que não veio até aqui apenas para dançar. — falou. Eirene assentiu, tentando esconder o nervosismo que sentia. O loiro sorriu. Tocou-a nos cabelos. E os jogou para trás deixando o rosto dela um pouco mais visível. — você parece bem nova. Quantos anos tem? — Fiz dezessete há pouco tempo. — aquilo era uma verdade. O homem pareceu satisfeito. — Lhe pagarei bem. O suficiente para que compre um belo par de sapatos. A jovem nada respondeu. Ao invés disso, forçou um sorriso para esconder o medo. Não muito distante dali, no meio de uma viela escura, estava o soldado Keidan. Com três moças. Provavelmente, prostitutas. Embora sendo presenteado pelos lábios de uma linda morena que o estimulava sem poupar energias, enquanto a ruiva lhe beijava freneticamente a boca e a loira deixava-o mais quente com beijos molhados pelo peitoral nu, o rapaz as vezes abria os olhos e encarava o nada na escuridão ao longe. Completamente alheio . Como se não soubesse o que estava fazendo. Bom. Ele estava bem sóbrio. Só um pouco disperso. Aquilo havia perdido o sentido há muito tempo. Seus olhos vaguearam sem rumo por todos os cantos da praça. Até avistar, ao longe, uma figura que lhe pareceu um tanto familiar. Eirene fechou os olhos, apertando-os com força, ao sentir os lábios quentes do loiro tocando-lhe o pescoço. Suas mãos pareciam querer empurrá-lo para longe, ao mesmo tempo que seu coração ansiava pelo fim do tormento. O choro permaneceu preso na garganta enquanto o forasteiro só depositava beijos suaves em seu colo. Mas, quando as mãos masculinas a agarraram pela cintura, puxando-a para mais perto dele, um gritinho agudo escapou de sua garganta. — Deixe os gritos para depois. — balbuciou o forasteiro tentando beijá-la na boca. Eirene , tomada pelo favor, cerrou os lábios e virou o rosto. Só os céus sabiam o quanto estava arrependida naquele momento. Lágrimas desciam de seus olhos enquanto ela tentava afastá-lo. — Será gostoso. Prometo. — ele sorriu. De repente, o loiro foi bruscamente puxado para trás e derrubado no chão. Eirene levou um tempo para processar que ele havia levado um soco. Com algumas mechas de cabelo sobre o rosto, e com a blusa desabotoada deixando o peitoral definido à mostra, Keidan parecia um pouco fora de si. Ele fitou Eirene com seus olhos negros de Ônix, completamente tomado por um sentimento estranho. A jovem por sua vez o encarava assustada. Medo. A única coisa presente no olhar dela. Mesmo quando a situação amenizou, e ele a levou para longe daquela praça cheio de bêbados, prostitutas e abutres do além-mar, o mais puro e genuíno medo permaneceu preso nos tristes olhos femininos. — Deixe-me em paz! — berrou ela. —É assim que me agradece por ter lhe salvado? — protestou ele de volta. Eirene limpou com as costas das mãos as lágrimas que insistiam em cair. — Vai fazer o mesmo comigo! — Keidan franziu o cenho diante o ataque.— Ao menos, aquele homem iria me pagar! Ele não conseguiu esconder o quão ofendido estava com a acusação. — Não vou lhe fazer nada!— ao menos, tinha o direito de se defender. — se eu quisesse usá-la, já o teria feito! Naquela noite em que a encontrei despida e machucada! Fui eu, Eirene! Eu que a levei para casa e impedi que algo pior lhe acontecesse! E fiz isto pela segunda vez. Ao que parece, desconhece o significado da palavra gratidão. A jovem riu. — Você é um soldado de Ágoston. Não merece nada além de meu desprezo. — cuspiu as palavras, e o rapaz sentiu-se romper por dentro. — há sangue em tuas mãos. O sangue de meus pais e de todos desta cidade que morreram estão em tuas mãos. A vontade de responder ''eu não matei ninguém'' o corroeu. Mas ele sabia exatamente o que Eirene queria dizer com aquelas palavras. — Me despreza porque sou um soldado? Os olhos amendoados foram de encontro aos dele. E, por um instante, o soldado enxergou nas íris douradas daquela jovem todos os medos. Todos os anseios. Todas as dores que ela carregava dentro de si. O reflexo de uma alma inocente atormentada pela ambição dos outros. Então, ele soube. Que, por mais que quisesse tê-la perto de si, confessar tudo o que sentia sem receio algum, jamais poderia pertencer à ela por completo, pois, estavam separados por uma barreira. Eirene abaixou o rosto e escondeu-o com uma das mãos. Sem nada mais dizer, ela saiu correndo até desaparecer por entre as vielas estreitas e escuras. Keidan permaneceu parado onde estava. — Eu não sou um monstro. — palavras que, involuntariamente, escaparam de seus lábios enquanto erguia o rosto para os céus. Abriu os olhos. Observou a vastidão negra repleta de estrelas brilhantes. E repetiu: — Eu não sou um monstro.
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esse livro é muito bom
03/01
0uma bosta gostei muito
08/03/2025
0muito bom
18/02/2025
0Lihat Semua